Em Busca do Blake Perdido
Publicado por Lúcio Manfredi em 01/05/2009
Talvez nenhum outro escritor “das antigas” (final do sec. XVIII, início do XIX) permaneça tão atual e mereça tanto uma releitura pela ótica da fc quanto William Blake. Como Lovecraft, Blake criou uma cosmogonia pessoal, com seus próprios deuses e mitos. Como Philip K. Dick, ele tinha visões, era considerado louco por seus contemporâneos e estava firmemente convencido de que o mundo que vemos não é o mundo real. Como William S. Burroughs, tentou criar uma nova forma de literatura que quebrasse os condicionamentos físicos, psicológicos e espirituais do leitor, abrindo as portas da percepção para outros níveis de realidade.
Blake viveu em relativa obscuridade mas, desde que foi redescoberto (em grande parte, pelas mãos de outro grande poeta visionário, W. B. Yeats), sua influência não parou mais de crescer, e ele arrebanhou uma legião respeitável de admiradores, que vai de Yeats a Huxley a Alfred Bester a Jim Morrison à psicóloga junguiana June Singer ao escritor Philip Pullman (cuja obra mais famosa, a trilogia His Dark Materials, deve boa parte de sua inspiração a Blake), para citar apenas uns poucos.
Com suas idéias ousadas, Blake antecipou muitos dos conceitos e temáticas que depois seriam retomados pela ficção científica, especialmente pelos autores da new wave, como as noções de espaço interior, múltiplas realidades e diferentes níveis de consciência. Nada mais justo, portanto, que o próprio Blake acabasse se tornando personagem de uma história de fc, e é o que supostamente acontece em Timequest, romance de Ray Faraday Nelson publicado originalmente em 1985.
Digo supostamente porque, apesar de um dos protagonistas do livro ser um poeta inglês chamado William Blake, Blake mesmo não está lá.
É uma pena. A princípio, Nelson parecia talhado para um projeto desses. Mais conhecido pelo conto “Eight O’Clock in the Morning“, que inspirou o sempre genial They Live! do quase sempre genial John Carpenter, Nelson conviveu de perto com outro artista alucinado, Philip K. Dick, com quem co-escreveu o romance The Ganymede Takeover. Dick e Blake, a despeito dos dois séculos que separam um do outro, apresentam paralelos notáveis tanto em termos de personalidade quanto de visão filosófica, e seria de esperar que a amizade de Nelson com o Blake de Orange County o ajudasse a compreender o Philip K. Dick do século XVIII. Mas se o retrato de Blake em Timescape deve algo a Dick, este dificilmente ficaria feliz com a “homenagem”.
Dizer que é um retrato pouco lisongeiro seria dourar a pílula. O Blake de Nelson é um homem inseguro e puritano, hipócrita e misógino, que escreveu O Casamento do Céu e do Inferno como um ato de vingança mesquinha contra a esposa e, não fosse isso o bastante, alia-se a ninguém menos que Urizen – o grande inimigo de Blake, personificação da face destrutiva do racionalismo que esmaga a imaginação, o pior pecado que o poeta conseguia conceber – com o objetivo de mudar a história do mundo para satisfazer uma desmesurada sede de poder.
Ok, alguns spoilers adiante.
[ESPAÇO PARA VOCÊ DECIDIR SE QUER CONTINUAR LENDO.]
[JÁ DECIDIU? ÓTIMO, ENTÃO VAMOS EM FRENTE.]
É claro que Blake se redime no meio do livro, em grande parte graças aos esforços de sua diligente, fiel e obstinada esposa, e o casal então junta forças para combater a tirania que Urizen pretende impor sobre o mundo. Mas a primeira impressão é a que fica e o Blake de Nelson jamais consegue se livrar totalmente da aura de pusilanimidade que o autor lançou sobre ele no início. A má impressão é tão forte que anula até a grande sacada que é apresentar a ficção científica literalmente como uma filha da imaginação de Blake com a consciência social de Mary Wollstonecraft. Depois de ver o papalvo e a bitch que atendem por esses nomes no romance, a única reação do leitor é dar de ombros: ah, é? bela roba…
E essa nem é a pior parte.
Ray Nelson até fez a lição de casa direitinho e Timequest é recheado com pequenos detalhes biográficos, citações implícitas e explícitas à obra de Blake, bem como nomes de personagens. Mas o complexo sistema metafísico que Blake concebeu em seus poemas dá lugar a uma história quase banal sobre viagem no tempo. Os Quatro Zoas – que para Blake são princípios arquetípicos personificados, forças cósmicas que moldam a realidade a partir da imaginação – transformam-se na Liga dos Zoas (no romance, há mais do que quatro), um grupo de simples seres humanos que, por motivos inexplicados, nasceram com o poder de viajar no tempo e flanam era após era, observando sem intervir, como um bando de turistas cronais. Exceto por dois deles, Urizen e Vala que, não contentes em apenas tirar fotos e não deixar o lixo espalhado no chão, resolvem mudar a história para, pois é, conquistar o mundo.
Você já viu isso antes – e depois. O único diferencial é que, desta vez, os Evil Lords enfrentam a oposição não da Patrulha do Tempo, do Dr. Who ou dos agentes intemporais, mas de um poeta pré-romântico e sua mulher, não necessariamente nessa ordem.
A ironia é que, exceto pelo confuso terço final, Timequest é um livro até bem escrito, com realidades alternativas interessantes e que, se não revolucionaria o subgênero das viagens no tempo com uma abordagem original, ao menos não faria feio diante de seus pares. Mas, para isso, não precisava incomodar o espírito de Blake, nem desperdiçar à toa a riqueza de temas e personagens que o poeta inglês oferece e que são para lá de subaproveitados.
O motivo desse subaproveitamento é simples. Nelson não gosta de Blake – como pessoa, como poeta, como pintor – e não perde uma oportunidade de deixar isso bem claro. A pergunta premiada, no entanto, é: por que se dar ao trabalho de escrever um romance inteiro sobre um personagem que você detesta?
Pensando bem, por que se dar ao trabalho de resenhar um livro do qual você não gostou?
Ah, agora é tarde. Inês é morta.
Giseli disse
Vai entender esse pessoal que escreve sobre coisas de que não gostam rs.
Blake é um de meus poetas preferidos (tá, não li a obra inteira dele), tem belos poemas e alguns deles são tão zen que são usados em coletâneas sobre budismo.
Confundi esse Timequest com o livro do Clarke, será que era Timealgumacoisa?
Anyway, gostei do post e de suas reflexões a respeito.
Lúcio Manfredi disse
Oi, Gi!
Também não li tudo do Blake ainda, até porque só no ano passado consegui comprar as obras completas. Mas sou fascinado tanto pelas idéias quanto pela vida dele desde que eu era adolescente, durante muito tempo foi o único poeta que eu conseguia ler em inglês. Não que fosse mais fácil que os outros, mas é que eu estava mais motivado.
Mas ainda tô me devendo ler os poemas épicos mais longos – o pouco que eu li parece quase uma space opera metafísica!
De qual livro do Clarke você tá falando? É da trilogia A Time Odissey (Time’s Eye, Sunstorm e Firstborn), que ele escreveu com o Stephen Baxter?
Fabio disse
Putz, EU fiquei com vontade de ler esse livro! Adoro Blake, e, embora já tivesse ouvido falar do Nelson, nunca li nada dele.
(Mas, em compensação, li a trilogia inteira do Clarke, que dei de grátis para alguém lá no cabidinho. Se você tivesse ido, Gi, era sua…
Andréia Martins disse
Ulalá! Que bom te encontrar de novo pela rede, Lúcio! Não aguento aquele anoitantan…
Lúcio Manfredi disse
Oi, Andréia!
De volta à rede mais ou menos. O Epistemonike Phantasia tem um foco beeem mais restrito que o falecido – trata basicamente de arte, literatura e ficção científica – e, como você pode ver, é atualizado com menos frequência ainda do que o Franco-Atirador.
E dá uma chance pro Anoitan. O pessoal é bacana e eu só parei de colaborar por falta de tempo.
Abs.
L.
VANDA AMORIM disse
Parabéns pelo trabalho. Aproveito para apresentar minha obra, CROCODILO SONHADOR, romance editado em 2009 pela EDITORA GLOBO. Espero contar com o apoio deste reconhecido blog. Abraço, Vanda Amorim (vandaamorim@uol.com.br)