Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

O Evangelho de Caim

Publicado por Lúcio Manfredi em 03/11/2009

caim_06Caim, o novo romance de José Saramago, como tudo o que sai das mãos de Saramago, é um livro diabolicamente bem escrito. Mas não se pode dizer que seja um livro profundo, especialmente se comparado à incursão prévia do autor na seara bíblica, o obrigatório O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que certamente teve um peso definitivo na concessão do Prêmio Nobel a Saramago. As contradições do texto bíblico que formam a matéria-prima do novo romance são as mesmas que me causavam perplexidade aos nove anos e que me levaram a “ser desistido” das aulas de catecismo, e o nível de questionamento não é maior do que as perguntas que eu gostava de fazer, lá pelos 12 ou 13 anos, para chocar os crentes que vinham bater à porta de casa nas manhãs de domingo. E não, eu não estou querendo dizer que fui precoce, muito menos me comparar a Saramago que, afinal, é Saramago. O que estou querendo dizer, pelo contrário, é que o último Saramago ficou aquém de Saramago. É como se ele tivesse tomado sua prodigiosa habilidade na manipulação da língua portuguesa – com a qual talvez apenas António Vieira seja capaz de rivalizar – e emprestado a um Dawkins qualquer para, em vez de Deus, Um Delírio, escrever um delírio de Deus.

Há duas maneiras de ler Caim – como uma obra de entretenimento ou como uma obra que tem algo a dizer, e a folha corrida de Saramago automaticamente faz com que tendamos a inscrevê-lo no segundo grupo. Acontece que, neste caso em particular, as críticas que ele faz à religião só são eficientes contra o fundamentalismo religioso, essa atitude de um povo numeroso mas equivocado, que insiste em tomar as Escrituras ao pé-da-letra. Mas fundamentalistas religiosos, já escolados pelo citado Evangelho Segundo Jesus Cristo, dificilmente se aproximariam de um livro de Saramago, proibidos que seriam ou por seu pastor (no sentido amplo do termo, padres inclusos), ou por sua consciência. Quanto às pessoas que lêem Saramago, uma parte delas compartilha do ateísmo do autor, que então estará pregando aos convertidos, ao passo que a outra parte já terá de há muito transcendido a visão fundamentalista das religiões em direção a formas mais sofisticadas de espiritualidade, às quais as críticas de Saramago (como as de Dawkins) simplesmente não se aplicam.

(Para fins de contraste, compare-se Caim com Resposta a Jó, de C. G. Jung, outro livro que também examina as contradições, a prepotência e a desumanidade do Jeová bíblico, desta vez por um viés explicitamente psicológico, e veja-se as conclusões bem diferentes a que Jung chega.)

De fato, a posição que Saramago adota perante o Deus dos fundamentalistas – tanto em Caim quanto no Evangelho Segundo Jesus Cristo – é muito semelhante à dos antigos gnósticos, especialmente os cainitas que, como o nome sugere, também consideravam Caim (bem como Judas) como um dos grandes injustiçados da Bíblia, e só tinham palavras ácidas para descrever as atitudes de Jeová. Com a diferença de que os gnósticos, longe de serem ateus, defendiam uma concepção absolutamente não-antropomórfica de Deus, análoga em muitos pontos à do budismo ou do taoísmo.

Resta encarar Caim como uma obra de entretenimento. E, embora deste ponto-de-vista o livro se saia um pouco melhor, o saldo final continua sendo, infelizmente, negativo. A primeira metade do romance até vai muito bem, obrigado. Caim é apresentado como um personagem forte, interessante, promessa de uma boa história que há de vir e que, durante sua peregrinação pela terra de Nod, até parece que de fato virá. O ponto alto desta sequência é o encontro entre Caim e Lilith, que aqui não é a primeira esposa de Adão, mas a soberana da terra de Nod e que, à escolha do freguês, tanto pode ser vista como uma mulher livre e independente quanto como uma devoradora de homens casada com um corno manso. Essa ambiguidade ocorre porque a liberdade sexual de Lilith é apresentada como simples decorrência da falta de filhos. Assim que ela engravida, a mulher sossega o facho e assume seu papel como mãe e esposa. Ok, a conclusão pode enfurecer as feministas mas não tira a força da passagem.

A promessa de uma história suculenta continua no início da sessão seguinte, quando, novamente peregrino, Caim torna-se um viajante do tempo. Forças misteriosas o impelem a passar de uma época para outra, sem solução de continuidade, muito à maneira de Tony e Doug em O Túnel do Tempo, e a descrição que Saramago faz desse fenômeno é um verdadeiro primor, pelo menos a ouvidos acostumados às cadências da ficção científica:

Então estamos no futuro, perguntamos nós, é que temos visto por aí uns filmes que tratam do assunto, e uns livros também. Sim, essa é a fórmula comum para explicar algo como o que aqui parece ter sucedido, o futuro, dizemos nós, e respiramos tranquilos, já lhe pusemos o rótulo, a etiqueta, mas, em nossa opinião, entender-nos-íamos melhor se lhe chamássemos  outro presente, porque a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir, é simples, qualquer pessoa perceberá.

E parou por aí. O que se segue é uma monótona sequência de vinhetas em que Caim visita cada episódio vétero-testamentário importante – o sacrifício de Abraão, a Torre de Babel, a outorga dos Dez Mandamentos sobre o Monte Sinai, e assim por diante -, entra no episódio como Pilatos no Credo, não faz nada e limita-se a resmugar entre dentes que mau sujeito é esse deus, para no final concluir que o senhor é, afinal, um grandecíssimo filho de uma puta. O problema é que isso já estava estabelecido desde as páginas iniciais do romance. De modo que não há transformação, evolução narrativa ou crescimento de personagem, Caim termina o livro exatamente no ponto em que começou e a força de caráter plantada no começo não lhe serve, afinal de contas, para porra nenhuma.

(Para fins de contraste, compare-se Caim com Demian, do igualmente nobelizado Hermann Hesse, outro romance que também vai buscar sua inspiração no mito de Caim, desta vez por um viés explicitamente gnóstico, e veja-se a diferença entre o Emil Sinclair das primeiras páginas e o Emil Sinclair do último capítulo.)

Mas isso não é verdade, protestará você, que chegou à última página convencido de que Caim é um livro do caralho – opinião à qual, diga-se de passagem, você tem pleno direito, assim como eu tenho o direito de ter uma opinião diferente e argumentar em favor dela: Caim, enfim, toma uma atitude contra deus, e uma atitude das mais drásticas. O que nos traz ao derradeiro capítulo que, antes de ser abordado, porém, requer o aviso regulamentar de spoilers ahead. Quem ainda não leu, pretende ler e com toda justiça não quer ser bombardeado com revelações sobre o final tem o espaço de um blake para parar de ler esta resenha:

William_Blake_Cain_and_Abel

The Body of Abel Found by Adam and Eve, de William Blake, ca. 1826, Tate Gallery, London

Presumo que, se você continua por aqui, ou já leu ou não se importa com spoilers. Prossigamos, pois.

Caim, que começou suas andanças convencido de que o senhor é mau e louco e, depois de uma reviravolta de 360 graus, terminou suas andanças convencido de que o senhor é louco e mau, chega por fim aos tempos do Dilúvio, onde finalmente confronta sua nêmesis. O que faz deus ao se ver cara a cara com seu arqui-inimigo? Ora, pois, ordena a Noé que hospede Caim na arca, a fim de que – e posto que, além de rebelde e andarilho, Caim é também um atleta sexual – possa emprenhar as noras do patriarca e ajudar a repovoar o mundo pós-diluviano. Se o senhor é uma besta e um poço de sacrossanta ingenuidade, Caim não o é, e imediatamente vê ali uma oportunidade de se vingar de deus por todos os divinos crimes que testemunhou: ordenar a um pai que sacrifique o próprio filho, massacrar inocentes em Sodoma e Gomorra, massacrar inocentes entre o povo hebreu, massacrar inocentes entre os inimigos do povo hebreu e submeter Jó a todo tipo de sofrimento a troco de nada, só para provar que é o tal. É preciso que isto fique bem claro – a principal acusação de Caim contra deus é que deus é um assassino e, mais do que isso, um genocida.

E qual seria, na opinião de Caim, a melhor maneira de se opor a um deus genocida? Exterminando a humanidade, claro. O que ele faz assassinando um por um os filhos e noras de Noé, para que não sobre ninguém capaz de repovoar a terra.

Hein? Acuma? Did I miss something? A grande mensagem do livro é que a cura para os crimes cometidos em nome da religião está no extermínio da humanidade? É nesse abismo nihilista que desemboca o humanismo de Saramago? Que, para nos livrarmos de deus, é preciso nos livrarmos do homem?

U-la-lá.

Para evitar mal-entendidos, a crença ou descrença de Saramago não me faz a menor mossa. Os ateus certamente aplaudirão o livro com a mesma veemência com que os crentes de variadas colorações hão de execrá-lo. Em não sendo nem crente, nem ateu, o buraco para mim é mais embaixo. Seguindo o exemplo de Caim, termino esta resenha no diapasão com que a comecei: partindo da mesma postura ateísta, o mesmo Saramago já fez mais e melhor anteriormente, com o bônus de não desembocar no nihilismo. Se Caim se mostra tão insatisfatório, quer como obra literária, quer como exercício de desconstrução do texto bíblico, é porque falha em atingir os parâmetros que o próprio Saramago tão magistralmente estabeleceu para si próprio.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo é uma obra-prima. Caim é uma obra menor.

6 Respostas para “O Evangelho de Caim”

  1. rafaelluppi disse

    Ainda não li, mas não resisti ao spoiler… Essa final não combina mesmo com o Saramago. Cadê a esperança? Já faz algum tempo que ele está apenas com obras menores, mas um Saramago menor ainda vale ler.

  2. Lúcio Manfredi disse

    Valer, sempre vale, porque afinal o homem escreve que é uma beleza. Mas, mesmo nesse departamento, Caim é um livro menor porque, quando chega na metade e a história perde o fôlego, o Saramago se limita a copiar palavra por palavra o texto da Bíblia, só intercalando um que outro comentariozinho irônico. A costura é hábil, claro, e quem não conhece a Bíblia nem percebe, mas pra quem conhece, depois de um tempo, o recurso fica meio chatinho…

  3. rafaelluppi disse

    Vou conferir de qualquer forma. E vai dar pra comparar com o Gênesis do Crumb…

  4. Lúcio Manfredi disse

    Hahah! Bendita sincronicidade! Eu tava justamente acabando de ler a tua resenha do Gênesis do Crumb quando chegou o teu comentário… :)

  5. rafaelluppi disse

    Não existem coincidências! ;-)

    Aliás, uma boa idéia pra um post é justamente comparar as duas obras!

  6. Paulo Aires Marinho disse

    Caro Lúcio,

    Giovana indicou-me sua crítica sobre Caim/Saramago. Gostei mais de suas considerações sobre Lévi-Strauss.Parabéns!

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