Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Noves Fora, Distrito 9

Publicado por Lúcio Manfredi em 10/11/2009

district9_posterCheguei à conclusão de que, quanto mais eu fico velho, mais eu fico ranzinza. Devo ser a única pessoa da face da Terra que não gostou de Distrito 9, a estréia nos longas do diretor sul-africano Neill Blomkamp, produzida por ninguém menos que Peter Jackson e que já vinha causando frisson meses antes de estrear, por conta de sua premissa original: usar um grupo de extraterrestres confinados contra à vontade em uma favela de Johannesburg como metáfora para tratar do preconceito racial.

E eu fui ao cinema predisposto a gostar. Juro por Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Pessoas que eu conheço e cuja opinião eu respeito tinham gostado. Pessoas que eu não conheço, mas cuja opinião eu respeito, tinham gostado. Pessoas que eu não conheço e para cuja opinião não dou a mínima também tinham gostado. Um filme capaz de conquistar essa rara unanimidade não pode ser ruim, certo?

Errado. Pelo menos na minha opinião. Não vou dizer que o filme é ruim porque, Nelson Rodrigues à parte, eu estou e sei que estou em minoria. Seria mais humilde – bem como um reconhecimento tácito do relativismo de todo juízo estético – dizer que comigo, o filme não funcionou.

alien_nationO principal problema é que, de original, mesmo, só a premissa. Se bem que nem isso, porque Alien Nation já tinha empregado a mesma metáfora nos pré-históricos anos 80, e isso numa série de TV, e equacionar alienígenas com minorias é um dos clichês favoritos na crítica acadêmica de ficção científica. Mas, enfim, ainda é uma metáfora apta e que, bem trabalhada, pode render obras interessantes.

De resto, não existe um diálogo no filme que não seja clichê de filme da Sessão da Tarde, com direito a frases melosas como “não desista de mim, porque eu não desisti de você”, um vilão que faz cara de mau e destila pérolas de vilão de desenho animado e uma última cena entre o humano e o alienígena que chega a ser constrangedora de tão ruim. Além disso, o roteiro é cheio de furos, com uma história que deixa de fazer sentido nos primeiros quinze minutos e daí para a frente vai ladeira abaixo em direção ao absurdo total, sempre embalada por lugares-comuns de um lado e pela pieguice do outro.

Até os alienígenas, embora sejam totalmente inumanos e se pareçam com camarões gigantes (que é, de fato, o termo pejorativo que as pessoas usam para se referir a eles), têm uma psicologia de personagem de soap opera, e sua linguagem feita de estalidos, quando traduzida, parece ser inteiramente composta por banalidades e platitudes.

district_9_prawn_commanderO que se salva, a meu ver, é o aspecto visual do filme. A aparência dos alienígenas é tão bem-construída quanto sua psicologia é mal-trabalhada, e a imagem da nave-mãe abandonada pairando nos céus de Johannesburg tem um impacto poderoso. É pouco, eu acho, para justificar tamanho auê em torno do filme.

Mas eu devo estar enganado. Afinal, Brutus é um homem honrado.

10 Respostas para “Noves Fora, Distrito 9”

  1. Jorge disse

    Realmente,
    listados acima estão comentários mal-humorados; fico no aguardo da resenha :) !

  2. Luiz Felipe Vasques disse

    E viva o mau humor, digo e repito. :)

    Pus um link no meu blog de FC onde comento D-9 para cá, pode ser?

    http://blogdefc.blogspot.com/2009/10/distrito-9.html

    Ah, e gostaria de saber, ingênuo que sou, dos furos de roteiro.

  3. Lúcio Manfredi disse

    Antes de mais nada: Felipe, valeu pelo link.

    Eu não quis entrar em detalhes pra não espoilear a torto e a direito, mas já que você pediu e o Jorge reclamou, vamos lá.

    PRA QUEM NÃO LEU: ATENÇÃO! SPOILERS AHEAD!

    1) O plot device central do filme, a transformação do protagonista em um híbrido depois que o combustível alienígena espirra na cara dele, é completamente absurda. Seria mais ou menos como dizer que, se um alienígena beber petróleo, ele vai se transformar em humano. Claro, sempre se pode dizer que a tecnologia alienígena parece ter um componente biotecnológico (por exemplo, as armas deles só podem ser controladas pelos próprios aliens), mas aí esbarra-se numa outra questão: a incompatibilidade genética. Parafraseando Carl Sagan, a hibridização entre humanos e alienígenas é tão inverossímil quanto o cruzamento entre um elefante e uma petúnia. Mas, ok, embora esse seja o elemento mais implausível do filme, eu estaria plenamente disposto a relevar isso, se o resto funcionasse. Não sou um xiita hard, muito pelo contrário. As naves fazendo barulho no vácuo em Star Wars nunca me incomodaram, por exemplo. Na verdade, até aqui eu estava gostando do filme e, quando o Wikus foi levado para dissecação, eu pensei: “É uma mistura de A Metamorfose com Na Colônia Penal.”

    2) O que faz o Wikus fugir é justamente a descoberta de que ele vai ser morto e dissecado para estudos. De fato, ele foge imediatamente antes de começar o processo de dissecação. Fica claro que ele vai morrer e que seus captores estão cagando e andando pra isso. O que, por si só, já seria estranho: afinal, se ele é o único humano capaz de operar as armas alienígenas, isso o torna mais valioso vivo do que morto, e a atitude racional seria mantê-lo vivo enquanto se tenta replicar essa habilidade. Mas vá lá, o capitalismo nunca primou pela racionalidade mesmo. Só que, quando a MNU bota os mercenários atrás dele, o mesmo CEO que tinha dito que não estava nem aí se ele morresse (e que, por sinal, é o sogro de Wikus) insiste que ele deve ser capturado vivo a qualquer custo.

    3) Mas, para mim, o momento em que o filme definitivamente pulou o tubarão ocorre quando o Wikus descobre que o alienígena só pretende curá-lo depois de três anos. A reação do Wikus é nocautear seu camarada-de-armas e se apoderar do transporte para tentar chegar na nave sem o outro. Uma vez lá, ele pretendia fazer o quê, mesmo? Ficar olhando o maquinário alienígena, esperando que um milagre do Divino Espírito Santo lhe mostrasse qual o equipamento capaz de reverter sua condição e como fazer para operá-lo?

    4) Para coroar, vem o indefectível deus ex machina. Após 20 anos laboriosamente construindo um transporte para levar Papai Camarão e Camarão Jr. até a nave, de repente, do nada, se descobre que Camarão Jr. não só é capaz de ativar a nave por controle remoto, mas também controlar o armamento alienígena à distância. Porra, então por que não fizeram isso logo de uma vez?

    Tem outras inconsistências menores, mas tô com preguiça de listar :) . O ponto é que, pra mim, pelo menos, o efeito cumulativo dessas inconsistências, somado com os diálogos clichezentos, acabou me expulsando da história. Mas, enfim, tudo indica que eu sou uma exceção.

    Abs.
    L.

  4. Luiz Felipe Vasques disse

    AINDA SPOILERS

    Valeu, Lúcio, isto esbarrou em coisas que eu tb havia notado. No meu blog até comento disto, mas muito por alto.

    1) O combustível-que-transforma-tartaruga-ninja foi o que mais me incomodou. Exatamente por causa que o filme se leva a sério. O que me leva a uma outra consideração: exatamente por este levar-se a sério, no momento em que o Wilkus se contamina pelo combustível, como assim??? ele não foi ensacado na hora?

    2) Eu não tinha reparado no flip-flop da opinião do sogrão. Esquisito, mesmo.

    3) Sabe que ali eu entendi? O lance é: o Wikus é *burro para caray*. Deve ter sido o protagonista mais burro que apareceu desde Forest Gump (que pelo menos tinha bom-caráter), e ainda assim há dúvidas. Ele teve uma reação de pânico, somado ao medíocre que ele era. Ele é incapaz de planejar, ele reage ao óbvio. Como a maioria dos heróis de filmes de ação, só que agora não há o glamour ou mesmo a sorte desse tipo de momento… :)

    4) Hum… pq faltava aquele combustível para retornar à nave, imagino, que foi logo confiscado. E eles não construíram o transporte, aquele era uma naveta que até falam que nunca conseguiram encontrar. Ou ao menos foi que entendi. Não?

  5. Lúcio Manfredi disse

    Salve, Felipe!

    Mas o combustível era só pra naveta, não pra nave. O problema era chegar na nave. Então, não seria mais prático usar aquelas armas foderosas pra tomar um helicóptero da MNU ou coisa que o valha, em vez de passar vinte anos obsessivamente recolhendo cada minúscula gota dos ingredientes necessários pra fabricar o combustível da naveta?

    Tudo bem, se você parar pra pensar, pode até pensar em alguma justificativa tortuosa não só pra isso, mas pra todos os furos que eu apontei. Só que o filme não apresenta nenhuma. E fornecer explicações é obrigação dele, não do espectador. Se tem uma coisa que me deixa puto (por razões óbvias) é roteiro preguiçoso… :)

    Abs.
    L.

  6. Luiz Felipe Vasques disse

    > Mas o combustível era só pra naveta, não pra nave. O problema era chegar na nave. Então, não seria mais prático usar aquelas armas foderosas pra tomar um helicóptero da MNU ou coisa que o valha, em vez de passar vinte anos obsessivamente recolhendo cada minúscula gota dos ingredientes necessários pra fabricar o combustível da naveta?

    > Tudo bem, se você parar pra pensar, pode até pensar em alguma justificativa tortuosa não só pra isso, mas pra todos os furos que

    Eu sempre fico pensando na questão da mentalidade, do bando de scavengers que aquele lote específico de aliens se revelava, e que de fato é mencionado. Talvez seja isso que lhes faltasse, uma diretiva dada por alguém capacitado, para, por exemplo, não virarem favelados acossados que pareciam não se importar para tal.

    > eu apontei. Só que o filme não apresenta nenhuma. E fornecer explicações é obrigação dele, não do espectador. Se tem uma coisa que me deixa puto (por razões óbvias) é roteiro preguiçoso…

    Você não sabe como eu uso isso por ai, desde que li vc falar isto de, se bem lembro, Atlantis da Disney. :)

    Há, de fato, um limite do que vc, platéia, pode pressupor pelo que é indicado/sugerido e não escancarado pelo filme e aquilo que o filme deveria apresentar…

  7. Lúcio Manfredi disse

    Pois é. Não é que eu ache que um filme tem que apresentar tudo mastigadinho pro espectador, longe disso. Se fosse assim, o David Lynch não seria um dos meus diretores preferidos. :) Mas ele tem que, pelo menos, apresentar os elementos necessários pro espectador refletir sobre eles, ligar os pontos e chegar a uma conclusão. Senão vira puro e simples wild guess. E, enfim, tem coisas mais importantes pra fazer o espectador refletir do que consertar furos do roteiro. Por exemplo, a premissa, que é sempre um tópico polêmico, que varia de espectador pra espectador: o que foi que os autores quiseram dizer com o filme? Roteiristas e diretores constróem a história, e o público se questiona sobre o que ela significa. Distrito 9 faz o contrário: a premissa tá lá, mastigadinha, desde a primeira cena (aliens = minorias), mas a história, em compensação, é toda esburacada…

  8. cristinalasaitis disse

    E definitivamente, o protagonista é o cara mais trouxa que podia haver!

    Foi criativo, por isso digo que gostei. Mas não, não é uma “obra-prima”.

  9. Lúcio Manfredi disse

    Oi, Christie. Pois então, quando um filme não é uma obra-prima, a gente gostar ou não vai depender do quanto de falhas a gente tá disposto a relevar. Um amigo meu, que também é roteirista profissional, viu as mesmas falhas que eu mas, mesmo assim, curtiu. Em compensação, conheço muitas pessoas que detestaram o primeiro The Matrix por causa do lance das máquinas usando humanos como baterias, que é uma premissa quase tão absurda quanto a do Distrito 9 – mas que, no caso do The Matrix, não me incomodou nenhum pouco, porque eu gostei de outros aspectos do filme e o saldo final, pra mim, foi positivo. Então, é um troço meio subjetivo: a mágica às vezes funciona e às vezes, não. Pra mim, aqui não funcionou.

  10. Helio Saara disse

    Oi, gente!
    Minha avaliação pode ser já distante no tempo. Mas, fazer o quê? Eu só assisti o filme no mês passado!!
    Bom, até avalio que vc possa não ter gostado da estória ou dos furos do roteiro… mas, o filme foi muito bem feito em, digamos, “cenas-extra-realistas”. Nem tudo é perfeito! Não se sinta só quando pensar que somente vc não gostou do filme (bom, eu gostei!)!! Na época do TITANIC, eu também era o único que parecia ODIAR aquela tralha!!! Todo mundo assistia e dizia: “Eu adorei!”
    Realmente, quando o filme estava terminando e eu me perguntei “perai! ele virou alien só porq teve contato com o combustivel? eu achei que aquilo fosse uma arma, tipo = se não podemos vencê-los, vamos juntar eles á nós!”…
    Mas, o fato é que o filme se tornou mais um incrivel elo entre ficção e realidade (com todos os problemas que convivemos diariamente).
    Se for para apontar erros de roteiros em filmes de ficção, vamos ficar anos relatando coisas do tipo!!
    Como exemplo, de um filme que eu adorei, O EXTERMINADOR DO FUTURO 2, o T-1000, nem com a tecnologia mais absurdamente avançada aquilo seria possível!! Mesmo nanomaquinas não suportariam tamanho congelamento por nitrogenio líquido e depois ser descongelado normalmente e voltar a funcionar!!
    Essa é só uma apontação!! Mas, eu adoro a estória e os filmes (o terceiro e o quarto não me impressionaram…)
    O fato é que nada é perfeito!! E, cá entre nós, é bem melhor assistir DISTRITO 9 do que LUA NOVA!!!
    Valeu, e eu adoraria continuar a debater tais assuntos mesmo sobre outros filmes! :)

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