Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Posts de dezembro \27\UTC 2009

Leituras 2009

Publicado por Lúcio Manfredi em 27/12/2009

Em matéria de leituras, 2009 acabou sendo um ano menos produtivo do  que eu esperava. Tinha me proposto a ler pelo menos cem obras de  ficção entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, mas leituras de  não-ficção, projetos profissionais e terminar de escrever o meu  romance me fizeram fechar pra balanço ao atingir a marca dos oitenta  livros.  Por outro lado, de um ano que começou com China Miéville, terminou com Iain M. Banks  e incluiu seis Dan Simmons massudos, a releitura de toda a Saga da  Fundação, o último Pynchon e o primeiro Fábio Fernandes, não se pode  dizer que tenha sido pobre.  Segue a lista, com links para os que (também menos do que eu gostaria)  foram resenhados aqui:

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Uma Experiência Visionária

Publicado por Lúcio Manfredi em 23/12/2009

Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena. Cento e cinqüenta minutos do mais puro estado de transe.

Queria escrever uma resenha mais decente, até porque o filme merece uma resenha mais decente. Eu deveria, por exemplo, rebater as críticas que dizem que o roteiro é uma coleção de clichês, e poderia fazer isso lembrando, com McLuhan, que todo clichê é um arquétipo desgastado pelo uso, mas que sempre é possível usar o clichê de maneira a recuperar e tornar relevante o seu núcleo arquetípico, que é o que James Cameron faz com a Jornada do Herói. Se quisesse ser cruel, contrastaria Avatar com Distrito 9 que, este, sim, é um amontoado de clichês costurados mal e porcamente por um diretor que se meteu a escrever o roteiro sem ter a menor noção de estrutura dramática, quanto mais de ressonâncias arquetípicas.

Não é o caso de Cameron.

Em termos de estrutura dramática, o roteiro de Avatar só não é perfeitamente equilibrado porque a longa duração do filme o obrigou a apelar para um deus ex machina (ou melhor, deus ex avis) a fim de solucionar um conflito importante, mas secundário em relação à ação principal. Em todo caso, o au(dire)tor seguiu a máxima aristotélica que diz que um deus ex machina pode ser amenizado se for plantado com antecedência, de modo que não pareça caído do céu mesmo quando isso é literalmente verdade.

Uma resenha decente também se estenderia sobre o deslumbramento visual do filme. Não existe um único fotograma em Avatar que não apresente uma riqueza de detalhes e surpresas visuais de entupigaitar o mais míope dos espectadores. Já que acabamos de falar de clichês, aqui vai mais um: Avatar é uma festa para os olhos, e isso mesmo sem o recurso do 3D, que é só a cereja do bolo. James Cameron levou dez anos trabalhando no filme, prometendo uma experiência cinematográfica única. E cumpriu a promessa.

Se esta fosse uma resenha decente, falaria também sobre a mensagem ecológica de Avatar, que é oportuna, e não oportunista, e se tornou ainda mais relevante depois do fiasco que foi a COP15. Na mesma semana em que os governos do mundo mostraram que estão dispostos a fazer qualquer coisa desde que não precisem fazer nada, não há como deixar de aplaudir um poderoso lembrete sobre a interdependência entre todas as formas de vida e o meio-ambiente. E aqui se compreende a função estratégica do clichê: ao se escorar em estruturas narrativas com as quais o grande público já está familiarizado, Avatar faz com que essa mensagem penetre na consciência coletiva em um nível mítico, emocional, capaz de mobilizar reações muito mais poderosas do que a mera argumentação racional, sempre passível de ser neutralizada por racionalizações hábeis como as que nos brindaram os discursos proferidos em Copenhague nos últimos dias.

Uma resenha decente, como a que o filme merece, diria tudo isso. Mas não estou em condições de escrever uma resenha decente como a que o filme merece. Não agora. Acabo de voltar do cinema, ainda sob o impacto de cento e cinqüenta minutos do mais puro transe, e tudo o que eu consigo fazer é repetir: Avatar não é um filme. É uma experiência enteógena.

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We’re all Gnuppets, ou Seinfield meets Philip K. Dick

Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2009

Deitado no consultório de um acupunturista, o corpo cheio de agulhas e ouvindo um muzak que, segundo o terapeuta, vai estimular seu sistema límbico mesmo que conscientemente ele ache a música brega, Perkus Tooth contempla uma fotografia emoldurada na parede. É a imagem de um vaso opalescente, que enche seus olhos de lágrimas e parece lhe endereçar um questionamento mudo: Você negligenciou a Beleza?

Perkus Tooth é um dos protagonistas de Chronic City, o mais novo romance de Jonathan Lethem, um dos musos do slipstream, acostumado a frequentar com a mesma desenvoltura as páginas da The New York Review of Books e da Locus Magazine. O episódio do vaso ajuda a compreender o por quê.

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