Há já um par de anos que a ficção especulativa brasileira vem vivendo um período de efervescência sem precedentes. Pequenas editoras especializadas nos gêneros fantásticos surgiram ao mesmo tempo em que editoras médias e até umas poucas grandes abriram espaço em suas agendas para publicar fantasia, terror e, em menor grau, ficção científica. Talvez o grande precursor dessa onda tenha sido André Vianco que, munido com pouco mais do que a cara e a coragem, provou a viabilidade comercial da ficção especulativa que, se não é capaz de desbancar os cachorrinhos de Cabul (ou qualquer que seja a moda atual) da lista dos best-sellers, pelo menos vende o suficiente para não dar (muito) prejuízo às editoras que publicam esse tipo de literatura e garantir (alguma) continuidade à carreira de quem a escreve. No rastro de Vianco, surgiram dezenas de outros escritores e, a julgar pelo talk-of-the-town nas comunidades do Orkut, há muitos outros em processo de gestação.
Escritores, porém, não são necessariamente autores, embora todo autor seja, por definição, um escritor.
Qualquer um capaz de tamborilar num teclado ou segurar a caneta junto ao papel sem babar sobre a folha pode ser um escritor, e alguém que cresceu lendo literatura fantástica é perfeitamente capaz de regurgitar suas leituras e parir um Eragon ou coisa que o valha. Clones de Tolkien, que pululam há décadas no mercado americano, começam a invadir também as estantes de literatura brasileira. A grande maioria é de uma mediocridade atroz, muitos são bons e uns quantos são até muito bons, mas o que falta a todos eles é uma voz própria, individualizada, a assinatura particular de um autor e o que o diferencia de um escritor, mesmo de um escritor competente.
“Jovens escritores, na esperança de se destacarem no cenário”, diz o ensaista americano A. Alvarez, “confundem com frequência voz com estilo, mas este é bem diferente de uma voz com todo o peso de uma vida, mesmo jovem, por trás,aquilo que Jane Kramer chama de ‘a voz que você na verdade não consegue escutar… que, com alguma sorte, algum dia irá se parecer com você’.” E cita Philip Roth: “Não pretendo ter estilo… eu quero ter voz: algo que começa mais ou menos na parte de trás dos joelhos e chega até bem acima da cabeça.”
A falta de uma voz própria não é um problema para Ana Cristina Rodrigues, que já vem escrevendo há alguns anos pelos escaninhos da net, mas que estréia agora no papel com a antologia Anacrônicas – Pequenos Contos Mágicos – título que, por si só, já equivale a um achado.
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