Dabar
Publicado por Lúcio Manfredi em 17/11/2009
E eis que aporta às livrarias Os Dias da Peste, primeiro – mas, espera-se, não o último – romance do escritor, crítico e teórico da cybercultura Fábio Fernandes. Um dos melhores contistas da ficção científica brasileira, introdutor do movimento cyberpunk no Brasil e veterano das antigas guerras de trincheiras travadas pelo fandom tupiniquim, Fábio Fernandes devia(-se) um romance que lhe desse espaço suficiente para expandir sua verve e inventividade de um modo que a forma concentrada do conto nem sempre permite. Publicado pela Tarja Editorial, que vem se firmando como um dos principais nichos da literatura de gênero no Brasil, Os Dias da Peste é esse romance.
Dividida em três partes, a história começa nos dias de hoje (mais exatamente, no dia 06 de abril de 2010) e segue até 2016, acompanhando – pelos olhos do técnico de computadores Artur Mattos – o que começa como uma série de panes nos equipamentos do mundo todo, apelidada pela imprensa de infodemia (e, dado o ouvido de Fernandes para trocadilhos, o cacófato é certamente intencional), e acaba desembocando na maior transformação de toda a história da humanidade.
O livro é composto pelos diários de Arthur, sob a forma de entradas de blogs, anotações e podcasts escritos no calor da catástrofe, que aqui deve ser entendida em seu sentido aristotélico original, como uma guinada de 180 graus nos acontecimentos, fazendo com que situações positivas se transformem em negativas (por exemplo, a dependência humana de tecnologias facilitadoras desembocando no caos da infodemia) – e vice-versa.
Encontrados no século XXII, os diários de Artur são editados e exibidos para o público no Museu Líquido de Nova Copacabana, em comemoração aos cem anos da Convergência NeuroDigital, espécie de versão brazuca da Singularidade Tecnológica prevista pelo escritor Vernor Vinge e abraçada com entusiasmo pelo futurólogo Ray Kurzweil (cujo livro A Era das Máquinas Espirituais, por sinal, foi traduzido pelo próprio Fábio Fernandes).
A introdução escrita pela curadora do museu (e esc-ape artist, num jogo de palavras genial, que condensa toda a temática do livro), bem como as notas de rodapé que acompanham o texto, formam a moldura do romance. Aliás, as notas de rodapé são, com trocadilho, uma nota à parte. Seu objetivo é tornar os diários de Artur mais compreensíveis para os leitores de 2109, explicando alusões, expressões e referências do passado distante – isto é, o nosso presente. Mas como a própria editora não tem essas referências, suas tentativas de adivinhar o sentido das frases são, frequentemente, de rolar de rir, como por exemplo na nota 7, em que ela tenta entender a expressão “tirar a inhaca do corpo”:
Segundo a BioWeb, Inhaca é o nome de uma ilha na costa leste do antigo continente da África, ao sul de um país chamado Moçambique. Impossível entender como ele conseguiu tirar essa ilha do corpo. Não há registro de que a tecnologia do século XXI dominasse a miniaturização.
A função das notas, no entanto, não se esgota na piada. Pelo contrário, é através do que a pós-humanidade futura ignora, e de referências crípticas a entidades como a BioWeb, ao Panteão Terrestre de Consciências Downloadadas (do qual o escritor Arthur C. Clarke, com o nome de Ser Clarke, participa como Hipermestre Grau 12) ou à extinta Igreja Católica Renovada Humana (que considera as celebridades da cultura pop como santos), que vamos aprendendo em filigrana como é a civilização futura e quão cognitivamente estranhada ela se encontra do nosso presente.
Uma curiosidade final: em hebraico, dabar significa ao mesmo tempo “peste” e “palavra ou assunto” – ou seja, no sentido amplo: informação. Como verbo, dabar também quer dizer “gerar descendência”. Por uma estranha coincidência cabalística, essas três acepções resumem bem o que é, do que trata e para onde aponta o romance de Fábio Fernandes.
Luiz Felipe Vasques disse
Dude!!!! Spoilers, duuuuude…!
Lúcio Manfredi disse
Nada que não seja revelado nas primeiras três páginas do romance, Felipe…
Cirilo S. Lemos disse
Não vi os spoilers.
Fabio disse
Há outra acepção para dabar: d. babar. Babo mil Lamartines (franceses e brasileiros) com sua resenha, Lúcio! Obrigado!
Lúcio Manfredi disse
My pleasure (tanto ler quanto resenhar): o livro é do balacobaco.
Octavio Aragão disse
Impossível resistir a uma resenha del Manfredo Lucífero. Mas nem precisava, né? Esse romance do Fábio já era um clássico imperdível antes de nascer.
Lúcio Manfredi disse
Verdade. Se algum dia vier a existir algo como um “cânone da fcb”, não tenho a menor dúvida de que Os Dias da Peste vai estar lá, puxando a fila – junto, imagino, com um certo romance de ficção alternativa escrito por um certo autor que a gente conhece…
Flávio Medeiros disse
Ainda não li. Mas as perspectivas não poderiam ser mais alvissareiras…
Fabião chutou a lata.
Fabio disse
A Mão que Cria é a Mão que Guia! (Não resisti a trocadilho – mas que é verdade, é!
Roctavio de Castro disse
Baita resenha da Peste! Lá li o pdf liberado no site da Tarja e não vejo a hora de botar as mãos no meu exemplar. A resenha só contribuiu para minha ansiedade…
Cirilo S. Lemos disse
O pdf também me deixou na expectativa de conseguir logo um exemplar. Infelizmente, só Deus sabe quando.
Paulo Elache disse
caralhofilhodumaputadoculargo!!!…
Com esse livro o Fábio acertou muito mais do que na mosca:
1) Estilou “as you know, Bob” sem parecer a porra do indefectível “as you know, Bob” (log/weblog/pod)
2) Como o Lúcio speakou, agora temos uma singularidade “FFernandes-like”
3) Há muito não retinava uma trama que me fizesse esquecer que tinha que trampar no dia seguinte
)
4) Porra, quero mais, Fábio!!!
)
Abs (sem frenagem),
Paulo Elache