Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

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O Leitor Bloqueado

Publicado por Lúcio Manfredi em 26/02/2010

Um espectro ronda a vida de todo escritor que se preza ou se despreza: o bloqueio criativo. Encarar a página em branco com a cabeça vazia, ou com a cabeça cheia mas os dedos dormentes, ter uma necessidade aguda de escrever e ainda assim ser incapaz de fazer as palavras encontrarem o caminho até o papel. Being there, done that. Mas, neste início de 2010, eu tropecei com uma síndrome que nunca tinha enfrentado desde que aprendi a ler assistindo Vila Sésamo, lá pelos idos de 1975, e que é o reverso exato do writer’s block: o reader’s block.

O ano começou bem, com Duma Key, de Stephen King, e Singularity Sky, de Charles Stross, e eu fechei janeiro com um saldo de dez livros lidos, o que não é nada perto de gente como meu amigo Fábio Fernandes, que nesse mesmo tempo já tinha mandado goela abaixo quase cinquenta livros, mas é uma média aceitável para mim. Por outro lado, se eu examinasse a lista com mais cuidado, teria soado o primeiro sinal de alerta: desses dez livros, só dois – justamente os dois que eu citei – eram de ficção.

Em fevereiro, meu ritmo de leitura despencou ladeira abaixo. Abri o mês lendo City at the End of Time, de Greg Bear, e fecho o mês lendo… City at the End of Time, de Greg Bear. Ok, parte da culpa cabe ao livro. Bear costuma ser um escritor genial,  City at the End of Time tem uma premissa fascinante e é recheado com ideias que exsudam sense of wonder. No dia em que conseguir terminá-lo, espero até comentar por aqui. Mas a história vai se desdobrando num ritmo de conta-gotas e as descrições, longas e arrastadas, não são exatamente o que se poderia chamar de um tributo a Page Turner. Mas seria injusto fazer dele o bode expiatório das minhas parcas leituras no mês. Até porque tentei entremear o romance de Bear com outros livros e praticamente nenhum deles engrenou até agora.

Eu me pergunto para onde foi o tempo que normalmente dedico a leituras, e porque levou com ele aquela sensação de arrebatamento que faz as páginas voarem diante dos meus olhos. Não foi excesso de trabalho. Só agora, no final de fevereiro, é que eu peguei um trabalho que consome dias inteiros. Não foi o carnaval, que eu passei em casa, revisando o meu romance. Não foi nem mesmo a revisão, que é bico comparada à tarefa de escrever o romance, coisa que eu fiz no ano passado e não impediu que eu chegasse em dezembro com quase cem obras de ficção devidamente degustadas, fora os livros de não-ficção.

Postei um comentário sobre isso no Twitter e recebi centenas de respostas de leitores que estavam passando pela mesma situação no mesmo período. Tá, não foram exatamente centenas. Na verdade, foram só três. Mas é o bastante para me fazer pensar que o problema não é localizado, mas fruto de algum tipo de conjuntura cósmica ou astrológica.

Deve ter a ver com as manchas solares.

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O Livro por Vir

Publicado por Lúcio Manfredi em 08/11/2009

KindleQuem diz que os ebooks nunca vão substituir os livros confunde o suporte com o conteúdo. Esse equívoco é ajudado pela linguagem comum, que não tem uma palavra para diferenciá-los. Eu digo que estou escrevendo um livro (conteúdo), da mesma forma que digo que vou comprar um livro (suporte) na livraria. O fato é que os ebooks nunca vão e nem podem substituir os livros pelo simples motivo de que ebooks são livros. Apenas usam um suporte diferente do quase milenar pacote de folhas de papel encadernadas. E aí, sim, no que se refere ao suporte, os ebooks não só vão como já estão começando a substituir os livros de papel. E acredite, com enormes vantagens.

Considere, por exemplo, o Kindle. Ele é perfeito? Não. Pode-se pensar em uma série de melhorias, algumas das quais, diga-se de passagem, já foram introduzidas no Nook da Barnes & Noble, que deve se tornar o principal concorrente do Kindle. Mas mesmo o Nook ainda está longe de tudo o que é possível pensar e fazer em termos de ebooks. Especula-se por aí que o tablet da Apple talvez seja o Dom Sebastião dos ebooks, mas como especula-se muito e sabe-se muito pouco, fiquemos por enquanto com o Kindle.

Ao contrário dos monitores de computador ou celular que até então vinham sendo usados para ler ebooks, o papel eletrônico do Kindle cansa menos a vista do que o papel vegetal.

O Kindle pesa menos e ocupa muito menos espaço do que a grande maioria dos livros. Apesar disso, dentro dele cabem nada menos do que 1500 volumes. Isso quer dizer que toda a minha biblioteca (aproximadamente 10.000 livros, que ocupam dois quartos inteiros, o quarto da empregada e metade da sala de um apartamento razoavelmente grande) equivale a pouco mais do que meia-dúzia de Kindles. Uma vez que cada Kindle tem mais ou menos 0,8 cm de espessura, eu poderia trocar minhas quase vinte estantes por míseros 5 cm no canto da minha mesa de trabalho e estaríamos conversados.

(Não que você tenha que comprar um novo Kindle a cada vez que entupir a memória, mind you. O exemplo é só para fins de comparação. Os livros podem ser armazenados no hd do computador ou mesmo, se você tiver confiança suficiente nas grandes corporações, na sua biblioteca digital no site da própria Amazon.)

Além disso, ele é mais fácil de manusear do que um livro de papel. E se você, como eu, é do tipo que gosta de sublinhar e anotar, não precisa mais espremer as anotações nas margens da página. Sem falar que não estraga o livro com riscos e rabiscos.

As grandes desvantagens são a ausência de cor e a relativa dificuldade de exportar trechos do livro para, por exemplo, citar numa resenha ou artigo. Acaba sendo mais fácil copiar o texto manualmente… que é exatamente o que você faz quando vai citar um livro de papel. Ou seja, em seu pior, o Kindle iguala o livro de papel. E em seu melhor, supera – e muito.

Nookpanel_0(Ah, sim, a cor. Pois é, as capas pb são mais uma questão de economia de memória e largura de banda do que uma impossibilidade técnica. Tanto que o Nook já não tem esse handcap, e pode apostar que os próximos modelos do Kindle também não vão ter.)

Foi assim, apresentando vantagens em relação ao suporte anterior, que o livro de papel se impôs sobre os pergaminhos, que por sua vez substituíram os papiros, que por sua vez já eram uma melhoria em relação às tabuletas de argila. Mas todos esses meios não passam de avatares progressivos, encarnações do mesmo objeto metafísico – a idéia platônica do livro, o livro por vir.

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