Que diabo é a tal da new space opera? (2/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 10/01/2010
Mas afinal, que diabo é a new space opera e em que ela se diferencia da space opera tradicional? Talvez o melhor seja começar pelas características que elas têm em comum.
Apesar de alguns clássicos da space opera, como Tiger! Tiger! e O Mundo de Null-A, se passarem dentro dos limites do Sistema Solar, os quintais do Sol logo se revelaram insuficientes para as ambições cósmicas do gênero, que não tardou a concentrar o melhor de seus esforços no retrato de impérios galáticos e civilizações que abrangiam dezenas, centenas e até mesmo milhares de sistemas planetários, alguns habitados apenas por descendentes de colonizadores humanos, outros compartilhados com as mais variadas espécies alienígenas.
Super-Homens, Singularidades e Gray Goos. – A new space opera retém esse escopo grandioso – e, por que não dizer, operístico – acrescentando suas próprias contribuições à fauna galática: além dos humanos convencionais, extraterrestres, robôs e andróides caros à ficção científica desde os anos trinta, na nova galáxia se podem encontrar pós-humanos, trans-humanos, animais evoluídos artificialmente até a autoconsciência (se bem que, nesse departamento, precedidos pelas obras de Clifford Simak), bem como consórcios de inteligências artificiais, algumas construídas originalmente na Terra mas emancipadas do controle humano, outras nascidas do desenvolvimento de civilizações alienígenas.
Muitas dessas civilizações existem num mundo pós-Singularidade tecnológica, o sonho milenarista compartilhado por alguns cientistas e escritores de fc, quando o avanço da tecnologia chegará a um ponto em que a simbiose entre os humanos e as máquinas determinará o fim da evolução natural e o início de uma nova curva evolutiva, com a humanidade atingindo níveis de consciência, conhecimento e capacidade que hoje estão fora do alcance do nosso limitado equipamento biológico. Verdadeiros super-homens aperfeiçoados pela engenharia genética, pela cibernética, pela nanotecnologia e pela fusão final entre o cérebro e o computador.
Aliás, a nanotecnologia e, mais recentemente, a computação quântica estão para a new space opera como o raio laser, o computador e a espaçonave estavam para a space opera clássica. Nanorrobôs são virtualmente onipresentes e não raro saem do controle, contaminando planetas inteiros com pragas nanotecnológicas que consomem tudo o que vêem pela frente, dando origem ao que, no jargão do gênero e seguindo a expressão criada por Eric Drexler, ficou conhecido como gray goo (aproximadamente, “gosma cinzenta”).
Mas, ao mobilizar toda essa parafernália técnica e essa galeria de personagens in-, pós- e trans-humanos, a new space opera continua fiel aos objetivos da space opera clássica e, segundo o consenso crítico, da ficção científica como um todo: a busca do sense of wonder, uma sensação de arrebatamento, espanto e maravilhamento que não tem pouco em comum com o sublime da estética romântico e com o numinoso nas religiões.
Agora, porém, as apostas são mais elevadas do que nos tempos de E. E. Doc Smith. Os conceitos e imagens que eram capazes de entupigaitar um leitor da década de 30 foram assimilados pelo repertório convencional da ficção científica e muitos deles saltaram para a realidade. Computadores estão por toda a parte, a robótica tornou-se um ramo perfeitamente respeitável da engenharia e o laser deixou de ser o raio da morte para se converter em uma peça-padrão nas fábricas, consultórios de dentista e aparelhos de DVD. Para despertar o sense of wonder, o escritor contemporâneo tem que cortar um dobrado, pegar os conceitos mais radicais da especulação científica e levá-los às últimas consequências, e essa ousadia é um dos traços mais marcantes da new space opera.
Vitral e vidraça. – O outro é a autoconsciência literária. Criado na escola das revistas pulp e compartilhando, ao menos em parte, a ideologia de Lester Del Rey de que a ficção científica não tem ambições literárias, Asimov, na década de 80, ainda podia reivindicar para si um estilo deliberadamente pobre, funcional, que servia apenas para contar uma história da maneira mais eficiente possível.
O filósofo Ortega y Gasset dizia que existem dois tipos de escritores – vitralistas, que produzem obras-primas de sofisticação e refinamento, e vidraceiros, que visam um texto o mais transparente possível, que se coloque entre o olho do leitor e a paisagem da história com o mínimo de distorção. Tomando emprestada essa metáfora (sem citar a fonte que, aparentemente, ele desconhecia), Asimov costumava dizer que ele e boa parte dos seus companheiros de geração eram modestos vidraceiros, sem nenhuma preocupação com estilo.
Os autores das novas gerações não podem mais se dar a esse luxo, por vários motivos. Em primeiro lugar porque, como foi dito acima, o movimento new wave trouxe para dentro da ficção científica uma preocupação com questões literárias que reduziu, se é que não eliminou, a distância entre o gênero e a chamada “alta literatura”. E, como vimos, foram os autores ligados à new wave que prepararam o terreno para o que viria a ser a new space opera.
Simultaneamente, a ficção científica tornou-se matéria de estudos acadêmicos, e muitos dos críticos que se debruçaram sobre o gênero – como o pioneiro Robert Scholes, autor de Structural Fabulation – eram também teóricos da literatura pós-moderna, que encontraram afinidades entre os dois gêneros. Boa parte dos escritores mais recentes tiveram uma formação acadêmica, que os levou não só a absorver essas ideias como a ter uma noção de conjunto da literatura, e da posição da fc dentro desse conjunto, que jamais passaria pela cabeça de um Jack Williamson ou um Ray Cummings. Não custa lembrar, a propósito, que Samuel R. Delany, precursor da new space opera e uma das figuras de proa da new wave nos Estados Unidos, transita lépido e fagueiro pelas três posições: como escritor de formação acadêmica, como crítico da ficção científica e como teórico do pós-modernismo, dobradinha (ou melhor “tribadinha”) repetida por um de seus principais discípulos na fc contemporânea, o escritor, crítico e teórico australiano Damien Broderick.
Por esses e outros motivos, um autor que surgisse hoje com a mesma despretensão literária de um Asimov dificilmente ia se criar na ficção científica – pelo menos no mundo anglófono, onde a fc é um gênero maduro, solidamente estabelecido e que carrega atrás de si essas décadas de história e desenvolvimento. Nos dias que correm, um bom autor de fc precisa ser ao mesmo tempo vidraceiro e vitralista.
A colônia dos Críticos e os atacantes de borracha! – E os criadores da new space opera o são com certeza. Seus textos mostram um grau de elaboração estética a anos-luz de distância da simplicidade apressada com que os escritores da era pulp jogavam as frases na página, de olho mais na contagem de palavras (eles ganhavam por palavra) do que na estrutura do parágrafo. Considere, por exemplo, o parágrafo de abertura de Neverness, de David Zindell:
Long before we knew that the price of the wisdom and immortality we sought would be almost beyond our means to pay, when man – what was left of man – was still like a child playing with pebbles and shells by the seashore, in the time of the quest for the mystery known as the Elder Eddas, I heard the call of the stars and prepared to leave the city of my birth and death.
Agora compare com a seguinte passagem de O Rei das Estrelas, de Edmond Hamilton, um dos romances mais representativos da space opera da década de 40:
Os atacantes de borracha! Os nativos daquele mundo louco haviam penetrado as defesas de Durk Undis e invadiam a nave!
- Lianna! – berrou Gordon, vendo a moça ser levada por um monstro.
Com seus rostos sem expressão e olhos redondos, outros monstros corriam para ele. Tentou fugir ao abraço de Linn Kyle e levantar-se. Mas não teve tempo!
As frases bem-trabalhadas (e a economia no uso dos pontos de exclamação!) não são a única evidência da maturidade literária dos autores. Esta também aparece no uso esperto de referências literárias, na intertextualidade e no diálogo com as obras canônicas do (mal-)dito mainstream. Enquanto os escritores da Era de Ouro orgulhavam-se do gueto que isolava a fc do resto da literatura e mantinham uma distância cautelosa do mainstream, os autores contemporâneos transitam com desenvoltura entre as fronteiras do que, num tempo mais cheio de certezas, costumava-se chamar de “alta” e “baixa cultura”. Consider Phlebas, de Iain M. Banks, tira seu título de um verso de “The Waste Land“, de T. S. Eliot. The Hyperion Cantos, de Dan Simmons, extrai não só o nome como boa parte da intriga dos poemas de John Keats (que é, ele próprio, em versão facsimilar, um dos personagens da saga) e o mesmo Dan Simmons funde space opera com mitologia grega, a Ilíada de Homero e A Tempestade de Shakespeare (para não falar das constantes citações de Proust) na bilogia Illium/Olympos, cuja intriga fica circunscrita ao Sistema Solar mas, em compensação, se abre para outras realidades alternativas.
Como uma parte significativa da fc atual, a new space opera flerta ainda com o pós-modernismo e com a metaficção, o que é quase inevitável quando se trata de um gênero com mais de um século de história nas costas – o que Damien Broderick chama de “o metatexto da ficção científica”. Às vezes com uma ironia declarada, às vezes com uma inescrutável poker face, os clichês, convenções e tropos da ficção científica são empregados e subvertidos conscientemente. Outras vezes, as obras tematizam a permeabilidade dos limites entre ficção e realidade.
Um caso particularmente curioso de metaficção, que vale a pena citar por extenso, aparece em Singularity Sky, o romance de estréia de Charles Stross:
the colony of Critics writhed and tunneled in their diamond nests, incubating a devastating review. A young, energetic species, descended from one of the post-Singularity flowerings that had exploded in the wake of the Diaspora three thousand years in their past, they held precious little of the human genome in their squamous, cold-blooded bodies. (…) The Critics watched with their peculiar mixture of bemusement and morbid cynicism, while the soldiers of the First and Fourth Regiments shot their officers and deserted en masse to the black flag of Burya Rubenstein’s now-overt Traditional Extropian Revolutionary Front.
Imagino como os críticos devem ter se sentido ao se verem retratados como uma raça de répteis alienígenas…
Mas, de novo, é preciso frisar que sempre existiram exceções dentro da tradição clássica. Duas das obras mais importantes de Fredric Brown são flertes declarados com a metaficção: em What Mad Universe, o editor de uma revista pulp vai parar em um universo paralelo regido pelas convenções da space opera, e em Martians Go Home!, a Terra é invadida por homenzinhos verdes de Marte, e um escritor de ficção científica começa a desconfiar que os invasores saíram de sua imaginação desvairada. A diferença é que essas obras são atípicas dentro do cânone do gênero (Fredric Brown sempre foi visto mais como “um escritor para outros escritores” do que como um autor popular), ao passo que, com a new space opera – como aconteceu com quase todos os campos da fc depois dos anos 80 – a intertextualidade e a metaficção tornaram-se estratégias textuais recorrentes.
(continua)
Fabio disse
Absolutamente sensacional, Lucio. Mal posso esperar pela terceira parte.
Lúcio Manfredi disse
Opa, é sempre uma honra ser elogiado por um dos melhores escritores e críticos do gênero no país! Nóis humirdemente gradece…
Braulio Tavares disse
Já comentei muitíssimas vezes esse papo de Asimov sobre o Vitral e a Vidraça, mas só agora fiquei sabendo que a idéia vem de Ortega y Gasset (e concordo com você, Lúcio — duvido que Asimov o tenha lido). Mas o principal equívoco da argumentação dos Vidraceiros é o fato de que eles fingem que a paisagem mostrada pelo “vidro transparente” de sua prosa não foi, também, inventada por eles.
Ivo Heinz disse
Concordo com o Fábio, estes dois textos estão muito bons.
Fico lembrando daquelas reuniões do CLFC no final dos anos 80, e um povo que torcia o nariz pra space-opera, queria ver se lessem David Zindell e Dan Simmons se manteriam a mesma opinião.
Além de você continuar lendo bastante, está conseguindo fazer ilações entre gênero, obras e autores diferentes de forma concisa e clara, como eu mesmo li a maioria dos livros que você cita, fiquei impressionado com o reusltado; e pros que eu não li fiquei mais curioso em ler, lá vai aumento na minha wish-list da Amazon.
Espero só a terceira parte, hehehehehe.
Lúcio Manfredi disse
Pois é, Braulio. E essa crença de que a linguagem pode ser neutra em relação à história que ela conta geralmente vem atrelada a um outro preconceito: o de que os autores que se preocupam com estilo só querem mostrar que “sabem escrever bonito”. Como se a escolha das palavras não tivesse nenhuma influência sobre o efeito que você quer que a história provoque no leitor, e não fosse essa preocupação com o efeito que guiasse as estratégias textuais de um Joyce, um Cortázar ou um Guimarães Rosa…
Lúcio Manfredi disse
Hahah. Ivo, tô só retribuindo: você também fez a minha wish list aumentar um bocado com as tuas indicações! (E, ironicamente, só agora eu tô seguindo uma das primeiras, a série Uplift.)
Se tudo der certo, a terceira parte vai ao ar lá pelo meio da semana. Vai ser um “estudo de caso” mostrando como a série Fundação (a trilogia original do Asimov e a segunda trilogia dos Killer B’s) ilustra as continuidades e descontinuidades entre a velha e a nova space opera.
Stay tuned.
Giseli disse
Uau, Lúcio, bela continuação da saga explicativa! =) Você consegue ir de uma ideia a outra sem perder o fio da meada. Ótimo como sempre!
Giseli disse
Ah, uma curiosidade boba sobre o gray goo (ou grey goo). A tal da Primeira Igreja do Grey Goo hahaha: http://www.greygoo.org/
Giseli disse
Mais uma coisa! =P Acho que tu já viu esse vídeo, é um dos meus prediletos, vai saber… http://www.wired.com/wiredscience/2009/03/evilnanotech/
Anderson Santos disse
Duas coisas:
1) Fico abismado com a diferenca de conteudo que voce apresenta na critica sobre literatura de FC frente a outros “ditos” criticos profissionais (que teoricamente tem formacao em letras e anos de estrada). Nao eh jogar confete gratuito, mas meu Deus, voce mostra claramente que o ramo de FC nao ficou congelado nos anos 30-80, continua avancando e temos de ficar de olho em como nosso mundo evoluiu, e continua evoluindo. Alias, muitos dos escritores da 3a onda mantem vicios da chamada “era dourada”. Obviamente cada um pode escolher seu estilo, mas o “Dias da Peste” do Fabio deixa muito claro que podemos fazer mais.
2) E tambem demonstra que as editoras tem um medo absurdo do que eh novo, republicando material muitas vezes algo datado ao inves de apostar em novas possibilidades. Acho absurdo que Hyperion nao tenha sido publicado em portugues, mas que insistam em (re) colocar a venda neuromancer, enders game, duna, fundacao. Concordo que seja titulos fortes, com um apelo de vendagem proprio, mas onde estao os titulos que estejam antenados com as novas possibilidades que o seculo 21 mostra para nos ?
Enfim, parabens pelo artigo, achei excelente.
Ivo Heinz disse
Pegando carona na mensagem do Anderson:
1) meu amigo, o Lúcio é um Profissional com “P” maiúsculo, roteirista profissional e funcionário da maior rede de TV do País, não vamos comparar com amadores que “se acham”, não é mesmo ??? Olha o ambiente a que ele (Lúcio) está exposto em seu dia-a-dia, as cobranças e resultados que ele precisa mostrar na Vênus Platinada.
Outra coisa, e falo porque já dou aula em Logística a mais de 2 anos: embasamento teórico ajuda (e muito), mas a experiência do dia-a-dia e as cobranças citadas acima é que vão moldar as suas opiniões, afinar seu raciocínio e ajudar (muito) sua tomada de decisão; isso, meu amigo, infelizmente nenhuma faculdade pode (ou deve) te ensinar. Percebi isso quando comecei a ser chamado para participar de Bancas Examinadoras, já que com 19 anos em Logística tenho o que o MEC chama de “notório saber”, e eu que achava que essa frase era só efeito.
Por aí você vê que o Lúcio mudou muito nestes últimos anos, daquele rapaz que estudava filosofia e fazia fanzines para um profissional de TV e Cinema, vide o que ele anda escrevendo e, principalmente, COMO ele anda escrevendo.
2) concordo em gênero, número e grau. A Aleph até lançou umas coisas mais novas, a Tarja centra em autores nacionais mas……. cadê as coisas novas ? Cadê os autores mais modernos ? Nem em Portugal as coisas são como eram; e vamos reconhecer que nos anos 80 e 90 a Europa-América e Livros do Brasil “salvaram a nossa pele” lançando autores e obras premiadas na época.
O pior é que eu, ainda, continuo dando umas fuçadas pelos sebos do Centrão, e o que mais vejo são prateleiras de livros de FC tomando poeira, e como era em nosso tempo ?
Os livros não paravam, não é ?
Pois é, e se levar em conta que o domínio da língua inglesa está mais abrangente para os jovens das classes A e B, que são os que mais vão ter a chance de ler FC, junto ao crescente mercado de livros eletrônicos, acho que logo as editoras vão perder o bonde, como as gravadoras já perderam.
Lúcio Manfredi disse
Oi, Gi!
Não conhecia o vídeo, não, muito legal. E que coisa maluca essa Primeira Igreja do Gray Goo, não? Dá até vontade de me converter…
)))
Bjs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Valeu, Anderson! Pois é, as editoras. Acho legal elas estarem apostando em autores nacionais, espero que continuem, mas quanto a tirar o atraso em relação ao que se publica lá fora, mesmo que elas tivessem algum interesse nisso, tenho a impressão de que agora já é tarde demais. Mas eu explico melhor na minha resposta pro Ivo.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
1) Pô, Ivo, assim você me deixa até sem-jeito.
Não acho que eu tenha evoluído tanto assim. Mas no pouco que eu evoluí, eu concordo com você: a prática faz toda a diferença. Só se aprende a escrever escrevendo, só se aprende a resenhar resenhando, etc. Você pode ter toda a teoria do mundo e ela pode ser excelente, mas não quer dizer nada se não for testada na prática, que obriga a gente a aperfeiçoar, remodelar ou até abandonar totalmente certos princípios teóricos que no abstrato podem fazer sentido, mas que não resistem ao confronto com a realidade concreta. E trabalhar como roteirista te dá, sim, uma compreensão sobre a estrutura da história, seus componentes, o que funciona e o que não funciona, que a gente precisa conhecer mesmo que queira subverter (ou principalmente se quiser subverter).
2) Como assim, “vão perder”? Eu acho que já perderam. Numa época em que tem muito mais gente que lê em inglês do que há vinte anos (graças à globalização e à Internet) e em que um livro importado na Amazon sai pela metade do preço de uma edição nacional – e eu tô falando de livros de papel, nem tô trazendo o Kindle pra discussão porque ainda é muito cedo pra saber que bicho vai dar – nem sei se vale mais a pena lançar coisas como Hyperion ou Perdido Street Station. A maior parte dos compradores potenciais já se cansou de esperar e comprou a edição americana, mesmo. Resta o punhado de renitentes que se recusam a aprender inglês, mas estes são uma fração mínima de um mercado editorial que já é pequeno, não formam massa suficiente pra bancar uma edição.
A melhor coisa que as editoras podem fazer pela ficção científica no Brasil é continuar investindo nos autores nacionais – e que bom que elas começaram a fazer isso! – porque o bonde da fc estrangeira, esse eles já perderam. Justamente porque andaram um tempão de bonde quando o mercado lá fora já viajava pelo hiperespaço…
Abs.
L.
Fabio disse
Concordo em gênero e número com o Lúcio – e é por isso que cada vez mais tenho me dedicado à academia e a escrever a minha ficção em vez de traduzir a dos outros (não que eu não continue a fazer isso – Little Brother, do Doctorow, é uma raríssima exceção de algo up-to-date que está aí e que não me deixa mentir – mas já comecei a pisar no freio.
Anderson, obrigado pela parte que me toca (epa!
Anderson Santos disse
Se vale a pena lancar Hyperion ou Perdido Street Station portugues ?
Eu acredito que sim. A questao nao eh apenas ler em ingles, mas ler bem, entender as sutilezas do texto que somente quem domina (bem) o idioma consegue.
Lancando em pt-br, da a oportunidade a quem nao tem todo este dominio de ter contato com novos contextos, novas ideias, novos pontos de vista (ou quase).
Entendo que voce deve esta criticando o timming da publicacao – mas Olympus, p.ex, ainda nao perdeu o seu – merecendo portanto uma edicao pt-br.
Em algumas das comunidades de escritores de FC que participo, ainda vejo muita discussao sobre o basico – e utilizando pontos de vista da golden age.
Ainda que precisemos discutir o basico com novos escritores que nao tem a experiencia, que pelo menos discutamos em cima de obras atualizadas.
Agora, nao saber escrever e alem disso limitar-se a imitar Clark e Asimov dos anos 40 eh dose – e se achando o maximo por nao ter outras referencias.
Por isto que gostei tanto do “Dias da Peste”: eh um livro sensacional ? Nao (desculpa Fabio – acho que exagerou um pouco nas hiper-referencias) ! Mas eh um livro muito bom, e de quebra mostra formas diferentes de falar FC.
E isso eh fundamental, e este fundamental muitos so vao ter acesso quando traduzirem para pt-br.
Alias, acho que tem gente que nem entendeu o livro do Fabio: estao tao atrelados a uma forma cartesiana de apresentacao da historia que nem conseguem acompanhar um romance slipstream (noves fora a quantidade absurda de referencias externas – mas algo extremamente comum no mundo hipertexto).
Octavio Aragão disse
Isto, senhoras e senhores, não é um artigo. É uma aula. Coisa de mestre consumado (não consumido).
Parabéns, Lucifer.
Lúcio Manfredi disse
Essa é uma longa discussão, cheia de meandros, mas ok, vamos por partes.
Não, eu não estava me referindo ao timing. Mesmo com dez ou vinte anos de atraso, livros como Hyperion e Perdido Street, no contexto brasileiro, não só continuam sendo atuais como na verdade representam um avanço enorme em relação à fc que se conhece por aqui. Tão avançado, de fato, que pode até não vender bem entre gente que ainda acha Neuromancer um livro difícil de entender. Daí o medo das editoras e, pra ser sincero, não dá pra dizer que é um medo injustificado. Como eu falei antes, das pessoas que teriam interesse e condições de compreender, uma boa parte já partiu direto pro inglês. E eu não sei se os que sobram – os que têm interesse, inteligência e cultura pra assimilar livros como esse, mas não falam inglês – formam um contingente grande o suficiente pra fazer com que a edição se pague. E editoras, afinal de contas, são um empreendimento comercial. Elas precisam vender, e não se trata só de ganância mercantilista capitalista, é uma questão de sobrevivência. Talvez os editores pudessem, sim, ousar um pouco mais do que ousam, alternar livros mais vendáveis, os Asimovs da vida, com outros mais arriscados, que é pro lucro dos primeiros amortizar o prejuízo (que eu acho inevitável) com os segundos. Mas não adianta esperar que Perdido Street vá entrar pra lista dos mais vendidos da Veja, porque não vai. Não entraria nem se todos os membros da comunidade de fc do Orkut comprassem um exemplar, e a gente sabe que nem 10% deles meteriam a mão no bolso pra comprar.
Outro problema diz respeito à tradução propriamente dita. Você diz que é preciso entender as sutilezas do texto, coisa que só quem domina bem o inglês consegue. Concordo. Mas não são muitos os tradutores que têm esse domínio. Se der sorte do livro cair nas mãos de um Fabio ou de uma Ludimila, a gente tem que cair de joelhos e agradecer a São Leibowitz, porque muitas editoras preferem contratar a preço de banana um sujeito qualquer que fez dois meses de inglês instrumental e acha que sabe falar a língua como um nativo. O resultado é que até mesmo eu, com o meu inglês autodidata de merda, tô cansado de pegar erros de tradução, falsos cognatos e referências que o tradutor simplesmente passou batido. Pra não falar do cuidado em recriar o ritmo e o estilo do autor original, coisa que tradutores conscienciosos como a Ludi e o Fabio fazem, mas que muitos não estão nem aí. Já vi traduções, inclusive de obras importantes, que, juro por Deus, a ferramenta de tradução do Google faria melhor.
Pra não falar de coisas que são intraduzíveis. Todo idioma tem modos de expressão que são próprios daquele idioma e que não se deixam traduzir. E o inglês tá cheio disso, expressões condensadas que dizem com uma palavra o que o português precisaria de uma longa e desajeitada paráfrase pra dizer. (Isso não quer dizer que o inglês seja uma língua superior ao português ou vice-versa, porque a recíproca é verdadeira. Também tem coisas que só se diz em português – mas não, ao contrário do que se diz por aí, “saudade” não é uma delas.
)
E o aprendizado de qualquer idioma é cumulativo. No primeiro livro que você ler em inglês, você provavelmente vai cometer um monte de erros e passar batido por todas as sutilezas. Mas no segundo já vai pegar mais e assim por diante. Com o benefício adicional de que você tá ampliando o teu conhecimento da língua, em vez de usar como muleta o conhecimento do tradutor, por melhor que ele seja.
Bom, ainda tem mais pano pra manga, mas o comentário já ficou enorme, então eu paro por aqui.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Opa, merci beaucop, Mr. Octa!
Cirilo S. Lemos disse
Show.
Anderson Santos disse
Eu sou empresario, dependo do lucro das minhas atividades para viver, entao seria o ultimo a bradar contra o capitalismo
Eh perfeito que as editoras procurem titulos que maximizem a vendagem e lucros.
Talvez, com a nova onda de ereaders e ebooks, uma amazon da vida nao contrate o Fabio direto para traduzir obras como as citadas e vender direto via internet, fazendo um by-pass na editoras locais ?
Ou entao, as editoras nacionais poderiam propor parcerias com as distribuidoras de ebooks (como amazon), pagando pela traducao e disponibilizando a mesma no catalogo da distribuidora, em troca de um percentual da venda.
Ok, isto envolve todo um novo tipo de negociacao, pois a editora local teria de comprar os direitos da obra (que nao seriam mais pagos por quantidade de exemplares, mas por direito de traducao) e a traducao propriamente dita.
Quem sabe…
Lúcio Manfredi disse
Olha, Anderson, eu espero realmente que os ebook readers revolucionem o mercado editorial, brasileiro inclusive. E acho que isso vai facilitar muito a vida dos autores, porque vai tornar mais simples o trabalho de self-publishing – qualquer um pode colocar um ebook à venda na Amazon com relativa facilidade. Mas as editoras por aqui ainda não acordaram pro potencial dos ebooks (talvez comecem a se mexer com a explosão do mercado lá fora) e, de qualquer forma, não sei se isso vai se refletir num aumento de traduções. De qualquer forma, tempos interessantes pela frente – como diziam os chineses.
Fernando S. Trevisan disse
Lúcio, seus blogs sempre valem muito pelo teu texto *E* pelos comentários. Valeu e estou esperando a terceira e derradeira parte! ;D
Abs!
Lúcio Manfredi disse
Valeu, Cirilo e Trevisa!
Trevisa, se tudo der certo, a parte 3 sobe entre hoje e amanhã.