Epistemonike Phantasia

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Uma Experiência Visionária

Publicado por Lúcio Manfredi em 23/12/2009

Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena. Cento e cinqüenta minutos do mais puro estado de transe.

Queria escrever uma resenha mais decente, até porque o filme merece uma resenha mais decente. Eu deveria, por exemplo, rebater as críticas que dizem que o roteiro é uma coleção de clichês, e poderia fazer isso lembrando, com McLuhan, que todo clichê é um arquétipo desgastado pelo uso, mas que sempre é possível usar o clichê de maneira a recuperar e tornar relevante o seu núcleo arquetípico, que é o que James Cameron faz com a Jornada do Herói. Se quisesse ser cruel, contrastaria Avatar com Distrito 9 que, este, sim, é um amontoado de clichês costurados mal e porcamente por um diretor que se meteu a escrever o roteiro sem ter a menor noção de estrutura dramática, quanto mais de ressonâncias arquetípicas.

Não é o caso de Cameron.

Em termos de estrutura dramática, o roteiro de Avatar só não é perfeitamente equilibrado porque a longa duração do filme o obrigou a apelar para um deus ex machina (ou melhor, deus ex avis) a fim de solucionar um conflito importante, mas secundário em relação à ação principal. Em todo caso, o au(dire)tor seguiu a máxima aristotélica que diz que um deus ex machina pode ser amenizado se for plantado com antecedência, de modo que não pareça caído do céu mesmo quando isso é literalmente verdade.

Uma resenha decente também se estenderia sobre o deslumbramento visual do filme. Não existe um único fotograma em Avatar que não apresente uma riqueza de detalhes e surpresas visuais de entupigaitar o mais míope dos espectadores. Já que acabamos de falar de clichês, aqui vai mais um: Avatar é uma festa para os olhos, e isso mesmo sem o recurso do 3D, que é só a cereja do bolo. James Cameron levou dez anos trabalhando no filme, prometendo uma experiência cinematográfica única. E cumpriu a promessa.

Se esta fosse uma resenha decente, falaria também sobre a mensagem ecológica de Avatar, que é oportuna, e não oportunista, e se tornou ainda mais relevante depois do fiasco que foi a COP15. Na mesma semana em que os governos do mundo mostraram que estão dispostos a fazer qualquer coisa desde que não precisem fazer nada, não há como deixar de aplaudir um poderoso lembrete sobre a interdependência entre todas as formas de vida e o meio-ambiente. E aqui se compreende a função estratégica do clichê: ao se escorar em estruturas narrativas com as quais o grande público já está familiarizado, Avatar faz com que essa mensagem penetre na consciência coletiva em um nível mítico, emocional, capaz de mobilizar reações muito mais poderosas do que a mera argumentação racional, sempre passível de ser neutralizada por racionalizações hábeis como as que nos brindaram os discursos proferidos em Copenhague nos últimos dias.

Uma resenha decente, como a que o filme merece, diria tudo isso. Mas não estou em condições de escrever uma resenha decente como a que o filme merece. Não agora. Acabo de voltar do cinema, ainda sob o impacto de cento e cinqüenta minutos do mais puro transe, e tudo o que eu consigo fazer é repetir: Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena.

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Noves Fora, Distrito 9

Publicado por Lúcio Manfredi em 10/11/2009

district9_posterCheguei à conclusão de que, quanto mais eu fico velho, mais eu fico ranzinza. Devo ser a única pessoa da face da Terra que não gostou de Distrito 9, a estréia nos longas do diretor sul-africano Neill Blomkamp, produzida por ninguém menos que Peter Jackson e que já vinha causando frisson meses antes de estrear, por conta de sua premissa original: usar um grupo de extraterrestres confinados contra à vontade em uma favela de Johannesburg como metáfora para tratar do preconceito racial.

E eu fui ao cinema predisposto a gostar. Juro por Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Pessoas que eu conheço e cuja opinião eu respeito tinham gostado. Pessoas que eu não conheço, mas cuja opinião eu respeito, tinham gostado. Pessoas que eu não conheço e para cuja opinião não dou a mínima também tinham gostado. Um filme capaz de conquistar essa rara unanimidade não pode ser ruim, certo?

Errado. Pelo menos na minha opinião. Não vou dizer que o filme é ruim porque, Nelson Rodrigues à parte, eu estou e sei que estou em minoria. Seria mais humilde – bem como um reconhecimento tácito do relativismo de todo juízo estético – dizer que comigo, o filme não funcionou.

alien_nationO principal problema é que, de original, mesmo, só a premissa. Se bem que nem isso, porque Alien Nation já tinha empregado a mesma metáfora nos pré-históricos anos 80, e isso numa série de TV, e equacionar alienígenas com minorias é um dos clichês favoritos na crítica acadêmica de ficção científica. Mas, enfim, ainda é uma metáfora apta e que, bem trabalhada, pode render obras interessantes.

De resto, não existe um diálogo no filme que não seja clichê de filme da Sessão da Tarde, com direito a frases melosas como “não desista de mim, porque eu não desisti de você”, um vilão que faz cara de mau e destila pérolas de vilão de desenho animado e uma última cena entre o humano e o alienígena que chega a ser constrangedora de tão ruim. Além disso, o roteiro é cheio de furos, com uma história que deixa de fazer sentido nos primeiros quinze minutos e daí para a frente vai ladeira abaixo em direção ao absurdo total, sempre embalada por lugares-comuns de um lado e pela pieguice do outro.

Até os alienígenas, embora sejam totalmente inumanos e se pareçam com camarões gigantes (que é, de fato, o termo pejorativo que as pessoas usam para se referir a eles), têm uma psicologia de personagem de soap opera, e sua linguagem feita de estalidos, quando traduzida, parece ser inteiramente composta por banalidades e platitudes.

district_9_prawn_commanderO que se salva, a meu ver, é o aspecto visual do filme. A aparência dos alienígenas é tão bem-construída quanto sua psicologia é mal-trabalhada, e a imagem da nave-mãe abandonada pairando nos céus de Johannesburg tem um impacto poderoso. É pouco, eu acho, para justificar tamanho auê em torno do filme.

Mas eu devo estar enganado. Afinal, Brutus é um homem honrado.

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