Mas é então que, ah, você mergulha na espuma serena do cérebro, ali onde tenros fantasmas redobram de intensidade e a beleza convulsiva faísca no brilho do olho de uma medusa cega, as palmas das mãos escancaradas, o líquido abraço de pecados sublimados colado aos lábios entreabertos da alvorada, uma canção esculpida na pedra pome de tuas vértebras filosofais. Porque basta o toque de teus dedos neste fiapo de nuvem para que um universo venha a ser no labirinto entrecruzado de sinapses, nos recessos tumultuados dos lobos temporais, no grito congelado da eternidade que repousa entre segundos que gotejam solenes. E a batida do tambor acalenta a pulsação ígnea de todas as cores que se reúnem em teus cabelos lânguidos, o fogo serpentino que risca o céu azul do crânio e desperta as calotas polares de seus sonhos tremeluzentes. Anciã de cabelos prateados, mulher de pele argêntea, menina madrepérola, o tempo é teu coração que canta, o espaço é teu hálito que vibra. E você vem ao meu encontro por entre os corredores da noite e me estende a ponte do teu olhar e me conduz ao vértice desta pirâmide, a esta câmara secreta onde os mitos são forjados e os medos se estiolam, onde eu mesmo me estiolo e minha alma é forjada, até que só reste você, carne da minha carne, sangue do meu sangue, lunar e límpido fantasma que abre suas asas de prata e alça vôo por entre a espuma serena do cérebro.
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Transe
Publicado por Lúcio Manfredi em 08/01/2011
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