Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

This Isn’t William Gibson

Publicado por Lúcio Manfredi em 20/04/2009

 

 

WWW:Wake

WWW:Wake

De acordo com a Locus deste mês, Robert J. Sawyer acabou de entregar à editora os originais de Watch, o segundo volume de sua trilogia sobre uma WWW autoconsciente. O que é uma ótima notícia, porque WWW:Wake é muito claramente a primeira parte de uma história mais longa: as três tramas não se cruzam em momento algum e, com exceção da trama principal, nenhuma delas tem um fecho. E mesmo o fecho da trama central é menos um desfecho do que um gancho, um ponto de virada, que engata a história numa nova direção. É de se supor que, nos volumes seguintes, a trajetória de Caitlin, a protagonista, vá se entrelaçar aos destinos de Hobo, o macaco pintor e de Sinanthropus, o dissidente chinês, que dividem com ela o palco de WWW:Wake. E você vai querer isso. Porque Sawyer – inédito no Brasil (grande novidade) e mais conhecido por aqui pela trilogia The Neanderthal Parallax (Hominids, Humans e Hybrids) e pelo relativamente recente FlashForward - é um exímio contador de histórias e um criador de personagens carismáticos com os quais é muito fácil o leitor se identificar.

 

O plot da série, já expresso no título do primeiro livro, é simples e não cometo nenhum spoiler em dizer qual é. Devido a sua crescente complexidade, a WWW desenvolve a autoconsciência como uma propriedade emergente e estabelece contato com uma adolescente cega, que se torna o elemento de ligação entre a nova entidade e o mundo exterior. Mas esse plot serve de ponto focal para um objetivo bem mais ambicioso, como Robert Charles Wilson, outro nome quente da fc contemporânea, explica na quarta capa da hardcover de WWW:Wake: “Here, the subject is consciousness and perception – who we are and how we see one another, both literally and figuratively.”

O livro é uma meditação sobre a natureza da consciência individual, sobre as diferentes formas que cada um de nós tem de perceber a si mesmo e ao mundo. E, assim, a IA que brota a partir das conexões da web é só a ilustração central do tema. Não é por acaso que a protagonista seja uma garota cega de nascença ou que o elenco do romance inclua portadores da Síndrome de Asperger, paquistaneses, americanos e canadenses, japoneses, homens e mulheres, adultos e adolescentes. A galeria de personagens está lá para sinalizar como, situada entre os extremos da consciência pré-humana, simbolizada por Hobo, e da consciência pós-humana, encarnada pela própria WWW, a percepção humana reflete uma diversidade infinita de perspectivas.

Mas não se deixe iludir pelo meu uso da palavra meditação ou pelas considerações sobre a temática do livro. Passado num futuro tão próximo que poderia estar acontecendo agora mesmo, WWW:Wake tem um estilo leve, fluente, que em momento algum se torna chato ou pedante, nem afunda em tediosos infodumps, mesmo que apresente (e explique!) uma quantidade respeitável de conceitos sobre teoria da informação, neurociências, a natureza da visão, autômatos celulares, etologia, epidemiologia e política. Esses dados, fundamentais para a compreensão da história, são entretecidos à narrativa com habilidade e em momento algum atravancam o andar da carruagem ou se colocam na frente do que realmente importa para o autor, que são os personagens.

Nada também daquela “prosa apinhada” ou das “erupções rápidas, estonteantes, de informação nova, numa sobrecarga sensorial que mergulha o leitor no equivalente literário da ‘parede de som’ do hard-rock“, que Bruce Sterling, no prefácio de Mirrorshades, considerava uma das características da ficção científica cyberpunk. De fato, distanciar-se da estética cyberpunk e de sua angústia noir-existencial parece ser um dos pontos de honra para Sawyer. “Goodness, no. This isn’t William Gibson”, exclama um dos personagens logo nas primeiras páginas. E, mais adiante, o autor faz uma brincadeira deliciosa com as linhas de abertura de Neuromancer, que eu não vou reproduzir aqui para não estragar a surpresa, mas que me fez rir à vera.

WWW:Wake pode não ser um livro denso ou profundo, o que neste caso não é nenhum demérito – se eu tivesse que escolher um único adjetivo para caracterizá-lo, seria leveza - mas é um livro amplo. Tão amplo quanto a world wide web.

3 Respostas para “This Isn’t William Gibson”

  1. Giseli disse

    Putz, PRECISO ler esse livro! Eu curto bastante esses livros que conseguem explicar os conceitos no meio da trama sem atravancar o fluxo.
    Quer dizer que vem mais 2 livros pela frente? :D
    Boa resenha, Lúcio!

  2. Fabio disse

    Já comecei a ler. Vou entrevistar o Sawyer pro Post-Weird. Alguém tem alguma pergunta pra ele? ;-)

  3. Ivo Heinz disse

    Grande Fabião, que tal explorar a coincidência do 9 de Abril de 2009 ??
    Acho que da turma só eu e você nos preparamos, hehehehehe.

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