Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

A Musa Pós-Humana

Publicado por Lúcio Manfredi em 12/11/2009

IliumCanta, ó Musa, as alegrias de se ler uma história que não apenas satisfaz nossas expectativas como as ultrapassa. Ainda mais depois das decepções que foram – para mim, pelo menos, ó Musa – Caim e Distrito 9.

E no caso de Ilium, de Dan Simmons – após ter lido os estupendos quatro volumes dos Hyperion Cantos e tendo um interesse apaixonado pelo entrelaçamento quântico entre mitologia e ficção científica – as expectativas eram realmente elevadas. Mas Simmons não apenas dá conta do recado e delivers the goods, como dizem os americanos. Ele vai mais além. Quantos autores você conhece, ó Musa, capazes de intercalar uma sequência fast paced de perseguição sob os oceanos de Europa com uma descrição acadêmica sobre o significado dos Sonetos de Shakespeare – e manter o leitor interessado nas duas coisas? Simmons consegue. E isso não é nada comparado ao que vem depois.

Ilium é, para usar o jargão acadêmico, uma obra-prima de intertextualidade, que dialoga com a Ilíada de Homero, A Tempestade (além dos sonetos) de Shakespeare, Em Busca do Tempo Perdido de Proust e mais uma caralhada de citações e referências, mais ou menos como ele já havia feito com os poemas de Keats em sua saga anterior.

Não vá pensando, porém, ó Musa, que se trata de um livro pedante, arrastado e eivado de literatices. Muito pelo contrário, a história tem um ritmo frenético, em que as coisas começam a acontecer praticamente desde o primeiro capítulo e as reviravoltas não param até a última página. E tudo embasado na mais sólida, ainda que vertiginosa, especulação científica.

Se houve um tempo em que adeptos da fc hard e devotos da fc soft guerreavam como gregos e troianos, Simmons não faz por menos: marca um tento para ambos os times e, em vez de ir para casa comemorar, volta a campo e escreve a continuação imediata – Olympos, que, mais do que uma simples sequência, é a segunda metade de um mesmo épico que tem, somadas, mais de mil e quinhentas páginas. E acredite, ó Musa, a história é tão complexa que pede cada uma dessas páginas.

É difícil explicar do que se trata sem espoilear, e eu sei, ó Musa, que você não gosta de spoilers. Digamos que Ilium se inicia com três tramas completamente diferentes entre si e aparentemente desconectadas. Só aos poucos é que os três fios narrativos vão se entrelaçando e revelando não só o panorama que constitui o romance propriamente dito, mas  também a sequência de eventos históricos que produziu o mundo onde o romance se desenrola.

A primeira dessas tramas, narrada em primeira pessoa por um crítico do século 20 chamado Thomas Hockenberry, gira em torno da “reencenação” da Guerra de Tróia promovida por um grupo de “pós-humanos” mais ou menos do século 40, que “assumiram” o papel e a função dos deuses gregos. Hockenberry faz parte de um grupo de acadêmicos ressuscitados pelos deuses por meios tecnológicos com o objetivo de observar os eventos da guerra e compará-los com a Ilíada de Homero, a fim de evitar discrepâncias.  Os motivos por trás dessa obsessão dos novos (?) deuses com a fidelidade histórica e a conexão entre a Guerra de Tróia encenada e a Guerra de Tróia real fazem parte da revelação progressiva do romance.

As aventuras, desventuras e resmungos de Hockenberry em meio a gregos e troianos alternam-se com as peripécias de um grupo de personagens pertencentes à população de humanos “originais”, que permaneceu na Terra depois que uma pandemia dizimou a maior parte da humanidade, numa época em que os pós-humanos já existiam. Antes de partir do planeta, diz-se que os pós-humanos contiveram a doença, regeneraram a humanidade e estabilizaram a população em exatos um milhão de habitantes, que vivem como os elois num mundo sem (?) morlocks, saltando de festa em festa, viajando por meio de uma forma de teletransporte quântico conhecida como fax. Seu tempo de vida também foi cuidadosamente fixado pelos pós-humanos em exatamente um século, após o que eles partem para o Final Fax e, acredita-se, vão se juntar à pós-humanidade.

Olympos

A terceira trama é protagonizada pelos moravecs, robôs orgânicos batizados com esse nome em homenagem ao futurólogo Hans Moravec. Criados originalmente para auxiliar na exploração do Sistema Solar, os moravecs fixaram residência nos satélites dos Planetas Exteriores, mas acabaram rompendo tanto com a humanidade quanto com os pós-humanos e se tornaram um povo independente, sem contato com os seus criadores. O isolamento chega ao fim, no entanto, quando os moravecs detectam uma flutuação quântica maciça em Marte, possivelmente causada pela atividade dos pós-humanos, e que ameaça a integridade de todo o Sistema Solar. A fim de investigar e, se necessário, tomar providências, decidem enviar uma expedição da qual fazem parte dois moravecs apaixonados respectivamente pelos Sonetos de Shakespeare e pelo Em Busca do Tempo Perdido de Proust.

Mas não acredite em mim, ó Musa, porque – com exceção da terceira trama – tudo o mais nesse resumo é falso. Simmons parece ter o mesmo prazer de um Van Vogt ou um  Philip K. Dick em erigir cuidadosamente uma situação apenas para deitá-la abaixo com um piparote e construir uma explicação nova sobre as ruínas da anterior. Como um Hermes pós(-moderno, -humano), ó Musa, ele te leva no bico capítulo a capítulo, e você termina Ilium já correndo para encomendar Olympos. E provavelmente vai lamentar, ó Musa, que ele só tenha novecentas páginas…

8 Respostas para “A Musa Pós-Humana”

  1. Agora eu quero ler.

    Maldito seja, Lúcio! :)

  2. Lúcio Manfredi disse

    Caaara, eu passei quase uma semana indo dormir alta madrugada e aproveitando cada tempinho livre pra ler. Já tinha encomendado a continuação, mas pretendia fazer uma pausa antes de emendar os dois. Só que, quando chegou no gancho final, eu vi que não dá. Vou ter que emendar. O Simmons é foda…

  3. Luiz Felipe Vasques disse

    Se rolar adaptação… que seja pela HBO, imagino. :)

    Alguém em algum dado momento não disse que ia rolar uma versão brasileira, ou pelo menos em português?

  4. Lúcio Manfredi disse

    É, teria que ser uma minissérie longa, até mesmo um seriado. O que eu torço pra ninguém fazer é um filme – teria que simplificar tanto que ia destruir a história.

    Não lembro de ter ouvido falar em traduzirem Ilium. O que eu lembro de ter rolado, pela enésima vez, foi sobre alguém querendo lançar Hyperion. Mas o rumor se dissipou logo, e não se falou mais no assunto.

    Eu, na verdade, duvido muito…

  5. Nah, as chances disso sair aqui são ínfimas. Se nem os calhamaços de horror do Simmons saem – Carrion Confort e A Canção de Kali – que dirá esses compêndios multivolumosos que são Hyperion e Ilium/Olympus?

    Contentem-se com o Anno Dracula, que sai no mês que vem!

  6. Ivo Heinz disse

    Entro de férias em mais uns 40 dias.

    Valeu “Mr. L”, já sei o que vou ler, hehehehehe.

    Abração

  7. Lúcio Manfredi disse

    Octavio: só no mês que vem? Eu achei que Anno Dracula ia sair agora, no final do mês… Quanto ao Ilium/Olympos, concordo, acho praticamente impossível. Até porque é muito recente: a julgar pelos lançamentos de Snow Crash e Anno Dracula, o mercado editorial brasileiro mal e mal chegou na fc do início dos anos 90… :)

  8. Lúcio Manfredi disse

    Você não vai se arrepender, Ivo. Só espero que sejam longas férias ou que você não tenha programado muitas atividades, porque Ilium é grande e, bom, não vou dizer que é uma leitura absorvente porque leitura absorvente é rótulo de embalagem de ob :) , mas cada capítulo do Simmons para num gancho que praticamente te obriga a continuar lendo. Pra não falar do cliffhanger final, que é de pular na cadeira e morder o cotovelo…

    Boas férias, e boa leitura!

    Abração
    L.

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