Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Posts de novembro \30\UTC 2009

Summa Vampirológica

Publicado por Lúcio Manfredi em 30/11/2009

“Um pequeno detalhe”, diz Benjamin Franklin numa frase que o dr. Seward cita em algum ponto de Anno Dracula, romance de 1992 de Kim Newman recém-publicado no Brasil pela Aleph, “pode mudar o curso da história.” É desses pequenos – e às vezes não tão pequenos – detalhes que vivem tanto a história alternativa quanto a ficção alternativa, dois subgêneros da ficção especulativa que têm muita coisa em comum.

A diferença é que, enquanto a primeira se ocupa de eventos que poderiam mudar o curso da história, a segunda se concentra em pontos de divergência que alteram o enredo de uma obra de ficção. O que aconteceria se o Eixo tivesse ganhado a II Guerra Mundial? Se o Sul derrotasse o Norte durante a Guerra da Secessão? Se o Brasil tivesse perdido a Guerra do Paraguai? Responder a essas perguntas é fazer história alternativa. E se os Elder Ones de Lovecraft dominassem a Londres de Sherlock Holmes? Ou se o Phileas Fogg de Júlio Verne fosse um agente secreto alienígena? Nesse caso, trata-se de ficção alternativa.

Anno Dracula pertence a ambos os subgênereos ao mesmo tempo. Nele, Kim Newman muda o desfecho do romance de Bram Stoker e, com isso, também modifica irremediavelmente a história da Inglaterra e do mundo.

Leia o resto deste post »

Enviado em Ficção Científica, Ficção Especulativa, Literatura, Resenhas, Terror | 6 Comentários »

Ação e Erudição

Publicado por Lúcio Manfredi em 28/11/2009

Rubem Fonseca é uma espécie de Rolling Stones da literatura brasileira. Como os brontossauros do rock, ele alcançou um nível alto de qualidade, onde vem se mantendo há décadas numa órbita geossincrônica. De lá, dispara um romance ou coletânea com a mesma periodicidade com que os Stones gravam um álbum. O livro aterrisa nas livrarias, vende bem, recebe várias resenhas positivas e algumas negativas, cumpre sua missão de manter o posto do autor entre os bambambans da literatura, e é isso. Não traz nada de novo, mas também não desestabiliza a órbita. A despeito do sangue e violência – que marcaram época quando da estréia de Rubem Fonseca em 1963, com Os Prisioneiros, e que em tempos pós-tarantinescos já não chocam ninguém – é uma literatura papai-e-mamãe: lê-se com prazer, mas sem frisson.

Não que haja alguma coisa errada com isso, muito pelo contrário. Aos 84 anos, depois de ter praticamente inventado a literatura policial brasileira e ao mesmo tempo elevado-a à respeitabilidade da crítica, depois de ter influenciado duas gerações de novos escritores, depois de ter sido publicado internacionalmente e adaptado para o cinema e a televisão, Rubem Fonseca já não tem mais nada que provar a ninguém. Poderia simplesmente se aposentar e viver da fama. Prefere continuar escrevendo, continua escrevendo bem – e isso é louvável.

O mais novo artefato a descer da órbita geossincrônica do autor é O Seminarista, primeiro romance em sua nova editora, a Agir, e alardeado como o primeiro romance brasileiro publicado simultaneamente em formato Kindle. Não é exatamente verdade porque o arquivo é em formato .mobi, que não é exclusivo do Kindle (o formato nativo do Kindle é o .azw). Mas roda bem no ebook reader da Amazon e tira um bom proveito de suas funcionalidades – ao contrário do pdf, que o Kindle agora lê mas lê mal.

O protagonista – de cuja verdadeira identidade sabemos apenas que se chama Zé, mas que durante a maior parte do livro adota o pseudônimo de José Joaquim Kibir – é um ex-seminarista que desistiu de vestir a batina, tornou-se ateu e virou matador profissional. Aos quarenta anos, cansado de assassinar desconhecidos com um tiro na cabeça, decide se aposentar. Larga o emprego, se apaixona mas, antes de se assentar como o dito cidadão respeitável, precisa lidar com uma ponta solta que ficou de uma de suas tarefas. E é aí que a proverbial porca vai torcer o seu proverbial rabo.

O Seminarista tem tudo o que se poderia esperar de um livro de Rubem Fonseca, assim como um álbum dos Stones tem tudo o que se poderia esperar de um álbum dos Stones. O texto elegante, fluente e ágil (li o livro todo em pouco mais de uma hora), carrega o leitor do primeiro ao último capítulo e, como de hábito, mistura ação quase ininterrupta e citações eruditas com a mesma desenvoltura com que Tarantino combina violência e referências pop. E como Rubem Fonseca não carrega o peso de um Nobel nas costas, não precisa arruinar a narrativa com Grandes Questões. O livro é o que se propõe a ser – uma boa história bem contada por um mestre em contar bem boas histórias.

Enviado em Literatura, Resenhas | 4 Comentários »

Dabar

Publicado por Lúcio Manfredi em 17/11/2009

pesteE eis que aporta às livrarias Os Dias da Peste, primeiro – mas, espera-se, não o último – romance do escritor, crítico e teórico da cybercultura Fábio Fernandes. Um dos melhores contistas da ficção científica brasileira, introdutor do movimento cyberpunk no Brasil e veterano das antigas guerras de trincheiras travadas pelo fandom tupiniquim, Fábio Fernandes devia(-se) um romance que lhe desse espaço suficiente para expandir sua verve e inventividade de um modo que a forma concentrada do conto nem sempre permite. Publicado pela Tarja Editorial, que vem se firmando como um dos principais nichos da literatura de gênero no Brasil, Os Dias da Peste é esse romance.

Dividida em três partes, a história começa nos dias de hoje (mais exatamente, no dia 06 de abril de 2010) e segue até 2016, acompanhando – pelos olhos do técnico de computadores Artur Mattos – o que começa como uma série de panes nos equipamentos do mundo todo, apelidada pela imprensa de infodemia (e, dado o ouvido de Fernandes para trocadilhos, o cacófato é certamente intencional), e acaba desembocando na maior transformação de toda a história da humanidade.

Leia o resto deste post »

Enviado em Ficção Científica, Ficção Especulativa, Literatura, Resenhas | 12 Comentários »

A Musa Pós-Humana

Publicado por Lúcio Manfredi em 12/11/2009

IliumCanta, ó Musa, as alegrias de se ler uma história que não apenas satisfaz nossas expectativas como as ultrapassa. Ainda mais depois das decepções que foram – para mim, pelo menos, ó Musa – Caim e Distrito 9.

E no caso de Ilium, de Dan Simmons – após ter lido os estupendos quatro volumes dos Hyperion Cantos e tendo um interesse apaixonado pelo entrelaçamento quântico entre mitologia e ficção científica – as expectativas eram realmente elevadas. Mas Simmons não apenas dá conta do recado e delivers the goods, como dizem os americanos. Ele vai mais além. Quantos autores você conhece, ó Musa, capazes de intercalar uma sequência fast paced de perseguição sob os oceanos de Europa com uma descrição acadêmica sobre o significado dos Sonetos de Shakespeare – e manter o leitor interessado nas duas coisas? Simmons consegue. E isso não é nada comparado ao que vem depois.

Ilium é, para usar o jargão acadêmico, uma obra-prima de intertextualidade, que dialoga com a Ilíada de Homero, A Tempestade (além dos sonetos) de Shakespeare, Em Busca do Tempo Perdido de Proust e mais uma caralhada de citações e referências, mais ou menos como ele já havia feito com os poemas de Keats em sua saga anterior.

Não vá pensando, porém, ó Musa, que se trata de um livro pedante, arrastado e eivado de literatices. Muito pelo contrário, a história tem um ritmo frenético, em que as coisas começam a acontecer praticamente desde o primeiro capítulo e as reviravoltas não param até a última página. E tudo embasado na mais sólida, ainda que vertiginosa, especulação científica.

Se houve um tempo em que adeptos da fc hard e devotos da fc soft guerreavam como gregos e troianos, Simmons não faz por menos: marca um tento para ambos os times e, em vez de ir para casa comemorar, volta a campo e escreve a continuação imediata – Olympos, que, mais do que uma simples sequência, é a segunda metade de um mesmo épico que tem, somadas, mais de mil e quinhentas páginas. E acredite, ó Musa, a história é tão complexa que pede cada uma dessas páginas.

Leia o resto deste post »

Enviado em Ficção Científica, Ficção Especulativa, Literatura, Resenhas | 8 Comentários »

Noves Fora, Distrito 9

Publicado por Lúcio Manfredi em 10/11/2009

district9_posterCheguei à conclusão de que, quanto mais eu fico velho, mais eu fico ranzinza. Devo ser a única pessoa da face da Terra que não gostou de Distrito 9, a estréia nos longas do diretor sul-africano Neill Blomkamp, produzida por ninguém menos que Peter Jackson e que já vinha causando frisson meses antes de estrear, por conta de sua premissa original: usar um grupo de extraterrestres confinados contra à vontade em uma favela de Johannesburg como metáfora para tratar do preconceito racial.

E eu fui ao cinema predisposto a gostar. Juro por Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Pessoas que eu conheço e cuja opinião eu respeito tinham gostado. Pessoas que eu não conheço, mas cuja opinião eu respeito, tinham gostado. Pessoas que eu não conheço e para cuja opinião não dou a mínima também tinham gostado. Um filme capaz de conquistar essa rara unanimidade não pode ser ruim, certo?

Errado. Pelo menos na minha opinião. Não vou dizer que o filme é ruim porque, Nelson Rodrigues à parte, eu estou e sei que estou em minoria. Seria mais humilde – bem como um reconhecimento tácito do relativismo de todo juízo estético – dizer que comigo, o filme não funcionou.

alien_nationO principal problema é que, de original, mesmo, só a premissa. Se bem que nem isso, porque Alien Nation já tinha empregado a mesma metáfora nos pré-históricos anos 80, e isso numa série de TV, e equacionar alienígenas com minorias é um dos clichês favoritos na crítica acadêmica de ficção científica. Mas, enfim, ainda é uma metáfora apta e que, bem trabalhada, pode render obras interessantes.

De resto, não existe um diálogo no filme que não seja clichê de filme da Sessão da Tarde, com direito a frases melosas como “não desista de mim, porque eu não desisti de você”, um vilão que faz cara de mau e destila pérolas de vilão de desenho animado e uma última cena entre o humano e o alienígena que chega a ser constrangedora de tão ruim. Além disso, o roteiro é cheio de furos, com uma história que deixa de fazer sentido nos primeiros quinze minutos e daí para a frente vai ladeira abaixo em direção ao absurdo total, sempre embalada por lugares-comuns de um lado e pela pieguice do outro.

Até os alienígenas, embora sejam totalmente inumanos e se pareçam com camarões gigantes (que é, de fato, o termo pejorativo que as pessoas usam para se referir a eles), têm uma psicologia de personagem de soap opera, e sua linguagem feita de estalidos, quando traduzida, parece ser inteiramente composta por banalidades e platitudes.

district_9_prawn_commanderO que se salva, a meu ver, é o aspecto visual do filme. A aparência dos alienígenas é tão bem-construída quanto sua psicologia é mal-trabalhada, e a imagem da nave-mãe abandonada pairando nos céus de Johannesburg tem um impacto poderoso. É pouco, eu acho, para justificar tamanho auê em torno do filme.

Mas eu devo estar enganado. Afinal, Brutus é um homem honrado.

Enviado em Cinema, Ficção Científica, Resenhas | 10 Comentários »

O Livro por Vir

Publicado por Lúcio Manfredi em 08/11/2009

KindleQuem diz que os ebooks nunca vão substituir os livros confunde o suporte com o conteúdo. Esse equívoco é ajudado pela linguagem comum, que não tem uma palavra para diferenciá-los. Eu digo que estou escrevendo um livro (conteúdo), da mesma forma que digo que vou comprar um livro (suporte) na livraria. O fato é que os ebooks nunca vão e nem podem substituir os livros pelo simples motivo de que ebooks são livros. Apenas usam um suporte diferente do quase milenar pacote de folhas de papel encadernadas. E aí, sim, no que se refere ao suporte, os ebooks não só vão como já estão começando a substituir os livros de papel. E acredite, com enormes vantagens.

Considere, por exemplo, o Kindle. Ele é perfeito? Não. Pode-se pensar em uma série de melhorias, algumas das quais, diga-se de passagem, já foram introduzidas no Nook da Barnes & Noble, que deve se tornar o principal concorrente do Kindle. Mas mesmo o Nook ainda está longe de tudo o que é possível pensar e fazer em termos de ebooks. Especula-se por aí que o tablet da Apple talvez seja o Dom Sebastião dos ebooks, mas como especula-se muito e sabe-se muito pouco, fiquemos por enquanto com o Kindle.

Ao contrário dos monitores de computador ou celular que até então vinham sendo usados para ler ebooks, o papel eletrônico do Kindle cansa menos a vista do que o papel vegetal.

O Kindle pesa menos e ocupa muito menos espaço do que a grande maioria dos livros. Apesar disso, dentro dele cabem nada menos do que 1500 volumes. Isso quer dizer que toda a minha biblioteca (aproximadamente 10.000 livros, que ocupam dois quartos inteiros, o quarto da empregada e metade da sala de um apartamento razoavelmente grande) equivale a pouco mais do que meia-dúzia de Kindles. Uma vez que cada Kindle tem mais ou menos 0,8 cm de espessura, eu poderia trocar minhas quase vinte estantes por míseros 5 cm no canto da minha mesa de trabalho e estaríamos conversados.

(Não que você tenha que comprar um novo Kindle a cada vez que entupir a memória, mind you. O exemplo é só para fins de comparação. Os livros podem ser armazenados no hd do computador ou mesmo, se você tiver confiança suficiente nas grandes corporações, na sua biblioteca digital no site da própria Amazon.)

Além disso, ele é mais fácil de manusear do que um livro de papel. E se você, como eu, é do tipo que gosta de sublinhar e anotar, não precisa mais espremer as anotações nas margens da página. Sem falar que não estraga o livro com riscos e rabiscos.

As grandes desvantagens são a ausência de cor e a relativa dificuldade de exportar trechos do livro para, por exemplo, citar numa resenha ou artigo. Acaba sendo mais fácil copiar o texto manualmente… que é exatamente o que você faz quando vai citar um livro de papel. Ou seja, em seu pior, o Kindle iguala o livro de papel. E em seu melhor, supera – e muito.

Nookpanel_0(Ah, sim, a cor. Pois é, as capas pb são mais uma questão de economia de memória e largura de banda do que uma impossibilidade técnica. Tanto que o Nook já não tem esse handcap, e pode apostar que os próximos modelos do Kindle também não vão ter.)

Foi assim, apresentando vantagens em relação ao suporte anterior, que o livro de papel se impôs sobre os pergaminhos, que por sua vez substituíram os papiros, que por sua vez já eram uma melhoria em relação às tabuletas de argila. Mas todos esses meios não passam de avatares progressivos, encarnações do mesmo objeto metafísico – a idéia platônica do livro, o livro por vir.

Enviado em Pensatas | 13 Comentários »

O Pensamento Selvagem

Publicado por Lúcio Manfredi em 05/11/2009

claude_levi-straussPois é, morreu o cara que nos ensinou a ver os mitos não como uma coleção de historinhas absurdas, mas como um sistema. Sempre me lembro de Lévi-Strauss quando vejo Dawkins e seus discípulos enchendo a boca para enunciar, como se fosse uma novidade absoluta, as mesmas críticas que o racionalismo do século XIX fazia aos mitos, e que o antropólogo francês provou por a + b que são completamente equivocadas.

Não que Lévi-Strauss não fosse um racionalista ou que acreditasse literal e ingenuamente nos mitos, muito pelo contrário. Foi justamente com a postura metodológica de um cientista que, em obras como O Totemismo Hoje, O Pensamento Selvagem ou os enciclopédicos quatro volumes das Mitológicas (O Cru e o Cozido, Do Mel às Cinzas, A Origem dos Modos à Mesa e O Homem Nu), Lévi-Strauss se debruçou sobre a mitologia de vários povos, especialmente os povos ameríndios, para revelar a lógica que se oculta por detrás de sua aparente irracionalidade. Uma lógica que, embora diferente da lógica clássica, aristotélica, é, à sua maneira, tão rigorosa quanto um silogismo.

Mitos, dizia Lévi-Strauss, são fatos mentais. Constituem a tradução e o reflexo, em forma de uma narrativa simbólica, das estruturas inconscientes que regem o funcionamento da mente humana, que projeta essas estruturas sobre a realidade exterior a fim de introduzir ordem e significado no caos da nossa experiência bruta do mundo.

Nenhum dos elementos que compõem o mito é arbitrário ou está lá por acaso. Deuses, heróis, animais e plantas são agrupados em função de relações de simetria, afinidade e oposição, e as ações do mito são uma transposição dessas relações em termos de narrativa, mais ou menos à maneira dos sonhos, que também geram histórias a partir das estruturas inconscientes da psique.

Leia o resto deste post »

Enviado em Pessoas | 3 Comentários »

O Evangelho de Caim

Publicado por Lúcio Manfredi em 03/11/2009

caim_06Caim, o novo romance de José Saramago, como tudo o que sai das mãos de Saramago, é um livro diabolicamente bem escrito. Mas não se pode dizer que seja um livro profundo, especialmente se comparado à incursão prévia do autor na seara bíblica, o obrigatório O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que certamente teve um peso definitivo na concessão do Prêmio Nobel a Saramago. As contradições do texto bíblico que formam a matéria-prima do novo romance são as mesmas que me causavam perplexidade aos nove anos e que me levaram a “ser desistido” das aulas de catecismo, e o nível de questionamento não é maior do que as perguntas que eu gostava de fazer, lá pelos 12 ou 13 anos, para chocar os crentes que vinham bater à porta de casa nas manhãs de domingo. E não, eu não estou querendo dizer que fui precoce, muito menos me comparar a Saramago que, afinal, é Saramago. O que estou querendo dizer, pelo contrário, é que o último Saramago ficou aquém de Saramago. É como se ele tivesse tomado sua prodigiosa habilidade na manipulação da língua portuguesa – com a qual talvez apenas António Vieira seja capaz de rivalizar – e emprestado a um Dawkins qualquer para, em vez de Deus, Um Delírio, escrever um delírio de Deus.

Leia o resto deste post »

Enviado em Literatura, Resenhas | 6 Comentários »

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.