Rubem Fonseca é uma espécie de Rolling Stones da literatura brasileira. Como os brontossauros do rock, ele alcançou um nível alto de qualidade, onde vem se mantendo há décadas numa órbita geossincrônica. De lá, dispara um romance ou coletânea com a mesma periodicidade com que os Stones gravam um álbum. O livro aterrisa nas livrarias, vende bem, recebe várias resenhas positivas e algumas negativas, cumpre sua missão de manter o posto do autor entre os bambambans da literatura, e é isso. Não traz nada de novo, mas também não desestabiliza a órbita. A despeito do sangue e violência – que marcaram época quando da estréia de Rubem Fonseca em 1963, com Os Prisioneiros, e que em tempos pós-tarantinescos já não chocam ninguém – é uma literatura papai-e-mamãe: lê-se com prazer, mas sem frisson.
Não que haja alguma coisa errada com isso, muito pelo contrário. Aos 84 anos, depois de ter praticamente inventado a literatura policial brasileira e ao mesmo tempo elevado-a à respeitabilidade da crítica, depois de ter influenciado duas gerações de novos escritores, depois de ter sido publicado internacionalmente e adaptado para o cinema e a televisão, Rubem Fonseca já não tem mais nada que provar a ninguém. Poderia simplesmente se aposentar e viver da fama. Prefere continuar escrevendo, continua escrevendo bem – e isso é louvável.
O mais novo artefato a descer da órbita geossincrônica do autor é O Seminarista, primeiro romance em sua nova editora, a Agir, e alardeado como o primeiro romance brasileiro publicado simultaneamente em formato Kindle. Não é exatamente verdade porque o arquivo é em formato .mobi, que não é exclusivo do Kindle (o formato nativo do Kindle é o .azw). Mas roda bem no ebook reader da Amazon e tira um bom proveito de suas funcionalidades – ao contrário do pdf, que o Kindle agora lê mas lê mal.
O protagonista – de cuja verdadeira identidade sabemos apenas que se chama Zé, mas que durante a maior parte do livro adota o pseudônimo de José Joaquim Kibir – é um ex-seminarista que desistiu de vestir a batina, tornou-se ateu e virou matador profissional. Aos quarenta anos, cansado de assassinar desconhecidos com um tiro na cabeça, decide se aposentar. Larga o emprego, se apaixona mas, antes de se assentar como o dito cidadão respeitável, precisa lidar com uma ponta solta que ficou de uma de suas tarefas. E é aí que a proverbial porca vai torcer o seu proverbial rabo.
O Seminarista tem tudo o que se poderia esperar de um livro de Rubem Fonseca, assim como um álbum dos Stones tem tudo o que se poderia esperar de um álbum dos Stones. O texto elegante, fluente e ágil (li o livro todo em pouco mais de uma hora), carrega o leitor do primeiro ao último capítulo e, como de hábito, mistura ação quase ininterrupta e citações eruditas com a mesma desenvoltura com que Tarantino combina violência e referências pop. E como Rubem Fonseca não carrega o peso de um Nobel nas costas, não precisa arruinar a narrativa com Grandes Questões. O livro é o que se propõe a ser – uma boa história bem contada por um mestre em contar bem boas histórias.