Na floresta triangular, a seguir ao crepúsculo
Publicado por Lúcio Manfredi em 07/01/2011
“Boys do severo, anônimos, encadeados e brilhantes intérpretes da revista espetacular que, sem esperança de que este estado de coisas mude, durante uma vida inteira irá ocupar o teatro mental, sempre, a meus olhos, evoluíram misteriosamente esses teóricos seres, que eu defini como sendo aqueles que guardam as chaves: são eles que têm a chave das situações, querendo eu com isto dizer que detêm o segredo das atitudes mais significativas que possa vir a tomar perante este ou aquele acontecimento mais raro que porventura me venha a marcar. É costume dessas personagens surgirem-me vestidas de escuro – talvez de casaca; o seu rosto escapa-se-me; julgo que serão umas sete ou nove – e, sentadas num banco, lado a lado, é também costume seu dialogarem entre si, de cabeça bem erguida. Seria sempre assim que, no início de cada peça, gostaria de os trazer à cena, atribuindo-lhes o papel de cinicamente descenderem os móbiles da ação. Ao anoitecer, e por vezes muito mais tarde (não escondo que a psicanálise teria, aqui, algo a dizer), como se cumprissem um rito, costumo eu encontrá-las, errantes e sem dizer palavra, à beira-mar, aflorando ao de leve e em fila indiana às ondas. Esse seu silêncio de nada me priva, pois, para falar a verdade, as suas conversas de banco sempre se me afiguraram singularmente desconexas. Se, na literatura, quisesse descobrir-lhes um antecedente, deter-me-ia, sem dúvida, no Halderblanou, de Jarry, de onde jorra, como uma nascente, uma linguagem litigiosa semelhante à deles, sem imediato valor de câmbio – nesse Halderblanou que, para mais, termina com uma evocação bastante semelhante à minha: ‘na floresta triangular, a seguir ao crepúsculo’.
Por que é que, a este fantasma, terá irremediavelmente de suceder-se outro, situado, sem sombra de dúvida, nos antípodas do primeiro? Na arquitetura daquela peça ideal a que há pouco me referia, ele tende, de fato, a fazer cair o pano no último ato sobre um episódio que se vai perder por detrás do palco, ou que, quando muito, é representado neste a uma inusitada profundidade. A isso o leva uma imperiosa preocupação de equilíbrio, a qual, no que se lhe refere, se opõe a toda e qualquer modificação que de dia para dia possa surgir. O resto da peça é mera questão de capricho, ou antes – como não tardo a perceber – quase não vale a pena ser inventado. Agrada-me supor que todos esses focos de luz de que o espectador usufruiu irão convergir num único ponto escuro. Louvável compreensão do problema, excessiva boa vontade do riso e do pranto, humano prazer de aplaudir ou de condenar: climas temperados! De repente, porém, quer se trate ainda do banco de há pouco ou de outro qualquer, por exemplo uma cadeira de café, eis o palco novamente marcado. Marcado, desta vez, por uma fileira de mulheres sentadas, trajadas de claro, com os mais encantadores vestidos que já se viu. Exige a simetria que sejam também sete ou nove. Entra um homem… reconhece-as: uma após outra? a todas ao mesmo tempo? São as mulheres que amou, as mulheres que o amaram, umas durante anos, outras um dia apenas. Que escuro faz!
Se no mundo nada conheço de mais patético é porque me é formalmente interdito suportar qual será, neste caso, o comportamento de qualquer homem – conquanto que não seja um covarde -, desse homem que tão frequentemente me costuma substituir. Mal existe, esse homem vivo que alguma vez tentou ou tenta ainda reequilibrar-se no traiçoeiro trapézio do tempo. E seria incapaz de contar, se não fora o esquecimento, esse animal feroz de cabeça de larva. O maravilhoso sapatinho facetado afastava-se em várias direções.
Resta insinuarmo-nos, sem grandes pressas, entre os dois impossíveis tribunais que se enfrentam entre si: o dos homens que eu, por exemplo, fui, quando amei, e o das mulheres que me surgem, todas elas, vestidas de claro. Assim, o mesmo rio redemoinha, deixa marcadas as garras, desvenda-se e passa, preso do encanto das doces pedras, das sombras e das ervas. A água, enlouquecida com os seus redemoinhos, como uma autêntica cabeleira de fogo. Para fluir, como a água, em pura cintilação, seria preciso perder a noção do tempo. Mas que defesa existe contra ele? Quem nos ensinará a decantar os prazeres do recordar?” (André Breton, O Amor Louco)