A Voz da Autora
Publicado por Lúcio Manfredi em 15/04/2009
Há já um par de anos que a ficção especulativa brasileira vem vivendo um período de efervescência sem precedentes. Pequenas editoras especializadas nos gêneros fantásticos surgiram ao mesmo tempo em que editoras médias e até umas poucas grandes abriram espaço em suas agendas para publicar fantasia, terror e, em menor grau, ficção científica. Talvez o grande precursor dessa onda tenha sido André Vianco que, munido com pouco mais do que a cara e a coragem, provou a viabilidade comercial da ficção especulativa que, se não é capaz de desbancar os cachorrinhos de Cabul (ou qualquer que seja a moda atual) da lista dos best-sellers, pelo menos vende o suficiente para não dar (muito) prejuízo às editoras que publicam esse tipo de literatura e garantir (alguma) continuidade à carreira de quem a escreve. No rastro de Vianco, surgiram dezenas de outros escritores e, a julgar pelo talk-of-the-town nas comunidades do Orkut, há muitos outros em processo de gestação.
Escritores, porém, não são necessariamente autores, embora todo autor seja, por definição, um escritor.
Qualquer um capaz de tamborilar num teclado ou segurar a caneta junto ao papel sem babar sobre a folha pode ser um escritor, e alguém que cresceu lendo literatura fantástica é perfeitamente capaz de regurgitar suas leituras e parir um Eragon ou coisa que o valha. Clones de Tolkien, que pululam há décadas no mercado americano, começam a invadir também as estantes de literatura brasileira. A grande maioria é de uma mediocridade atroz, muitos são bons e uns quantos são até muito bons, mas o que falta a todos eles é uma voz própria, individualizada, a assinatura particular de um autor e o que o diferencia de um escritor, mesmo de um escritor competente.
“Jovens escritores, na esperança de se destacarem no cenário”, diz o ensaista americano A. Alvarez, “confundem com frequência voz com estilo, mas este é bem diferente de uma voz com todo o peso de uma vida, mesmo jovem, por trás,aquilo que Jane Kramer chama de ‘a voz que você na verdade não consegue escutar… que, com alguma sorte, algum dia irá se parecer com você’.” E cita Philip Roth: “Não pretendo ter estilo… eu quero ter voz: algo que começa mais ou menos na parte de trás dos joelhos e chega até bem acima da cabeça.”
A falta de uma voz própria não é um problema para Ana Cristina Rodrigues, que já vem escrevendo há alguns anos pelos escaninhos da net, mas que estréia agora no papel com a antologia Anacrônicas – Pequenos Contos Mágicos – título que, por si só, já equivale a um achado.
A primeira coletânea de um autor – tirando, possivelmente, os Dublinenses de Joyce (e mesmo assim, há controvérsias) – costuma ser um apanhado de instantâneos dos diferentes momentos de sua aprendizagem no ofício, o que costuma acarretar uma certa irregularidade entre os contos que a compõem, e eu estaria mentindo se dissesse que Anacrônicas é a exceção que confirma a regra. Há contos que dão a impressão de acabar no ponto em que deveriam começar, isto é, estabelecem a (boa) situação, apresentam os (fortes) personagens, e então terminam. Outros, ainda que charmosos, são pouco mais do que vinhetas (muito) bem-escritas.
Mas são uma minoria.
Boa parte dos contos acerta o alvo com a precisão de um arqueiro zen, e o alvo que eles acertam é aquela mistura de emoções contraditórias e reações viscerais que constituem você, meu caro leitor.
Cortázar costumava comparar o romance e o conto ao boxe, dizendo que, enquanto o romance ganha por pontos, um bom conto é aquele que vence por nocaute. Pois assim são as anacrônicas: elas tomam de assalto a sensibilidade do leitor e o deixam nocauteado, zonzo, perguntando-se o que foi que o atingiu. E até mesmo os (poucos) contos mais fracos dão um testemunho eloquente, não de uma escritora, mas de uma autora em gestação.
O que faz de Ana Cristina uma autora é muito simples.
Ela tem uma voz.
Pegue, por exemplo, o primeiro conto, “É Tarde!”, uma brilhante homenagem a Lewis Carroll, e compare com o último conto, “Apocalypse NOW!”, sobre o maior espetáculo da Terra e que é também o reality show definitivo. Acrescente à mistura o conto-bônus, “O Sábio de Osgoroth”, em que L. Frank Baum encontra a space opera clássica. Já que está com a mão na massa, inclua “A Dama de Shalott”, uma releitura da legenda arturiana – por si mesma uma terra devastada por autores que já viraram e reviraram a mitologia pelo avesso, mas no qual Ana Cristina consegue não só encontrar um ângulo próprio como também compor o que, na minha opinião, é o melhor conto do livro. E agora, para uma coisa completamente diferente, vá para o comovente “O Mapa da Terra das Fadas”, uma história com toda a pinta de autobiográfica, em que uma mãe encontra uma forma original de explicar ao filho pequeno os fatos da vida, só que não é bem isso.
Sacou qual é a voz da autora?
Não se trata apenas do diálogo pós-moderno com as tradições literárias do fantástico, tradições que vão do conto-de-fadas ao mito à ficção científica, e que são retomadas, subvertidas e até pervertidas pelas anacrônicas. Esse é certamente um traço, e um traço importante, da voz de Ana Cristina, mas não é exclusivo dela e, na verdade, é pouco provável que um autor contemporâneo consiga escrever qualquer coisa sem estabelecer algum tipo de conversação tensa ou irônica com todas as histórias que já foram escritas. Especialmente nestes tempos de dying earth, quando todas as histórias já foram escritas.
(Nota marginal: pelo menos desde o século XVIII existe um certo consenso de que todas as histórias possíveis são apenas variações de um punhado de plots. O consenso vai para o saco quando se trata de dizer quantos e quais são esses plots – as sugestões variam das caóticas trinta e seis situações dramáticas de George Polti às indeterminadas duzentas mil situações dramáticas de Etiénne Soriau. Como se vê, os franceses parecem ter um prazer especial nesse tipo de catalogação, mas quem começou com a gritaria foi um alemão, Goethe, que em suas conversas com Eichmann alegou que só existem trinta e seis situações dramáticas, e que estão todas em Shakespeare, mas prudentemente ficou na moita quanto a quais seriam elas. Fim da nota marginal.)
O que distingue Ana Cristina e faz com que, depois de ler um conto dela, se reconheça sua voz em todos os outros contos, é a maneira como ela estabelece esse diálogo. Não é só uma questão de estilo, a não ser que tomemos a palavra na acepção de Buffon de que o estilo é o homem – ou, neste caso, a mulher. Em termos de forma (para usar uma distinção clássica, ainda que problemática), Ana Cristina escreve numa linguagem lírica, poética, até mesmo com os clichês do lírico e poético usados deliberadamente. Mas o conteúdo que essa forma transmite é uma ironia cortante, cruel, frequentemente sarcástica.
A proporção entre esses dois ingredientes, claro, varia de história para história, algumas são puro lirismo, em outras (como a já citada “Apocalypse NOW!”) a ironia reina absoluta, mas é na combinação paradoxal entre os dois que a autora obtém o resultado mais efetivo.
E o resultado que ela obtém dessa combinação paradoxal é, bem, paradoxo.
A linguagem lírica convida ao envolvimento emocional, à identificação entre os sentimentos dos personagens e os do leitor, ao mergulho acrítico no universo ficcional que lhe é apresentado. A perspectiva irônica, por sua vez, cria um distanciamento, no sentido brechtiano, é um olhar crítico, que coloca os personagens sob a lente de um microscópio e os examina com uma objetividade clínica, científica. Ao apresentar uma perspectiva irônica numa linguagem lírica, a autora nos convida ao mesmo tempo a entrar na pele dos personagens e a olhá-los de fora, o que resulta num double bind, uma dissonância cognitiva que mobiliza simultaneamente, mas em direções opostas, a função sentimento e a função pensamento.
E foi graças a essa estratégia literária única que Ana Cristina encontrou sua própria maneira de realizar o que Darko Suvin considera a essência da ficção especulativa – o estranhamento cognitivo. O que, mesmo que ela não escrevesse mais nada, já lhe garantiria um lugar de destaque na história do gênero no Brasil, um lugar que ela conquistou escrevendo histórias eficientes e com pleno domínio da voz autoral, sem precisar se esconder atrás de moinhos-de-vento ideológicos. Mas seria uma pena se Ana Cristina não escrevesse mais nada.
Sua voz ia fazer uma falta danada.
Giseli disse
Ae, finalmente um post novo do Lúcio!
Excelente resenha! Vou admitir que li meio rápido o livro da Ana, mas depois do seu post, acho que vou considerar relê-lo atentando para esses pontos destacados no seu texto.
Anyway, concordo contigo que a Ana tem um estilo próprio e forte, sabe cativar o leitor contando a história da maneira certa. Gostei da maioria dos contos, são poucos os que não foram tão bons, felizmente.
Os desenhos que precedem cada conto estão ótimos!
Tibor Moricz disse
Depois de uma resenha destas, quem há de querer largar o teclado? Escrever torna-se obsessão, uma loucura que anseia por ainda mais resenhas fantásticas.
Ainda não li o Anacrônicas, pecado que devo corrigir em breve.
Rafael "Lupo" Monteiro disse
Excelente resenha, e concordo com ela! Alguns contos realmente dão a sensação de terminar na hora que as coisas começam a ficar interessantes, mas a maioria é simplesmente muito bom! Meu preferido também é a Dama de Shallot.
Ivo Heinz disse
Muito boa a resenha Lúcio.
Também senti, ao ler o livro, que muitas das idéias reformatadas dariam ótimos romances, o feeling ela já tem.
Teua afirmações no finzinho, “já lhe garantiria um lugar de destaque na história do gênero no Brasil, um lugar que ela conquistou escrevendo histórias eficientes e com pleno domínio da voz autoral, sem precisar se esconder atrás de moinhos-de-vento ideológicos” eu assino embaixo, perfeito, vamos lembrar que ela levantou o defunto CLFC, um esforço hercúleo que só tem par ao do Nascimento (Fundador do Clube), mais ninguém.
Fazem anos que apostei na moça, o lucro está aí, com a qualidade do trabalho dela.
E, last but not least, legal você voltar a alimentar teu blog, faça isso mais vezes.
Abração
Gerson disse
Ana: Estreia com o pé direito.
Lúcio: uma das resenhas mais lúcidas e eruditas que li nos últimos tempos, parabéns!
E, sim, “A Dama de Shallot” já se tornou uma unanimidade positiva da FC&F brasileira 2009. Se ainda houvesse o Prêmio Argos, seria um candidato fortíssimo!
Fabio disse
Que crítica LINDA!!! É nessas horas que eu sinto uma inveja danada (saudável, vejam bem) do Lúcio! Um crítico que qualquer autor adoraria ter – mas nem todos têm, ouviram. Ana, além de ter começado muito bem na carreira, já tem um excelente padrinho crítico.
Lúcio Manfredi disse
Oi, Gi!
O blog andou paradão porque, como eu te disse, encasquetei que este ano vou escrever o romance. Ainda tô escrevendo, mas agora que ele já chegou na metade, dá pra entrar em velocidade de cruzeiro e escrever também uma coisinha aqui, outra ali.
Pois é, os desenhos do Estevão ficaram muito maneiros!
Bjs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Salve, Tibor!
Este resenhista diletante penhoradamente agradece. O ideal seria comentar todos os lançamentos da FCB neste longo e produtivo annus mirabilis, mas alguns eu li antes de criar o blog e outros, ainda não tive tempo nem de comprar, quanto mais de ler.
Mas, aos poucos, tudo vai entrando nos eixos.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Saravá, Lupo!
É como o Gerson disse, “A Dama de Shallot” já é praticamente uma unanimidade. Mas tá longe de ser a única “pérola de grande valor” do livro.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Ave, Ivo!
A “culpa” da demora em atualizar é do meu romance. Mas, aos poucos, eu vou retomando. E, depois que ele acabar, se eu não tiver que viajar pra Vênus, espero manter uma regularidade maior.
E, sim, você fez muito bem em apostar na Ana. Azar de quem não acreditou nela.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Greetings, Gerson!
O mérito pela resenha é todo da Ana – é muito fácil resenhar um livro quando o material ajuda. As Anacrônicas foram mesmo uma belíssima estréia em papel. Pena mesmo que não haja um prêmio pra elas, seria mais do que merecido.
Abs.
L.
Lúcio Manfredi disse
Fala, Fábio!
Caramba, um comentário desses vindo de um autor que é referência obrigatória em matéria de fcb me deixa mais do que feliz, e me faz pensar que eu deveria mesmo me obrigar a atualizar o blog com mais regularidade…
Abs.
L.
Eduardo Torres disse
Todos dizem q nao se deve elogiar o Lucio, senao ele fica (mais) prosa, mas concordo com o Gerson q essa e’ uma das resenhas mais instigantes e enriquecedoras q li nos ultimos tempos (*). A Ana realmente inspirou o resenhista, pois escreveu uma coletanea provocante, multifacetada, com estilo proprio e bem cuidado, e acima de tudo, como bem registra o Lucio, com voz autoral. Parabens, Ana! Anacronicas ja’ fez historia.
(*) Ecoou em mim as emocoes q senti ao ler na lista do CLFC, em tempos primevos, suas impressoes sobre o filme ‘O Show de Trumann’. Corri pro cinema pra ver o filme de novo. Deu vontade agora de reler alguns contos do livro, aa luz dos comentarios do Lucio.