Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Posts de Dezembro 5th, 2008

FC e(´) Mainstream

Publicado por Lúcio Manfredi em 05/12/2008

Há muito tempo – quase numa galáxia muito distante – um autor (Brian Aldiss, talvez?) observou que a ficção científica não se opunha ao mainstream, ela era o próprio mainstream. Naquele momento, a observação pode ter sido só uma bravata, mas também pode ter sido uma antecipação daquilo que estava por vir e que alcançou sua corporificação plena a partir da última década do século XX e primeiros anos do século XXI: à medida que a revolução informática foi ganhando as ruas, a própria realidade tornou-se cienciaficcional, e isso no nível mais quotidiano possível, com computadores pessoais, celulares, Internet, tevês de plasma e LCD, realidade virtual, mundos virtuais, comunidades virtuais, conceitos e equipamentos muitas vezes diretamente antecipados pela ficção científica.

Mas, muito mais do que uma antecipação pontual de idéias e inventos, a ficção científica ajudou a moldar a sensibilidade adequada para lidar com esse admirável mundo novo que surgiu. Pessoas que ainda hoje têm um desprezo elitista ou ignorante (no sentido literal: não sabem e nem querem saber nada sobre a fc) vivem imersos no ambiente e na sensiblidade cienciaficcional, mais ou menos no mesmo sentido em que o homem comum exprime um desprezo solenemente preconceituoso pelos nerds (um universo que intersecta o da ficção científica em muitas áreas), ao mesmo tempo em que não se furta de usar equipamentos e programas desenvolvidos por aquelas pessoas mesmas que são o alvo de seus preconceitos.

Um fenômeno semelhante ocorre no campo da literatura. Uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista não pode deixar de refletir o ambiente de alta tecnologia em que vivemos e, consequentemente, a sensibilidade cienciaficcional que o moldou (e foi moldada por ele, é uma via de mão dupla).

Em outras palavras, uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista é virtualmente indistinguível de um romance de ficção científica – exceto por um detalhe pequeno, mas nada irrelevante: a ficção realista vem na rabeira das transformações sociais geradas pela tecnologia, ao passo que a ficção científica descreveu essas transformações antes que elas ocorressem e, mais do que isso, ajudou a pavimentar o caminho para elas.

“Sois modernos atrasados ou contemporâneos do futuro?”, perguntavam Louis Pauwels e Jacques Bergier no seminal O Despertar dos Mágicos. De certa forma, a linha que separa a ficção dita realista da ficção científica passa exatamente por aí. Os de lá são modernos atrasados, tentando adaptar seus cânones às novas realidades (ou vice-versa), ao passo que os de cá são contemporâneos do futuro, visionários, não numa acepção estritamente cronológica – a ficção científica tem muito pouco a ver com prever o futuro – mas num sentido quase metafísico: autores de ficção científica sondam livremente o pool dos mundos possíveis, alguns dos quais eventualmente até podem ser atualizados nisto que chamamos de realidade, mas isso é o que menos importa. É na sondagem mesma de múltiplas perspectivas ontológicas que reside o grande trunfo do gênero, e não no eventual acerto lotérico de qual mundo vai cair na real. Sartre dizia que a força da imaginação está em sua capacidade de nadificar a realidade concreta e abrir a consciência para a exploração de outros existenciais possíveis. Com exceção da fantasia (quando não está presa a estereótipos pseudomedievais tolkienianos, ou seja, quase nunca), nenhum outro gênero literário cumpre esse programa com tanta desenvoltura quanto a ficção científica.

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