We’re all Gnuppets, ou Seinfield meets Philip K. Dick
Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2009
Deitado no consultório de um acupunturista, o corpo cheio de agulhas e ouvindo um muzak que, segundo o terapeuta, vai estimular seu sistema límbico mesmo que conscientemente ele ache a música brega, Perkus Tooth contempla uma fotografia emoldurada na parede. É a imagem de um vaso opalescente, que enche seus olhos de lágrimas e parece lhe endereçar um questionamento mudo: Você negligenciou a Beleza?
Perkus Tooth é um dos protagonistas de Chronic City, o mais novo romance de Jonathan Lethem, um dos musos do slipstream, acostumado a frequentar com a mesma desenvoltura as páginas da The New York Review of Books e da Locus Magazine. O episódio do vaso ajuda a compreender o por quê.
Para um literato, a foto emoldurada do vaso evoca irresistivelmente a “Ode a uma Urna Grega” de Keats, com sua conclusão agridoce de que a vida é efêmera, mas a Beleza de uma obra de arte vive na eternidade. Para o dickhead que sabe que Lethem é, ele próprio, um dickhead de carteirinha, porém, a alusão a Keats esconde uma outra: Oh Ho, o bizarro vaso pseudo-chinês que Philip K. Dick recebeu de uma de suas evanescentes musas, menciona em vários de seus livros e, segundo ele, era ou continha nada menos que uma encarnação de Deus em sua face mais benevolente. O vaso que leva Perkus Tooth às lágrimas é, assim, o símbolo perfeito da literatura slipstream praticada por Lethem, uma encruzilhada capaz de apontar em várias direções ao mesmo tempo, dentro e fora das rígidas fronteiras das convenções literárias.
Não é, aliás, a única citação implícita a Philip K. Dick. Pelo contrário, um dos prazeres adicionais de Chronic City para os fãs do autor de O Homem do Castelo Alto é identificar todas as piscadelas que o livro faz a Dick, como a astronauta perpetuamente presa numa estação espacial em órbita da Terra e que remete ao Walter Dangerfield de Dr. Bloodmoney. De fato, a personalidade do próprio Perkus Tooth, com sua paranóia de maconheiro e delírios de interpretação, parece ter se inspirado ao menos parcialmente no escritor californiano, apesar do aspecto vesgo e franzino de Perkus ser o oposto da aparência maciça e orsonwelliana de PKD. Já as referências a filmes e livros imaginários misturados com obras reais é um traço borgeano característico, ao passo que os nomes exóticos dos personagens – além de Perkus Tooth, o narrador da maior parte do livro chama-se Chase Insteadman, entre outros nomes intencionalmente ridículos – prestam homenagem a Thomas Pynchon, com seus Tyrone Slothropes e Oedipas Maas, Herbert Stencils e Doc Sportellos.
A história se passa no tempo atual, mas num cenário que tanto pode ser a Manhattan de uma realidade alternativa quanto um mundo virtual gerado por uma simulação de computador. Boa parte das características desse mundo são iguais às do nosso, mas com ligeiras discrepâncias – Marlon Brando pode ou não estar morto, o Sonic Youth se chama Chtonic Youth e os Muppets são conhecidos como Gnuppets. E os Estados Unidos estão em guerra com a China, embora todo o mundo faça o possível para negar e as pessoas possam optar (e a maioria opta) por comprar uma edição dos jornais totalmente expurgada de notícias sobre a guerra, the Freewar Edition.
É por conta da guerra, aliás, que a tripulação russo-americana de uma estação espacial fica isolada, impedida de voltar à Terra graças às minas que os chineses colocaram em órbita do planeta. Entre os astronautas ilhados na estação, está Janice Trumbull, noiva do ex-astro de TV Chase Insteadman, que ficou famoso quando era jovem ao interpretar um personagem secundário em uma sitcom de sucesso e desde então não faz mais nada a não ser flanar por Manhattan e desempenhar seu papel de noivo trágico da astronauta aprisionada, que periodicamente lhe envia cartas publicadas nos jornais e acompanhadas pelo público como se fossem os capítulos de uma telenovela.
É quando Chase conhece Perkus Tooth, ex-crítico de rock e ex-escritor marginal que, mais do que amigo, torna-se seu mentor espiritual. Baixinho, mirrado, estrábico e paranóico, Perkus vive praticamente recluso em seu apartamento, fumando maconha e elaborando teorias conspiratórias, a maioria das quais gira em torno da noção de que o mundo é uma pseudo-realidade alucinatória e de que somos todos marionetes (Gnuppets) manipuladas por forças ou entidades desconhecidas.
Nesse meio tempo, ocorrem fenômenos estranhos que só fazem alimentar as teorias delirantes de Perkus. Diferentes pontos da cidade são atacados pelo que pode ser um tigre preternatural escapado do zoológico (outro aceno em direção a Borges) ou um robô descontrolado, e as ruas são invadidas por um sinal que a maioria das pessoas percebe como um cheiro onipresente de chocolate, mas que uns poucos, como Perkus, captam como um zumbido estridente no ouvido.
E há também, claro, os misteriosos vasos chineses, de cuja existência Perkus fica sabendo por acaso no consultório de um acupunturista, colocando ele em seus amigos numa busca delirante por essa espécie de Santo Graal que, com sua aura numinosa, talvez detenha a chave para os segredos da realidade.
Ou não.
Como costuma acontecer com a fc de Lethem, Chronic City tem uma dívida pesada com Philip K. Dick mas, ao contrário do que ocorria, por exemplo, em Amnesia Moon, a influência maior aqui não são os romances mais caracteristicamente phildickianos – digamos Ubik ou Os Três Estigmas de Palmer Eldritch – e sim os livros da fase final de Dick, especialmente os diálogos errantes e livre-associativos de O Homem Duplo e VALIS.
Como estes dois romances se passam ambos na Califórnia, coube à série Seinfield mostrar o quanto essas conversas sobre o nada se aclimatam perfeitamente ao clima novaiorquino, uma aclimatação da qual Lethem faz pleno uso. Mas, enquanto a série extraía boa parte de seu humor do caráter vazio e absurdista dos diálogos, em Chronic City, como em VALIS, Lethem investe a tagarelice de seus personagens com uma significação metafísica, uma errância mais ou menos aleatória, mais ou menos tateante ao redor da mesma verdade que Philip K. Dick perseguiu incessantemente em seus livros, e que Rimbaud, dentre outros, já tinha enunciado quase um século antes: “A verdadeira vida está ausente. Nós não estamos no mundo.” Ou, nas imortais palavras de Perkus Tooth: “We’re players in a Gnuppet realm, reading from the same script. We’re all Gnuppets.”
Fabio disse
Ou também o livro mais recente do Walter John Williams, This Is Not a Game, que repete o título do livro já clássico de Dave Szulborski em tom de farsa, com tons dickianos (outro fã assumido aí na parada.
Lúcio Manfredi disse
Já tá na minha lista. Só li dois livros do Walter Jon Williams, mas gostei muito de ambos. Mas antes de encarar o This Is Not A Game, quero traçar Infoquake e Multireal, do David Louis Edelman, pra estar atualizado quando sair a terceira parte da trilogia em fevereiro. Putz, é tanta coisa pra ler…
Cirilo S. Lemos disse
Parece muito bom.
Fabio disse
Infoquake e Multireal estão entre os livros mais fantásticos que tive a oportunidade de ler em tempos recentes, Lucio. Estão sendo comparados a Duna em termos de worldbuilding, e não tiro a razão do comentário.
Lúcio Manfredi disse
Cara, eu tô chegando na metade do Infoquake e, por enquanto, não tenho o que discordar. O trabalho de worldbuilding é mesmo sensacional – e a bio/lógica é uma dessas coisas que eu adoraria se existisse. E, sim, ficou perfeitamente claro porque no podcast você citou o Edelman como um dos autores que pertencem à evolução contemporânea do cyberpunk. Faz sentido. (Aliás, outro autor que eu tenho a impressão que também campeia nessa linha “empresarial” e me deixou curioso, só que num esquema mais “near future” do que o Edelman, é o Paolo Bacigalupi, você já leu o The Windup Girl? Vale a pena?)
Danilo disse
Não sei se foi a sua excelente crítica, mas eu estou com a impressão que esse livro deve ser muito foda!
Lúcio Manfredi disse
Fala, Danilo! Olha, eu gostei bastante, tanto do Chronic City quanto dos outros dois livros dele que eu li este ano, Amnesia Moon e Gun, With Occasional Music. Pra quem gosta das maluquices do Pynchon e das viagens do PKDick (ou vice-versa), é um prato cheio.
Fabio disse
Estou com o The Windup Girl aqui, mas ainda não comecei – vou deixar para janeiro, na curtição das férias.
Lúcio Manfredi disse
Opa, não esquece de dizer depois se vale a pena!