Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Arquivo da categoria ‘Ficção Científica’

Reescrevendo Machado

Publicado por Lúcio Manfredi em 16/09/2010

Dom Casmurro e os Discos Voadores é o meu terceiro romance, mas o primeiro publicado em papel (Abismos do Tempo saiu como um ebook e o segundo, Encruzilhada, ainda está à procura de editora). Estou longe, portanto, de ser um romancista veterano. Nessas circunstâncias, a proposta de reescrever um dos principais livros de Machado de Assis foi nada menos que um desafio. Mas um desafio no qual eu mergulhei de cabeça e que me diverti muito peitando.

O convite veio em março deste ano, feito pelo Pedro Almeida, da Lua de Papel, um dos selos da Ed. Leya Brasil. Seguindo a tendência criada nos Estados Unidos por livros como Orgulho, Preconceito & Zumbis, de Seth Grahame-Smith, o Pedro reuniu um time de escritores para recriar clássicos da literatura nacional, recheando-os com elementos fantásticos. A mim coube Dom Casmurro e, quando eu cheguei à sede da editora para a primeira reunião, já tinha uma premissa na cabeça que eu achava que podia funcionar. O editor gostou da ideia, e eu passei os dois meses seguintes afundado no computador, tentando dar uma forma concreta à premissa. (Incidentalmente, é por isso que o blog ficou parado tanto tempo. Isso, mais uma operação de hérnia que não vem ao caso. :p)

Ok, para isso, era preciso definir alguns parâmetros.

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“O mundo fenomênico não existe; ele é uma hipóstase das informações processadas pela Mente.” (Philip K. Dick)

Publicado por Lúcio Manfredi em 02/03/2010

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Que diabo é a tal da new space opera? (3/3)

Publicado por Lúcio Manfredi em 14/01/2010

Diante de tudo isso que a gente acabou de ver, deve ter ficado evidente que a new space opera é menos uma ruptura do que um prolongamento da space opera clássica. É a boa e velha space opera sonhada por Lester Del Rey, só que incorporando o amadurecimento, a evolução e os desdobramentos que a ficção científica atingiu na segunda metade do século XX.

Em nenhuma outra obra essa sensação de continuidade fica tão nítida quanto na série Fundação, que começou a ser escrita pelas mãos de Asimov lá nos idos da chamada Era de Ouro, tornou-se o protótipo da space opera clássica, ficou em hibernação durante quase três décadas, foi retomada na década de 80 pelo próprio Asimov que, já velhinho e doente, fez uma tentativa canhestra de incorporar algumas das conquistas da new wave (como, por exemplo, a liberdade para falar de sexo na fc) e acabou sendo concluída em clave de new space opera pelos Killer B’s da ficção científica – Gregory Benford, Greg Bear e David Brin, que escreveram a Segunda Trilogia da Fundação com autorização do espólio do Bom Doutor.

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Que diabo é a tal da new space opera? (2/3)

Publicado por Lúcio Manfredi em 10/01/2010

Mas afinal, que diabo é a new space opera e em que ela se diferencia da space opera tradicional? Talvez o melhor seja começar pelas características que elas têm em comum.

Apesar de alguns clássicos da space opera, como Tiger! Tiger! e O Mundo de Null-A, se passarem dentro dos limites do Sistema Solar,  os quintais do Sol logo se revelaram insuficientes para as ambições cósmicas do gênero, que não tardou a concentrar o melhor de seus esforços no retrato de impérios galáticos e civilizações que abrangiam dezenas, centenas e até mesmo milhares de sistemas planetários, alguns habitados apenas por descendentes de colonizadores humanos, outros compartilhados com as mais variadas espécies alienígenas.

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Que diabo é a tal da new space opera? (1/3)

Publicado por Lúcio Manfredi em 06/01/2010

Revendo a lista das minhas leituras em 2009, constatei – não exatamente surpreso – que quase 20% dos livros que eu li no ano passado (18,75%, para os que insistem na precisão) foram de new space opera. Não chega a ser uma revelação chocante. Apesar de nunca ter sido um fã ardoroso da space opera clássica – com as exceções fundacionistas de praxe, que marcaram a minha adolescência – tenho uma queda pela versão contemporânea desse subgênero, frequentemente embebida com as conquistas do movimento new wave e com uma autoconsciência literária pós-moderna que, paradoxalmente, não perde o pé na exatidão científica hard.

O que é um tanto quanto chocante foi constatar que, embora tenham ocupado uma parcela significativa do meu tempo de leitura, virtualmente nenhum desses livros foi resenhado aqui. Claro que não dá pra chorar sobre o combustível de foguete derramado nem correr atrás dos parsecs perdidos, mas achei que seria de bom-tom começar o ano corrigindo essa injustiça com um post genérico sobre a new space opera. Primeiro porque eu não quero que nenhuma disfunção da realidade venha puxar o meu pé à noite. E segundo porque, como a questão “que diabo é a tal da new space opera” volta e meia pipoca pelos fóruns da rede, imagino que um pouco de informação sobre o assunto sempre vem a calhar.

(Como o post acabou ficando um tantinho grande, ele vai ser dividido em três partes.)

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Leituras 2009

Publicado por Lúcio Manfredi em 27/12/2009

Em matéria de leituras, 2009 acabou sendo um ano menos produtivo do  que eu esperava. Tinha me proposto a ler pelo menos cem obras de  ficção entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, mas leituras de  não-ficção, projetos profissionais e terminar de escrever o meu  romance me fizeram fechar pra balanço ao atingir a marca dos oitenta  livros.  Por outro lado, de um ano que começou com China Miéville, terminou com Iain M. Banks  e incluiu seis Dan Simmons massudos, a releitura de toda a Saga da  Fundação, o último Pynchon e o primeiro Fábio Fernandes, não se pode  dizer que tenha sido pobre.  Segue a lista, com links para os que (também menos do que eu gostaria)  foram resenhados aqui:

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Uma Experiência Visionária

Publicado por Lúcio Manfredi em 23/12/2009

Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena. Cento e cinqüenta minutos do mais puro estado de transe.

Queria escrever uma resenha mais decente, até porque o filme merece uma resenha mais decente. Eu deveria, por exemplo, rebater as críticas que dizem que o roteiro é uma coleção de clichês, e poderia fazer isso lembrando, com McLuhan, que todo clichê é um arquétipo desgastado pelo uso, mas que sempre é possível usar o clichê de maneira a recuperar e tornar relevante o seu núcleo arquetípico, que é o que James Cameron faz com a Jornada do Herói. Se quisesse ser cruel, contrastaria Avatar com Distrito 9 que, este, sim, é um amontoado de clichês costurados mal e porcamente por um diretor que se meteu a escrever o roteiro sem ter a menor noção de estrutura dramática, quanto mais de ressonâncias arquetípicas.

Não é o caso de Cameron.

Em termos de estrutura dramática, o roteiro de Avatar só não é perfeitamente equilibrado porque a longa duração do filme o obrigou a apelar para um deus ex machina (ou melhor, deus ex avis) a fim de solucionar um conflito importante, mas secundário em relação à ação principal. Em todo caso, o au(dire)tor seguiu a máxima aristotélica que diz que um deus ex machina pode ser amenizado se for plantado com antecedência, de modo que não pareça caído do céu mesmo quando isso é literalmente verdade.

Uma resenha decente também se estenderia sobre o deslumbramento visual do filme. Não existe um único fotograma em Avatar que não apresente uma riqueza de detalhes e surpresas visuais de entupigaitar o mais míope dos espectadores. Já que acabamos de falar de clichês, aqui vai mais um: Avatar é uma festa para os olhos, e isso mesmo sem o recurso do 3D, que é só a cereja do bolo. James Cameron levou dez anos trabalhando no filme, prometendo uma experiência cinematográfica única. E cumpriu a promessa.

Se esta fosse uma resenha decente, falaria também sobre a mensagem ecológica de Avatar, que é oportuna, e não oportunista, e se tornou ainda mais relevante depois do fiasco que foi a COP15. Na mesma semana em que os governos do mundo mostraram que estão dispostos a fazer qualquer coisa desde que não precisem fazer nada, não há como deixar de aplaudir um poderoso lembrete sobre a interdependência entre todas as formas de vida e o meio-ambiente. E aqui se compreende a função estratégica do clichê: ao se escorar em estruturas narrativas com as quais o grande público já está familiarizado, Avatar faz com que essa mensagem penetre na consciência coletiva em um nível mítico, emocional, capaz de mobilizar reações muito mais poderosas do que a mera argumentação racional, sempre passível de ser neutralizada por racionalizações hábeis como as que nos brindaram os discursos proferidos em Copenhague nos últimos dias.

Uma resenha decente, como a que o filme merece, diria tudo isso. Mas não estou em condições de escrever uma resenha decente como a que o filme merece. Não agora. Acabo de voltar do cinema, ainda sob o impacto de cento e cinqüenta minutos do mais puro transe, e tudo o que eu consigo fazer é repetir: Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena.

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We’re all Gnuppets, ou Seinfield meets Philip K. Dick

Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2009

Deitado no consultório de um acupunturista, o corpo cheio de agulhas e ouvindo um muzak que, segundo o terapeuta, vai estimular seu sistema límbico mesmo que conscientemente ele ache a música brega, Perkus Tooth contempla uma fotografia emoldurada na parede. É a imagem de um vaso opalescente, que enche seus olhos de lágrimas e parece lhe endereçar um questionamento mudo: Você negligenciou a Beleza?

Perkus Tooth é um dos protagonistas de Chronic City, o mais novo romance de Jonathan Lethem, um dos musos do slipstream, acostumado a frequentar com a mesma desenvoltura as páginas da The New York Review of Books e da Locus Magazine. O episódio do vaso ajuda a compreender o por quê.

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Summa Vampirológica

Publicado por Lúcio Manfredi em 30/11/2009

“Um pequeno detalhe”, diz Benjamin Franklin numa frase que o dr. Seward cita em algum ponto de Anno Dracula, romance de 1992 de Kim Newman recém-publicado no Brasil pela Aleph, “pode mudar o curso da história.” É desses pequenos – e às vezes não tão pequenos – detalhes que vivem tanto a história alternativa quanto a ficção alternativa, dois subgêneros da ficção especulativa que têm muita coisa em comum.

A diferença é que, enquanto a primeira se ocupa de eventos que poderiam mudar o curso da história, a segunda se concentra em pontos de divergência que alteram o enredo de uma obra de ficção. O que aconteceria se o Eixo tivesse ganhado a II Guerra Mundial? Se o Sul derrotasse o Norte durante a Guerra da Secessão? Se o Brasil tivesse perdido a Guerra do Paraguai? Responder a essas perguntas é fazer história alternativa. E se os Elder Ones de Lovecraft dominassem a Londres de Sherlock Holmes? Ou se o Phileas Fogg de Júlio Verne fosse um agente secreto alienígena? Nesse caso, trata-se de ficção alternativa.

Anno Dracula pertence a ambos os subgênereos ao mesmo tempo. Nele, Kim Newman muda o desfecho do romance de Bram Stoker e, com isso, também modifica irremediavelmente a história da Inglaterra e do mundo.

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Dabar

Publicado por Lúcio Manfredi em 17/11/2009

pesteE eis que aporta às livrarias Os Dias da Peste, primeiro – mas, espera-se, não o último – romance do escritor, crítico e teórico da cybercultura Fábio Fernandes. Um dos melhores contistas da ficção científica brasileira, introdutor do movimento cyberpunk no Brasil e veterano das antigas guerras de trincheiras travadas pelo fandom tupiniquim, Fábio Fernandes devia(-se) um romance que lhe desse espaço suficiente para expandir sua verve e inventividade de um modo que a forma concentrada do conto nem sempre permite. Publicado pela Tarja Editorial, que vem se firmando como um dos principais nichos da literatura de gênero no Brasil, Os Dias da Peste é esse romance.

Dividida em três partes, a história começa nos dias de hoje (mais exatamente, no dia 06 de abril de 2010) e segue até 2016, acompanhando – pelos olhos do técnico de computadores Artur Mattos – o que começa como uma série de panes nos equipamentos do mundo todo, apelidada pela imprensa de infodemia (e, dado o ouvido de Fernandes para trocadilhos, o cacófato é certamente intencional), e acaba desembocando na maior transformação de toda a história da humanidade.

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