Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Arquivo da categoria ‘Notas e Ruminiscências’

Galeria do Sobrenatural

Publicado por Lúcio Manfredi em 29/10/2009

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O blog ficou parado tanto tempo que nem sei se alguém ainda me lê. (Prometo que vou tentar consertar isso com atualizações mais frequentes, mas eu estou sempre prometendo que vou tentar consertar isso com atualizações mais frequentes.) Mas, para o caso de algum desavisado cair por aqui empurrado pelo vento kármico dos mecanismos de busca, fica o convite: dia 31 de outubro, das 15h00 às 18h30, a editora Terracota estará lançando na Livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509) a coletânea Galeria do Sobrenatural, uma homenagem mais do que merecida à antológica série Além da Imaginação (Twilight Zone), criada por Rod Serling há exatos 50 anos. Além da sessão de autógrafos, o evento vai exibir o primeiro episódio de Além da Imaginação, seguido de um bate-papo com a crítica Fernanda Furquim, da Revista TV Séries.

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Organizado por Silvio Alexandre e composto por contos que buscam recriar a atmosfera de inquietante estranheza do seriado, o livro reúne alguns dos nomes mais expressivos da literatura fantástica brasileira, um ilustre convidado português e autores representativos da nova geração de escritores, além deste que vos fala, que não é nem nome expressivo, nem autor representativo, muito menos convidado ilustre,  mas que conseguiu entrar de bicão e está torcendo para não ser desmascarado no dia do lançamento.

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Melting Pot

Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2008

E, como o mundo é uma tapeçaria de sincronicidades entrelaçadas, logo depois de escrever os dois posts anteriores, peguei para ler a antologia de Ann & Jeff Vandermeer sobre o new weird e tropecei com vários trechos pertinentes a ambos os posts. Segue-se uma colagem dos textos (que eu peguei daqui, mas que pode ser encontrada na íntegra aqui):

Justina Robson: [...] I think that Literature is going to come to SF and try and take the entire thing over by main force in the next five years. Compare, for interest, two recent publications; Jeff Noon’s Falling Out of Cars and Don De Lillo’s Cosmopolis. (Personally I think the main difference will be that one is fun to read and the other isn’t, but that’s not what I’m getting at. I think these two books are about exactly the same thing.) I think this has to happen, because the world has turned into an SF world. [...]

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M. John Harrison: Justina: Speaking of carpetbagging from the mainstream, I think you’re absolutely right, and that a big convulsion is in the offing. We need to take the advantage and get our act together, certainly. But I’m not as convinced as you that we’ll lose. (After all, we have Battleship Mieville.) It’s up to us, as individuals and as sharers of some labelled or unlabelled umbrella, to make ourselves as strong and feisty as possible. There will be a melting pot, at some level, although personally I think it will take the form of a steadily-enlarging slipstream. Up to us to allow for that and see it as an opportunity, not a defeat. To be honest, I’m in favour. The prospect shakes me out of my old guy’s lethargy. I’m ready to swim or drown…

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M. John Harrison: [...] Life in the West now is a crossply of fantasies. Because we understand fantasy from the inside, we’re the people to write about that, too. It seems to me that as a result we should open this front of the struggle-to-name, the front that faces out from the ghetto, with a certain confidence.

I’m aware here that I’m not talking directly about the New Weird, & that I’ve bundled it with Brit SF. Deliberately, because I see them both as responses–or not quite that, probably some better word–to the same situation, which is the increasing convergence of concerns between literary mainstream fiction and f/sf. Thus back to Justina’s point: they are soon going to be tackling exactly the same subjects as us. I don’t think we can beat them, in the sense of taking them on directly; but I don’t think we have to. I’m in favour of a melting pot–in fact I think it already exists, partly because “slipstream” has been quietly doing just that for a whole new generation of readers who are as happy with [my collection] Travel Arrangements as with a David Mitchell novel–although I’m very aware that both China and Justina have different views here.

(Incidentalmente, ao contrário de Justina Robson, eu não achei Cosmópolis chato – muito pelo contrário!)

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FC e(´) Mainstream

Publicado por Lúcio Manfredi em 05/12/2008

Há muito tempo – quase numa galáxia muito distante – um autor (Brian Aldiss, talvez?) observou que a ficção científica não se opunha ao mainstream, ela era o próprio mainstream. Naquele momento, a observação pode ter sido só uma bravata, mas também pode ter sido uma antecipação daquilo que estava por vir e que alcançou sua corporificação plena a partir da última década do século XX e primeiros anos do século XXI: à medida que a revolução informática foi ganhando as ruas, a própria realidade tornou-se cienciaficcional, e isso no nível mais quotidiano possível, com computadores pessoais, celulares, Internet, tevês de plasma e LCD, realidade virtual, mundos virtuais, comunidades virtuais, conceitos e equipamentos muitas vezes diretamente antecipados pela ficção científica.

Mas, muito mais do que uma antecipação pontual de idéias e inventos, a ficção científica ajudou a moldar a sensibilidade adequada para lidar com esse admirável mundo novo que surgiu. Pessoas que ainda hoje têm um desprezo elitista ou ignorante (no sentido literal: não sabem e nem querem saber nada sobre a fc) vivem imersos no ambiente e na sensiblidade cienciaficcional, mais ou menos no mesmo sentido em que o homem comum exprime um desprezo solenemente preconceituoso pelos nerds (um universo que intersecta o da ficção científica em muitas áreas), ao mesmo tempo em que não se furta de usar equipamentos e programas desenvolvidos por aquelas pessoas mesmas que são o alvo de seus preconceitos.

Um fenômeno semelhante ocorre no campo da literatura. Uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista não pode deixar de refletir o ambiente de alta tecnologia em que vivemos e, consequentemente, a sensibilidade cienciaficcional que o moldou (e foi moldada por ele, é uma via de mão dupla).

Em outras palavras, uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista é virtualmente indistinguível de um romance de ficção científica – exceto por um detalhe pequeno, mas nada irrelevante: a ficção realista vem na rabeira das transformações sociais geradas pela tecnologia, ao passo que a ficção científica descreveu essas transformações antes que elas ocorressem e, mais do que isso, ajudou a pavimentar o caminho para elas.

“Sois modernos atrasados ou contemporâneos do futuro?”, perguntavam Louis Pauwels e Jacques Bergier no seminal O Despertar dos Mágicos. De certa forma, a linha que separa a ficção dita realista da ficção científica passa exatamente por aí. Os de lá são modernos atrasados, tentando adaptar seus cânones às novas realidades (ou vice-versa), ao passo que os de cá são contemporâneos do futuro, visionários, não numa acepção estritamente cronológica – a ficção científica tem muito pouco a ver com prever o futuro – mas num sentido quase metafísico: autores de ficção científica sondam livremente o pool dos mundos possíveis, alguns dos quais eventualmente até podem ser atualizados nisto que chamamos de realidade, mas isso é o que menos importa. É na sondagem mesma de múltiplas perspectivas ontológicas que reside o grande trunfo do gênero, e não no eventual acerto lotérico de qual mundo vai cair na real. Sartre dizia que a força da imaginação está em sua capacidade de nadificar a realidade concreta e abrir a consciência para a exploração de outros existenciais possíveis. Com exceção da fantasia (quando não está presa a estereótipos pseudomedievais tolkienianos, ou seja, quase nunca), nenhum outro gênero literário cumpre esse programa com tanta desenvoltura quanto a ficção científica.

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