Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

O Vício Inerente

Publicado por Lúcio Manfredi em 27/10/2009

Antes de mais nada, pode esquecer o conversê detonado por Lev Grossman, de que Thomas Pynchon finalmente resolveu desistir de seus experimentalismos barrocos e escrever um romance linear, acessível, com uma história que tem início, meio e fim. Inherent ViceQuem conhece a obra de Pynchon sabe que ela sempre se dividiu, grosso modo, em dois tipos de livros: de um lado, vastos painéis históricos, com zilhões de personagens e anti-enredos tão convolutos quanto uma jibóia com ataque epiléptico; e do outro, romances mais curtos, com menos personagens e enredo mais linear, geralmente focados na Contracultura dos anos 60 e adjacências. Inherent Vice, o Pynchon mais recente, pertence a este segundo grupo. É, de fato, mais acessível do que O Arco-Íris da Gravidade, Mason & Dixon ou Against the Day, mas não é nem mais, nem menos linear do que O Leilão do Lote 49 ou Vineland (o primeiro romance de Pynchon, V, é uma espécie de proto-síntese, o ponto de origem comum do qual partem os dois vértices da pynchonália).

(Abrindo um parêntese: afinal, quando é que sai a versão brasileira de Against the Day? E já que a Companhia das Letras está reeditando parte do seu catálogo em versão de bolso, por que não incluir na lista O Leilão do Lote 49 e Vineland?)

Inherent Vice, no jargão das seguradoras, denota o defeito estrutural de um objeto, que contribui para sua deterioração. Na linguagem teológica, refere-se à natureza humana, intrinsecamente corrompida pelo pecado original. O título do livro joga com os dois sentidos e ainda aproxima-o do conceito aristotélico de falha trágica, o traço de caráter que inevitavelmente conduzirá o herói à destruição final. Não que o romance seja propriamente uma tragédia – pelo contrário, o humor sarcástico, surreal e bizarro de Pynchon está afiado como nunca – mas também não seria certo dizer que não é uma tragédia, dada a nota ominosa que ressoa praticamente desde o primeiro capítulo e se torna dominante nas páginas finais.

Sportello_tatiana-suarez

Sportello, por Tatiana Suarez (The Village Voice)

O livro é sobre o vício ou defeito inerente à Contracultura, que acabou por converter seus ideais utópicos em paranóia e levou-a à derrota final, subvertida pelo sistema que ela aspirava subverter. Filho assumido da Contracultura, interessado em descobrir o que foi que deu errado, Pynchon situa a história no final da década de 60, examinando-a através dos olhos de Larry “Doc” Sportello, um detetive hippie maconheiro que circula entre policiais, drogados, policiais drogados, grupos de surf rock, zumbis, grupos zumbis de surf rock, gangues de motoqueiros, gurus do ácido e toda a fauna e a flora da América pós-Summer of Love, escrevendo o que, tongue-in-cheek, o jornalista Alan Cabal saudou como o primeiro romance noir psicodélico. Para não falar em The Golden Fang, o sinistro navio cujas encarnações anteriores talvez datem dos tempos da Lemúria, a Atlântida do Pacífico, que pode ou não ter ressuscitado na Califórnia.

Aliás, a Lemúria, que é evocada uma meia-dúzia de vezes ao longo de Inherent Vice, não está lá por acaso. Fruto da imaginação dos teósofos do século XIX, que se apropriaram de uma hipótese do geólogo Philip Sclater para tecer elaboradas fantasias que não ficam nada a dever aos delírios de um hippie doidão, a Lemúria configura um espaço mítico que começa como sociedade ideal e termina em catástrofe – a metáfora perfeita para a derrocada cataclísmica do sonho contracultural.

Outro elemento que tem uma presença esporádica mas significativa é a Arpanet, a rede de computadores que foi o embrião da onipresente Internet e que um dos personagens, uma espécie de proto-hacker, acessa em busca de informações para Sportello. Pynchon, portanto, não está empenhado apenas numa trip nostálgica, mas de olho no presente (e no futuro). Porque quem viveu a explosão da Internet nos anos 80 e 90 ainda se lembra dos hackers não como criminosos, mas como herdeiros da Contracultura, num espírito de rebeldia capturado com perfeição pelo movimento cyberpunk que, não por acaso, quando surgiu, saudava Pynchon como um de seus mentores espirituais. A década seguinte viu o território livre da Internet ser rapidamente colonizado pelo mercado e, de alternativa ao sistema, se converter em seu principal esteio, repetindo (como farsa?) a mesma história que Inherent Vice radiografa com uma precisão impiedosa mas, ao mesmo tempo, com uma ternura comovente por todos os que caem.

10 Respostas para “O Vício Inerente”

  1. Giseli disse

    Fiquei curiosa a respeito desse livro, ainda mais por causa da menção à Arpanet =D E gostei do “jibóia com ataque epiléptico” hahahaha

  2. Lúcio Manfredi disse

    Oi, Gi!

    Inherent Vice é muito bom mesmo. E apesar de não ser fc, o Pynchon tem uma linguagem que costuma atrair os leitores da fc, porque usa e abusa de metáforas tiradas da ciência. Outro livro dele que eu acho que você ia gostar, se é que já não leu, é o Leilão do Lote 49. Pena que tá esgotado e a Companhia das Letras nunca reeditou, mas quem sabe eles não lêem o meu post (rárárá!) e republicam na coleção de bolso? :)

    Bjs.
    L.

  3. Essa da jibóia foi boa mesmo! ;-)

    Também queria saber o porquê da contracultura ter “dado errado”… Absorvida pelo sistema, talvez?

    Entrou pra lista de futuras leituras… Mas até hoje ainda não comecei o Against the Day…

  4. Lúcio Manfredi disse

    Bom, a tese do Pynchon é que ela estava mais ou menos condenada a ser absorvida pelo sistema por causa do tal defeito/vício inerente, que numa parte do livro ele descreve como a “unquestioning hippie belief, pretending to trust everybody while always expecting to be sold out”.

    Também não tive coragem de encarar o Against the Day ainda. O Inherent Vice, que é consideravelmente mais simples, já deu uma bela duma tareia no meu inglês… :)

  5. Ivo Heinz disse

    Eu achava que o Lúcio só escrevia nos Equinócios, hehehehehe.

    Mas dá quase a mesma sazonalidade.

    Põe mais material e discussão aí, ô meu…..

    Abraços

  6. Lúcio Manfredi disse

    Hehehe, é quase isso, Ivo. Mas vou tentar ser menos irregular. :)
    Abs.
    L.

  7. Dannilo disse

    “romance noir psicodélico”, gostei.
    Queria conhecer mais autores desse naipe.

    Que bom que você voltou a postar, Lúcio. Era leitor assíduo do franco-atirador.

    Abraço!

  8. Lúcio Manfredi disse

    Salve, Dannilo!

    Eu vou atualizando o blog de maneira espasmódica, mas vou atualizando. E a temática, por opção, também é mais restrita que a do Franco-Atirador, mas espero que você também curta.

    Sobre noir psicodélico, tem pelo menos um outro romance que merecia tranquilamente essa classificação: Gun, With Occasional Music, do Jonathan Lethem, um autor que nem sempre escreve ficção científica mas, quando escreve, frequentemente parece um cruzamento do Pynchon com o Philip K. Dick.

    Abs.
    L.

  9. Fred Silveira disse

    Excelente. Como pynchonmaniaco, devo dizer que tenho a terrivel impressao que e o primeiro texto em portugues sobre o dentuço no qual o autor sabe o que esta falando. O blog ja ta no favoritos. De brinde, uma resenha pro Arco-Iris que fiz tempos atras.
    http://ogarboso.wordpress.com/2008/09/24/o-arco-iris-da-gravidade-ou-a-paranoia-como-iluminacao/

  10. Lúcio Manfredi disse

    Opa, legal encontrar outro pynchonmaníaco por aqui, Fred! Btw, muito boa a tua resenha do Arco-Íris.
    Abs.
    L.

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