Que diabo é a tal da new space opera? (3/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 14/01/2010
Diante de tudo isso que a gente acabou de ver, deve ter ficado evidente que a new space opera é menos uma ruptura do que um prolongamento da space opera clássica. É a boa e velha space opera sonhada por Lester Del Rey, só que incorporando o amadurecimento, a evolução e os desdobramentos que a ficção científica atingiu na segunda metade do século XX.
Em nenhuma outra obra essa sensação de continuidade fica tão nítida quanto na série Fundação, que começou a ser escrita pelas mãos de Asimov lá nos idos da chamada Era de Ouro, tornou-se o protótipo da space opera clássica, ficou em hibernação durante quase três décadas, foi retomada na década de 80 pelo próprio Asimov que, já velhinho e doente, fez uma tentativa canhestra de incorporar algumas das conquistas da new wave (como, por exemplo, a liberdade para falar de sexo na fc) e acabou sendo concluída em clave de new space opera pelos Killer B’s da ficção científica – Gregory Benford, Greg Bear e David Brin, que escreveram a Segunda Trilogia da Fundação com autorização do espólio do Bom Doutor.
Fundação da Fundação. – A trilogia original – Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação, relançados no Brasil no ano passado pela Aleph com novas traduções – é uma série de fix-ups, uma coleção de contos e novelas amarrados tematicamente e publicados originalmente naquela estufa da ficção científica moderna que foi a revista Astouding (hoje Analog), editada pelo legendário John W. Campbell Jr.
As histórias tratam da decadência do Império Galático, e dos esforços do matemático Hari Seldon para impedir o avanço da barbárie, munido de uma ciência desenvolvida por ele mesmo, a psico-história (um nome que o próprio Asimov depois considerou inadequado, já que se trata mais de um tratamento estatístico da história, com muito pouco de psicologia propriamente dita).
De posse dos prognósticos da psico-história, Seldon estabelece duas fundações em extremos opostos da Galáxia, ostensivamente destinadas a preservar o conhecimento científico, mas cujo verdadeiro objetivo é eventualmente se tornarem o núcleo de um segundo império galático, supostamente mais sólido e imune às forças de decadência e corrupção que minaram o Império Galático original. A primeira Fundação, voltada para as ciências físicas, é estabelecida com toda a pompa e circunstância na periferia do Império. A segunda, concentrada nas ciências psicológicas e sociais, é criada em segredo, num local desconhecido.
Os três primeiros livros são a crônica da queda do Império, da ascensão da Primeira Fundação e da luta entre as duas Fundações pelo direito de encabeçar o futuro Segundo Império, especialmente depois que o aparecimento de um mutante, o Mulo, coloca em risco o desenrolar do Plano de Seldon.
Em 1982, Asimov foi convencido pelos fãs a escrever uma continuação, Foundation’s Edge, o primeiro romance propriamente dito da série (que saiu no Brasil com o enganoso título de Fundação II pela Ed. Hemus, que tinha publicado a trilogia original em uma edição omnibus). Nesse livro, Asimov acrescenta uma nova incógnita à equação – Gaia, um planeta cujos habitantes compartilham de uma espécie de consciência coletiva. No ano seguinte, uma nova sequência, Fundação e a Terra, complica mais ainda o quadro, ao tentar fundir a saga da Fundação com a outra série que tornou Asimov famoso, as histórias dos robôs.
O problema é que, com isso, Asimov criou um embroglio, uma vez que, até então, robôs e andróides primavam pela ausência nas histórias da Fundação. Sem saber como continuar, Asimov preferiu voltar ao início e, na tentativa de explicar as incongruências, deu um revamp na juventude de Hari Seldon, com Prelúdio da Fundação. Não foi inteiramente bem-sucedido e tentou de novo com Crônicas da Fundação (Forward the Foundation), o último volume a sair de suas mãos, que deu um fecho digno à série original, com um Hari Seldon que cada vez mais foi se tornando o alter ego do próprio Asimov, mas que nem assim conseguiu resolver os problemas de continuidade.
Segunda Trilogia da Fundação. – Vêm os anos 90, a explosão da new space opera e a morte de Asimov em 1992, reza a lenda que ainda insatisfeito com o destino final da série. Pouco depois disso, o escritor Gregory Benford – um dos nomes fortes da fc hard e da new space opera (as duas coisas andam frequentemente juntas, ainda que não como regra geral) – foi procurado pelo espólio de Asimov a pedido da viúva do Bom Doutor e convidado a escrever uma nova trilogia da Fundação que fechasse os ts e pusesse os pingos nos is. Benford topou, com a condição de que dividisse o trabalho com outros dois autores, Greg Bear e David Brin. E assim nasceu a Segunda Trilogia da Fundação, composta por Foundation’s Fear (Benford), Foundation and Chaos (Bear) e Foundation’s Triumph (Brin).
Ao contrário do que se poderia esperar, a segunda trilogia não retoma a série original e suas duas continuações – provavelmente nem os Killer B’s souberam como continuar de onde Asimov parou – mas se insere nos interstícios entre as duas prequels e o primeiro volume. Apesar dos títulos, a estrela da série não é nem a Primeira, nem a Segunda Fundação, mas Hari Seldon. O que os três autores fizeram foi terminar de amarrar as pontas soltas que surgiram quando Asimov costurou os mundos ficcionais da Fundação e dos Robôs.
Se lermos a série inteira seguindo a cronologia interna, como eu fiz no ano passado, a primeira coisa que chama a atenção são as diferenças. Por mais que Benford, Bear e Brin tenham respeitado as características do universo asimoviano, não tem como deixar de notar a disparidade de estilo. E eu não estou me referindo ao estilo pessoal de cada autor, mas a uma atmosfera mais geral, que aponta justamente para as mudanças pelas quais a ficção científica passou desde que Asimov, então um jovem estudante de química suspirando por um lugar ao Sol no panteão da Astouding, sentou-se para escrever o conto que deu o pontapé inicial na saga, “Os Psico-Historiadores”. Com todo o respeito pela inegável importância de Asimov, quer na história da fc, quer como porta de entrada de novos leitores ao gênero, a Segunda Trilogia tem uma densidade que falta à série original.
Nota-se essa densidade tanto no trabalho de world building quanto na construção dos personagens. Os autores mergulham com detalhes na economia, na política e na economia política do Império, nas causas de sua decadência e nas consequências de sua queda. Quando se trata das viagens interestelares e do sistema de comunicação que mantêm o Império interligado, eles não se limitam a dizer que as naves Saltam pelo hiperespaço, mas explicam a dinâmica que torna os Saltos possíveis. A conceituação da psico-história passa a incorporar a matemática do caos e as ciências da complexidade, que não existiam na época da primeira trilogia. Mas tudo isso entremeado à trama, sem infodumpings que obriguem a narrativa a parar enquanto o leitor é apresentado às informações. E onde os personagens asimovianos são figuras bidimensionais, que existem unicamente em função do enredo, acrescenta-se uma terceira dimensão que dá verossimilhança ao perfil psicológico sem trair as características criadas pelo Bom Doutor. O Hari Seldon dos Killer B’s é o Hari Seldon de Asimov, mas um Hari Seldon que, se não chega ao estatuto de um Dom Quixote, um Fausto ou uma Ana Karênina, pelo menos tem profundidade.
Como vimos no post anterior, essa atenção tanto ao world building quanto aos aspectos psicológicos, sem qualquer conflito entre os dois níveis, é uma das marcas da new space opera. Não é a única. Da mesma forma como uma inteligência artificial que simula a personalidade de John Keats é um dos personagens principais dos Cantos de Hyperion, de Dan Simmons, uma das tramas que atravessam a Segunda Trilogia é protagonizada por duas IAs moldadas à imagem e semelhança de Voltaire e Joana d’Arc. Uma civilização alienígena pós-Singularidade também faz sua aparição em determinado ponto da história e, assim como Charles Stross imaginou uma raça de Críticos alienígenas, Gregory Benford criou um mundo dentro do Império Galático que é habitado essencialmente por acadêmicos pós-estruturalistas. Em tudo e por tudo, da mesma forma que a Primeira Trilogia da Fundação era o paradigma da space opera clássica, a Segunda Trilogia traz o DNA da new space opera impresso em cada parágrafo.
E no entanto. – E no entanto, passado o instante inicial de dissonância cognitiva, a impressão que acaba se impondo no final da leitura é a sensação de continuidade entre as duas trilogias. O Hari Seldon dos Killer B’s pode ser um Hari Seldon que, se não chega ao estatuto de um Dom Quixote, um Fausto ou uma Ana Karênina, pelo menos tem profundidade… mas fundamentalmente continua sendo o Hari Seldon de Asimov.
Da mesma forma, os autores tornam explícito o vínculo entre os psico-historiadores da Segunda Fundação e outro ícone da space opera clássica, os super-homens de A. E. Van Vogt, inserindo na narrativa ecos deliberados de Slan, cuja influência já era visível, mas de modo implícito, em Fundação e Império e Segunda Fundação.
A história como um todo é coesa, e do primeiro conto escrito por Asimov ao último romance escrito por David Brin, é a mesma saga que vai se desenrolando, tomando forma, completando a Gestalt.
A new space opera tornou-se cada vez menos o faroeste espacial sacaneado por Wilson Tucker (do qual a fc clássica já tinha começado a se distanciar), ganhou complexidade política, psicológica e social, sofisticou-se literariamente e, de um modo geral, deixou de ser o que Jack Williamson descreveu na The New Encyclopedia of Science Fiction como uma “expressão do tema mítico da expansão humana contra uma fronteira desconhecida e incomumente hostil”. Mas, upbeats à parte, o resto da caracterização de Williamson continua valendo, e a new space opera ainda é, como a space opera clássica já foi, a “narrativa de aventura espacial que se tornou a mola-mestra da moderna ficção científica”.
Fabio disse
è pra virar verbete de Wikipedia – e isto é um elogio.
Muito bom, Lúcio! Deu vontade de ler a Segunda Trilogia – aliás, desde que você me falou positivamente dela pela primeira vez, eu já tinha começado a sentir vontade de ler. Vou tentar conferir ainda este ano.
Lúcio Manfredi disse
E é como um elogio que eu tomo. Afinal, foi mais ou menos isso que eu fiz, reunir informações dispersas aqui e ali pra traçar um apanhado geral da new space opera. Espero que o resultado tenha sido mais informativo do que opinativo (se bem que, como você sabe, eu nunca fui exatamente tímido em matéria de opiniões).
Fabio disse
Você tem a paciência que eu já não tenho mais. E eu aplaudo o seu esforço (que, convenhamos, pra você não é esforço nenhum, heh) e a sua verve (isso você tem de sobra!
Lúcio Manfredi disse
Ah, Verve eu tenho mesmo. Inclusive, adoro a “Bittersweet Symphony”!
Cirilo S. Lemos disse
Uai, o Asimov se embolou mesmo com a Fundação… Ótimo artigo, devia mesmo ser verbete wikipédico. Também é elogio, hein! [:)]
Fernando S. Trevisan disse
Duca. Nem tem muito que falar. Agora, mais três livros pra entrar na fila, eventualmente. PQP…
Fabio disse
É, eu só tenho Blue Note…
Lúcio Manfredi disse
Cirilo, uma parte das razões para a bananosa, segundo o Asimov, foi que ele perdeu a (ou, ele mesmo varia as versões, nunca teve) fé no conceito de psico-história, que teria sido sugerido pelo John Campbell. O Mulo foi uma maneira de contornar a questão apelando pra outro tema caro ao Campbell, o super-homem mutante. Só que o personagem cumpriu tão bem a função que, passado o vendaval que o Mulo criou, Asimov não sabia mais pra onde levar a série. Foi aí que ele cometeu o que eu, pelo menos, considero um erro: em vez de limpar o meio de campo, foi introduzindo cada vez mais players, daí o beco-sem-saída. Mas eu ainda espero que um dia os herdeiros do Asimov chamem alguém com a tarimba dos Killer B’s pra concluir a saga.
Lúcio Manfredi disse
Hahahah. Pois é, Trevisan, o diacho da fila não diminui nunca, só aumenta…
Lúcio Manfredi disse
>É, eu só tenho Blue Note…
Huguinho disse
Muio bom, Lúcio!!
Coloque isso na wikipédia! Rápido!!!!!
Lúcio Manfredi disse
Valeu, Huguinho! Eu tentei ser ao mesmo tempo abrangente e sintético – duas coisas que raramente dá pra conciliar. Tomara que eu tenha conseguido.
Giseli disse
Woooow! =D Fechou com chave de ouro! E me junto ao coro de que isso devia virar verbete da Wikipedia…
Putz, mesmo com seus comentários positivos sobre a segunda fundação, não sei não se me atrevo a ler. Sei lá, parece que o cara estragou um pouco as coisas… Mas um dia leio. É que tem uma hora que Fundação cansa rs.
Psico-história me fez lembrar dos meus tempos de graduação. Eu e um colega meu tentamos matematizar a mente humana, chamando-a de álgebra psíquica =P Mas não deu muito certo não hehe.
Bom, mais uma vez, meus parabéns pelo ótimo post!
Lúcio Manfredi disse
Brigadíssimo, Giselérrima!
É, tem horas que Fundação cansa mesmo. Levei meses pra ler a série toda…
Fabio disse
Ô, Gi, escreve essa coisa!! Álgebra Psíquica dá um tremendo conto…
Ivo Heinz disse
Parabéns Lúcio, esse “Estudo de Caso Comparativo” fechou com chave de ouro sua série de artigos.
Eu li a segunda Trilogia uns anos atrás, das edições portuguesas da Nébula.
Fantástica a “saída” que os Killer-Bs acharam para conectar os robôs, citando a Guerra Civil Robótica entre os Giskardeanos e Calvinianos, ficou coerente e original.
Lúcio Manfredi disse
Foi uma boa saída mesmo, né? O que eles não conseguiram, porém, foi eliminar totalmente a conotação que o Asimov passa de que os seres humanos são meros joguetes na mão dos robôs – e de que isso é bom. Claro, eles fizeram o possível pra atenuar o “messianismo robótico” do Asimov, humanizaram o R. Daneel, introduziram falhas, defeitos, problematizaram a idéia paternalista de que os robôs sabem o que é melhor pra nós e tudo o mais, mas não tinha muito como derrubar a idéia central sem descaracterizar a obra.
Por isso que eu acho que, num certo sentido, os Cantos de Hyperion podem ser lidos como uma “resposta” a Fundação: porque o Dan Simmons pega a mesma idéia e vira pelo avesso, mostrando que entregar o controle do nosso destino a inteligências inumanas – que necessariamente terão interesses e objetivos próprios, igualmente inumanos – pode ser uma coisa perigosa.
Tá, as duas são obras de ficção. Não existem IAs autoconscientes e autônomas, e ainda não se chegou a uma conclusão sequer sobre se elas podem existir. Mas, como dizem vários críticos e escritores, um dos propósitos da fc é usar o espaço ficcional pra testar possibilidades, e se os entusiastas da Singularidade tiverem razão, daqui a um punhado de décadas, essa questão pode vir a ser tão importante quanto o aquecimento global nos dias de hoje. E, de mais a mais, as pessoas sempre mostraram uma tendência pouco saudável a transferir a responsabilidade por suas vidas pra algum tipo de autoridade supostamente superior. E pelo menos desde Eu, Robô, o Asimov deixou bem claro que, pra ele, os robôs deveriam se tornar a autoridade superior definitiva…
(Siiiim, na disputa entre Giskardeanos e Calvinianos, eu sou calvinista!
)
Marcel Breton disse
Uau, agora fiquei com vontade de ler a Segunda Fundação também. Esta série de artigos vai virar referência, Lúcio. Sensacionais.
Abs!
Marcel.
Thiago Souza disse
Isso não foi uma explicação sobre new space opera. Nem uma resenha. Isso foi uma tese de mestrado! Parabéns, Lucio – muito, muito bom material, mesmo!
E também fiquei com vontade de ler a Segunda Trilogia…
Ricardo França disse
Muito legal. Cheíssimo de infos. Fico cada vez mais curioso em ler as percucientes futuras análises das FCs do presente nas quais o Lúcio tem mergulhado seus cones e bastonetes ultimamente (esperando ansiosamente ele fazer um tópico só dedicado ao Dan Simmons…).
E até fiquei com vontade de reler a primeira trilogia fundacional (e coçando para ler também a dos 3B).