Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Reescrevendo Machado

Publicado por Lúcio Manfredi em 16/09/2010

Dom Casmurro e os Discos Voadores é o meu terceiro romance, mas o primeiro publicado em papel (Abismos do Tempo saiu como um ebook e o segundo, Encruzilhada, ainda está à procura de editora). Estou longe, portanto, de ser um romancista veterano. Nessas circunstâncias, a proposta de reescrever um dos principais livros de Machado de Assis foi nada menos que um desafio. Mas um desafio no qual eu mergulhei de cabeça e que me diverti muito peitando.

O convite veio em março deste ano, feito pelo Pedro Almeida, da Lua de Papel, um dos selos da Ed. Leya Brasil. Seguindo a tendência criada nos Estados Unidos por livros como Orgulho, Preconceito & Zumbis, de Seth Grahame-Smith, o Pedro reuniu um time de escritores para recriar clássicos da literatura nacional, recheando-os com elementos fantásticos. A mim coube Dom Casmurro e, quando eu cheguei à sede da editora para a primeira reunião, já tinha uma premissa na cabeça que eu achava que podia funcionar. O editor gostou da ideia, e eu passei os dois meses seguintes afundado no computador, tentando dar uma forma concreta à premissa. (Incidentalmente, é por isso que o blog ficou parado tanto tempo. Isso, mais uma operação de hérnia que não vem ao caso. :p)

Ok, para isso, era preciso definir alguns parâmetros.

Antes de mais nada, eu optei por me manter o mais fiel possível ao enredo do Dom Casmurro original. O que me interessava era determinar de que maneira a nova premissa modificaria o significado dos eventos do livro. Assim, Dom Casmurro e os Discos Voadores continua sendo a história de Bentinho, um garoto destinado pela mãe a ser padre, mas que se apaixona pela vizinha Capitu. A diferença é que isso agora envolve discos voadores e alienígenas.

A segunda decisão foi a de tentar reproduzir a voz narrativa de Bentinho. Tudo o que acontece no romance de Machado é filtrado pela perspectiva do narrador, a tal ponto que é impossível saber o que é fato e o que é fruto de sua imaginação paranóica. Tanto que a grande questão que Dom Casmurro levanta até hoje é se Capitu traiu ou não Bentinho. E eu não queria perder essa ambiguidade, especialmente quando o meu Bentinho, ao contrário do de Machado, passa por situações que vão muito além da banalidade do adultério.

Seth Grahame-Smith diz que Orgulho, Preconceito & Zumbis mantém 70% de Jane Austen, com 30% de acréscimos. Dom Casmurro e os Discos Voadores praticamente inverte essa proporção. Há vários trechos de Machado que são reproduzidos literalmente (a descrição dos olhos de ressaca de Capitu, por exemplo, era obrigatória), mas a maior parte do texto é minha. Isso, claro, não facilitou em nada a tarefa de manter a mesma voz narrativa – afinal, estamos falando de um dos maiores estilistas da literatura brasileira – mas espero que as costuras não tenham ficado (muito) visíveis.

Finalmente, eu quis evitar a maior tentação para um autor de ficção científica escrevendo uma história que se passa no século XIX. Apesar da ambientação, Dom Casmurro e os Discos Voadores não é um romance steampunk. A única tecnologia que aparece no livro é alienígena e já deixou o vapor para trás há milhares de anos.

Diferente do romance de Seth Grahame-Smith, o que eu me propus a fazer com Dom Casmurro e os Discos Voadores não foi uma paródia, e sim um pastiche – no sentido que esse termo recebeu na teoria literária pós-moderna, ou seja, uma reapropriação de estilos, personagens e histórias de outro autor como forma de releitura intertextual.

Entre outras coisas, a premissa que eu adotei me parecia o pretexto ideal para discutir a questão da alteridade entre os sexos, a natureza da nossa percepção da realidade (ei, eu continuo sendo um fã inveterado de Philip K. Dick!) e as forças obscuras que atuam sobre as nossas decisões aparentemente racionais, moldando nossas vidas sem que saibamos – todos os três, aliás, temas que também interessavam a Machado e que já estão presentes em Dom Casmurro, ainda que sob uma ótica não-fantástica.

Apesar do público-alvo da coleção ser predominantemente de jovens adultos, eu tentei escrever um livro que tivesse vários níveis de leitura, alguns inteiramente simbólicos. Não acredito naquela visão tradicional da chamada “literatura infanto-juvenil” que subestima a capacidade de compreensão de seus leitores. Monteiro Lobato, afinal, era useiro e vezeiro em usar metalinguagem, intertextualidade e recursos metaficcionais (as histórias da Turma da Mônica também, por sinal), e a leitura em camadas é uma tendência que pode ser encontrada em filmes como Shrek, Os Incríveis e em boa parte (ou na parte boa) do cinema “infanto-juvenil” contemporâneo.

Escrever Dom Casmurro e os Discos Voadores, com o Bruxo do Cosme Velho encarapitado sobre o meu ombro, foi uma experiência rica para mim como autor. Espero que os leitores a achem igualmente interessante.

17 Respostas para “Reescrevendo Machado”

  1. Mila disse

    Lúcio, sou suspeita pra falar de Lobato por ele ser simplesmente o maior culpado pelo fato de eu adorar ler desde que aprendi a fazê-lo. Planejo reler a coleção do Sítio assim que possível. Apesar de quando criança já ter lido boa parte daqueles livros mais de uma vez (rs!), como você mesmo diz, um bom livro pode ter vários níveis de leitura, captáveis para leitores de diferentes níveis, e eu tenho certeza de que hoje saberia curtir ainda mais esses outros níveis. “A Chave do Tamanho”, por exemplo, é uma maravilhosa distopia e eu só fui perceber isso muuuuitos anos depois de tê-la lido, rs!

    Sua nova obra parece muito interessante e a capa está lindíssima. Parabéns!

    Também me chamou a atenção o fato de ter sido uma obra encomendada, tendência que eu espero que cresça no mercado de literatura fantástica – afinal, os autores merecem seu ganha-pão.

    Beijos!

  2. Lúcio Manfredi disse

    Oi, Mila! Pois é, eu também sou suspeitíssimo pra falar do Lobato, também comecei a ler por causa dele, li e reli o Sítio umas dez vezes quando era criança: chegava no último volume e voltava pro primeiro, rs. Depois de adulto, fui reler em 2007, quando entrei pra equipe que escrevia o Sítio pra TV, e fiquei simplesmente besta com a sofisticação do texto para um adulto. Além de vários níveis de leitura, o Lobato já usava uma série de recursos narrativos que hoje a gente costuma considerar como “pós-moderno”. Mas tudo com uma simplicidade, uma naturalidade que fazem essas coisas passarem despercebidas: elas não estão lá pro Lobato exibir o virtuosismo dele como autor, mas a serviço da história que ele tá querendo contar. E isso é genial!

    Tomara que você goste do livro tanto quanto da capa. :)

    Bjs.

  3. Giseli disse

    Pô, que legal, Lúcio! :)
    Bem que queria ir no lançamento, mas acho difícil… de qualquer modo, vou garantir meu exemplar de um modo (no lançamento) ou de outro (comprando depois) hehe. Curti muitos dos livros do Machado de Assis ^^ E gostei da ideia de ser encomendado, pegar alguns clássicos e recheá-los, quem sabe atiça um pouco mais o interesse de quem tem que ler essas obras pro vestibulares da vida…
    Quer dizer que operou? Já tá 100% agora?
    Parabéns pelo livro! :)

  4. Lúcio Manfredi disse

    Oi, Gi! Eu diria que já tô 90%, rs.
    Que pena que vai ser difícil você ir ao lançamento. Mas se você conseguir, eu vou adorar! E, claro, no lançamento ou depois, a dedicatória já tá garantida. :)
    Bjs.

  5. Octavio disse

    Lúcio, não poderei comparecer ao lançamento, pois estarei envolvido até os (poucos) cabelos com a IV Semana de Quadrinhos da UFRJ e com o aniversário da Luciana (no mesmo dia!), mas quero que saiba que É MUITO BOM TER UM LIVRO SEU BEM DISTRIBUÍDO! Você merece e tenho certeza que o público também.

    Estava faltando mesmo um romance seu para perfilar na estante ao lado dos do Gérson, do Fábio, do Max e, pq não, do Bráulio. ;-)

  6. Lúcio Manfredi disse

    E do teu, né? A Mão Que Cria não pode ser esquecida jamais… :)

  7. adi disse

    Oi Lúcio, que bacana!

    Já estava com saudade de te ler. Vou encomendar o meu pela livraria da Folha, pena que não vai ter dedicatória. :)

    Parabéns!

    bjs

  8. Lúcio Manfredi disse

    Oi, Adi!
    E eu, com saudade de escrever, rs. Pena mesmo, eu teria o maior prazer em escrever uma dedicatória caprichada pra vc, rs.
    Bjs.

  9. Minha resenha do livro

    http://cidadephantastica.blogspot.com/2010/09/o-dilema-de-bentinho.html

  10. Fernando disse

    Muito boa a ideia para esse livro. Ainda mais sabendo que tu és influenciado pelo PKD. Eu sou fã do Machado de Assis e do Philip K. Dick.

  11. Lúcio Manfredi disse

    Ah, então vc vai se divertir com o livro, Fernando. Algumas vezes, eu pensei nele como um romance do Philip K. Dick escrito pelo Machado de Assis. Outras, ao contrário, como um romance do Machado escrito pelo PKD. :)

  12. Anônimo disse

    Ainda no tive a oportunidade de ler o romance e, polmicas parte, uma forma de despertar o interesse da juventude pelos clssicos, j que sempre haver a possibilidade de se conferir este com o original para comparaes.

  13. Lúcio Manfredi disse

    É essa a ideia. Ou, pelo menos, uma das. :)

  14. Francine disse

    Só espero que não venham aqueles chatos esbravejando bobagens do tipo: “Misturar aliens e Machado de Assis é uma afronta à literatura e blá, blá, blá…”

    Isso deve ser um saco. Acho que nem o Machadão seria tão ranheta a esse ponto!

  15. Tomás M. Petersen disse

    Olá, Lúcio.
    Sou estudante de jornalismo e estou fazendo uma matéria sobre o gênero. Gostaria de saber como entrar em contato com você.
    Obrigado e aguardo retorno.

  16. Cara, fiquei estupefato com o resultado. De verdade. Parabéns.

  17. Lúcio Manfredi disse

    Opa, valeu, Cirilo! :)

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