Que diabo é a tal da new space opera? (1/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 06/01/2010
Revendo a lista das minhas leituras em 2009, constatei – não exatamente surpreso – que quase 20% dos livros que eu li no ano passado (18,75%, para os que insistem na precisão) foram de new space opera. Não chega a ser uma revelação chocante. Apesar de nunca ter sido um fã ardoroso da space opera clássica – com as exceções fundacionistas de praxe, que marcaram a minha adolescência – tenho uma queda pela versão contemporânea desse subgênero, frequentemente embebida com as conquistas do movimento new wave e com uma autoconsciência literária pós-moderna que, paradoxalmente, não perde o pé na exatidão científica hard.
O que é um tanto quanto chocante foi constatar que, embora tenham ocupado uma parcela significativa do meu tempo de leitura, virtualmente nenhum desses livros foi resenhado aqui. Claro que não dá pra chorar sobre o combustível de foguete derramado nem correr atrás dos parsecs perdidos, mas achei que seria de bom-tom começar o ano corrigindo essa injustiça com um post genérico sobre a new space opera. Primeiro porque eu não quero que nenhuma disfunção da realidade venha puxar o meu pé à noite. E segundo porque, como a questão “que diabo é a tal da new space opera” volta e meia pipoca pelos fóruns da rede, imagino que um pouco de informação sobre o assunto sempre vem a calhar.
(Como o post acabou ficando um tantinho grande, ele vai ser dividido em três partes.)
A boa e velha space opera. – Mas antes de falar sobre a new space opera, é preciso deixar bem claro que a old space opera, a space opera clássica, nunca existiu. Autores como E. E. Doc Smith, A. E. Van Vogt ou Isaac Asimov não achavam que estavam escrevendo space opera e provavelmente reagiriam ofendidos a qualquer sugestão nesse sentido. É que, nos anos 30 a 50, que hoje são considerados como a Era de Ouro da space opera, o termo – cunhado pelo escritor Wilson Tucker em 1941 – tinha um sentido exclusivamente pejorativo e era usado para se referir a aventuras espaciais melodramáticas e mal-escritas. “In these hectic days of phrase-coining”, escreveu Tucker, “we offer one. Westerns are called horse operas, the morning housewife tear-jerkers are called soap operas. For the hacky, grinding, stinking, outworn space-ship yarn, or world-saving for that matter, we offer space opera.”
Dois fatores contribuíram para mudar o significado de space opera. Em primeiro lugar, na percepção do público em geral, aventuras espaciais melodramáticas, bem ou mal-escritas, tornaram-se sinônimo do gênero. Até hoje, quando se fala em ficção científica, é nesse tipo de história que os não-iniciados pensam antes de mais nada. Essa associação ficou ainda mais reforçada pelo segundo fator, que foi o advento da new wave na década de 60, e a reação ao movimento capitaneada por Lester e Judy Lynn Del Rey.
A ambição dos autores da new wave – especialmente a vanguarda britânica, liderada por Michael Moorcock, Brian Aldiss e J. G. Ballard – era aproximar a ficção científica da literatura e, para isso, eles julgaram que seria uma boa estratégia se desvincular dos estereótipos e clichês da ficção científica clássica. Space opera era um rótulo conveniente para designar tudo o que eles não queriam fazer e, dessa forma, passou a ser aplicado a obras como Fundação ou a série Lensmen, de E. E. Doc Smith.
Do outro lado das trincheiras, o escritor e editor Lester Del Rey, junto com sua esposa, Judy Linn, se levantaram em defesa dos “valores tradicionais” da ficção científica e fizeram isso abraçando a nova definição de space opera criada pelos autores da new wave, mas tomando o cuidado de inveter o sinal: para os Del Rey, aventuras espaciais melodramáticas, desprovidas de pretensões literárias ou filosóficas, viraram o modelo mesmo do que a ficção científica deveria ser. À frente do selo de ficção científica da Bantam Books, os dois se puseram a reeditar obras clássicas da ficção científica, agora orgulhosamente proclamadas como “a boa e velha space opera”.
O fantasma de Hegel. – A crônica da origem, desenvolvimento e transformação da space opera clássica, que eu tentei resumir nos parágrafos acima, é apresentada em detalhes por David G. Hartwell e Kathryn Cramer em “How Shit Became Shinola”, a introdução que os dois escreveram para a antologia The Space Opera Renaissance, que aponta para o passo seguinte dessa evolução, também documentada nas ótimas The New Space Opera e The New Space Opera 2, editadas por Gardner Dozois e Jonathan Strahan: o momento em que a space opera se libertou das conotações saudosistas para se alçar à vanguarda da ficção científica contemporânea.
O fantasma de Hegel diria que era um movimento inevitável: tese, antítese, síntese. Na época mesma em que new wavistas e anti-new wavistas terçavam armas em torno do que a ficção científica era ou deveria ser, alguns autores – muitos dos quais egressos da própria new wave – puseram-se a escrever obras que combinavam a ambientação espacial da space opera com a estética, a guinada para as ciências humanas e a inquietação filosófica do movimento new wave. A série Duna, de Frank Herbert, que começou a ser publicada em 1965, tornou-se o paradigma dessa nova postura, que inclui ainda o Ciclo Hainish de Ursula K. LeGuin (cujo primeiro volume, O Mundo de Rocannon, foi lançado um ano depois de Duna), e as obras de Samuel R. Delany – talvez o autor que levou mais longe essa fusão entre dois opostos tidos como inconciliáveis, com a trilogia The Fall of the Towers e os romances Empire Star, Babel-17, Nova e Triton, entre outros. Os próprios Brian Aldiss e Michael Moorcock, bastiões britânicos da new wave, acabaram contribuindo para esse cânone, o primeiro com a trilogia Helliconia, no início da década de 80, e o segundo com a série Dancers at the End of Time. É preciso mencionar ainda John Brunner, que comungava do ideário new wave em romances experimentais como Stand on Zanzibar e A Órbita em Ziguezague, ao mesmo tempo em que ganhava a vida escrevendo aventuras espaciais que, inevitavelmente, acabavam absorvendo elementos do ethos radical de seu autor.
Esses livros todos criaram a estufa na qual, a partir do final da década de 70, a new space opera começou a germinar, atingindo seu ápice nos anos 90.
No entanto, seria injusto esquecer que, mesmo nos velhos tempos da space opera clássica, existiram precursores dignos de nota, entre eles Tiger! Tiger!, de Alfred Bester (mais conhecido pelo título da edição americana, Stars My Destination), que combinava aventura espacial com poesia concreta, e The World of Null-A, de A. E. Van Vogt, que usava uma trama de intriga interplanetária para levantar questões metafísicas sobre a natureza da realidade e da identidade pessoal (não por acaso, Van Vogt é o autor “das antigas” que mais influenciou Philip K. Dick).
De qualquer forma, foi nas últimas três décadas do século XX que a new space opera germinou, floresceu e tornou-se um dos troncos principais na vasta floresta que é a ficção científica contemporânea.
(continua…)
Octavio Aragão disse
Zensacional!
Fernando S. Trevisan disse
Já começou mandando ver, hein, Lúcio. E eu sempre descubro que sei menos ainda do que pensava de FC quando leio você, o FF, converso com o Ivo…
Abs!
Alexandre disse
Ótimo. É bom ver que a Space Opera não precisa ser vista como algo ruim. Na verdade, sendo o que mais se associa a imagem da Ficção Científica, ela deveria ser mais valorizada.
Lúcio Manfredi disse
Gracias, Mr. Octa!
Lúcio Manfredi disse
Valeu, Trevisa. Eu comecei a rascunhar o post ainda no ano passado, na casa dos meus pais, em São Paulo. E não esquenta: a gente sempre descobre que sabe menos sobre fc do que pensava. É uma das graças do gênero.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Não existe gênero bom ou ruim, Lancaster. O que existem são bons e maus autores.
Giseli disse
Wow! Clap clap! Mandou bem mesmo, Lúcio! É sempre bom aprender coisas novas com seus posts =)
Fabio disse
Faço minhas as palavras dos amigos, Lúcio. É refrescante ler seus textos, ainda mais quando eles trazem essa pletora de informações, essenciais principalmente para a galera mais nova, que infelizmente não tem muito acesso aos textos fundamentais da FC.
Alex de Souza disse
Informativo, sem ser chato. Uma aula. valeu.
Lúcio Manfredi disse
Brigadim, Gi! Tomara que você também goste das outras duas partes que estão saindo do forno.
Lúcio Manfredi disse
Então, Fábio, não tem nada de realmente novo no artigo, o grosso dessa primeira parte foi baseado nos textos do Hartwell/Cramer e Dozois/Strahan que eu citei. Mas como toda hora neguinho pergunta o que é “new space opera” e eu já cheguei a ver Blade Runner mencionado como fazendo parte do gênero (!), me pareceu uma boa ideia esclarecer a questão. Até porque duvido que The Space Opera Renaissance e os dois volumes do The New Space Opera saiam por aqui (pra não falar de Simmons, Banks, Zindell et coetera)…
Lúcio Manfredi disse
Eu é que agradeço, Alex. Eu pelo menos tento ser informativo. Se conseguir não ser chato, já é um bônus.
Fabio disse
Eu já vi gente cometer a asneira de dizer que Duna era space opera… Mas The Space Opera Renaissance e os volumes de The New Space Opera são absolutamente sensacionais – leitura recomendadíssima para leitores e escritores do gênero.
Lúcio Manfredi disse
No caso de Duna, é até compreensível. Afinal, Duna é space opera mais alguma coisa. Por baixo da consciência ecológica, do misticismo zen-sufi e da influência da psicologia junguiana (entre váááárias outras coisas), o DNA da space opera está lá (como dizem os editores de The New Space Opera, “Duna, in spite of a great deal of serious speculation about the future evolution of human societies, is fundamentally a baroque space opera on a scale not seen since the Superscience era of the twenties and thirties”). Mas Blade Runner? O que é que tem de space opera ali, pelamor de Wilbur Mercer?!?
Ivo Heinz disse
Grande Lúcio, belo texto.
Gostava do Doc Smith, li a saga “Lord Tedric” e, um-dia-sei-lá-quando, vou ler “Lensmen”; Van Vogt e sua saga Null-A-3 é sensacional, recomendo a todos, mas o volume 3 (que saiu em português pela Argonauta) destoa dos outros dois (que eu li pela Europa-América), alguém aqui teve essa impressão ???
Li o primeiro volume de “New Space Opera”, a maioria dos contos é muito boa, destaque especial para “Verthandi´s Ring”, do Ian Mcdonald (o mesmo de Brasyl).
Lúcio Manfredi disse
Fala, Ivo!
Eu tenho que confessar uma heresia: achei o Triplanetária (o primeiro volume dos Lensmen, que na verdade é anterior e o Doc Smith reescreveu pra encaixar na série – no Projeto Gutenberg tem a versão original, pré-Lensmen) chato à beça. Mas talvez a culpa seja da tradução da Argonauta, então talvez mais pra frente eu volte a dar uma chance ao livro em inglês. Já da série do Lord Tedric, eu só li um, The Pirates of Space, e gostei bem mais.
The World of Null-A é recomendadíssima – se possível em inglês. Mas se for pra ler em português, a tradução da Argonauta, que saiu como Xadrez Cósmico, é (por incrível que pareça!) melhor que a da Europa-América que, entre outras coisas, aportuguesou o nome dos personagens: Gilbert Gosseyn (que, em inglês, soa como go-sane) virou Gilberto Aju Izar, o que, pra mim, lembra nome de personagem dos quadrinhos da Disney, tipo Omar Telo (ou o mais infame Oscar Alho).
Os Jogadores de Null-A, o segundo volume, também é bom, mas não chega aos pés do primeiro, que é um dos livros mais estranhos que a Golden Age produziu. Já o terceiro é quase uma decepção. Foi escrito no período de decadência do Van Vogt, tem todos os defeitos do autor e nenhuma das qualidades, e quem (como o trouxa aqui) for atrás dele esperando por respostas pras questões que os anteriores deixaram em aberto vai quebrar a cara – ele não só não responde nada como embola mais ainda o meio de campo.
Tem uma outra continuação, Null-A Continuum, escrita por John C. Wright, mas essa eu ainda não li, não sei se vale a pena. Apesar de ter curtido a Segunda Trilogia da Fundação (vou falar dela na terceira parte do artigo), eu tendo a desconfiar de sequências escritas por outros autores que não o pai da criança. Mas a curiosidade matou o gato e, como eu sou fã do Van Vogt, talvez até arrisque uma espiada…
Abs.
L.
Alexandre disse
Lorde Tedric é muito bom. Outra space-opera clássica bacana é o Legião do Espaço do Doc Williamson, que tem a mocinha mais irritante da história da ficção científica – faz a princesa Leia parecer um doce de candura, mas isso é parte da diversão.