Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

Posts de Dezembro, 2008

A Inquietante Estranheza

Publicado por Lúcio Manfredi em 17/12/2008

pkdwithcatComo diria o Bóris Casoy em outros tempos, é uma vergonha! Se não fosse pelo colega Fábio Fernandes (por sua vez, noticiando uma ótima iniciativa de Adriana Amaral, a Semana PKD), este dickhead teria deixado passar em branco o aniversário de Philip K. Dick, que ontem estaria fazendo oitenta anos. Sendo Philip K. Dick o meu guru confesso, a omissão seria um pecado imperdoável. Como estou em trânsito e sem tempo de preparar a homenagem decente que a efeméride merece (e, ainda por cima, atrasado), republico abaixo um artigo de 2004, escrito em comemoração ao aniversário da morte do autor (por algum motivo, sempre achei mais fácil lembrar essa data do que a do nascimento, go figure).

Disclaimer

O Ministério da Saúde adverte: o artigo a seguir contém spoilers – pequenos, mas não obstante spoilers, que diabo!

 

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E então, o mundo dela explodiu

Publicado por Lúcio Manfredi em 09/12/2008

Num romance realista, essa frase só pode ser entendida num sentido metafórico – algum problema, evento ou incidente traumático que virou a vida da personagem de pernas para o ar. Num romance de ficção científica, por outro lado, além de poder ser usada no mesmo sentido metafórico, ainda existe a possibilidade de que a frase tenha um significado literal, implicando na destruição do planeta da personagem.

Samuel R. Delany (num ensaio reproduzido aqui) toma essa frase como exemplo de que a ficção científica requer modos de ler e responder a um texto que são particulares ao gênero, além de incluir as respostas habituais da literatura de não-fc. O que, incidentalmente, dá um certo peso à provocação de John Campbell (citada por James Gunn na mesma coletânea) de que a ficção científica abrange a literatura mainstream, já que cobre um leque de possibilidades mais vasto, do qual a literatura realista incluía apenas uma pequena fração. Ou, como diria Octavio Aragão, tudo é fc.

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Melting Pot

Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2008

E, como o mundo é uma tapeçaria de sincronicidades entrelaçadas, logo depois de escrever os dois posts anteriores, peguei para ler a antologia de Ann & Jeff Vandermeer sobre o new weird e tropecei com vários trechos pertinentes a ambos os posts. Segue-se uma colagem dos textos (que eu peguei daqui, mas que pode ser encontrada na íntegra aqui):

Justina Robson: [...] I think that Literature is going to come to SF and try and take the entire thing over by main force in the next five years. Compare, for interest, two recent publications; Jeff Noon’s Falling Out of Cars and Don De Lillo’s Cosmopolis. (Personally I think the main difference will be that one is fun to read and the other isn’t, but that’s not what I’m getting at. I think these two books are about exactly the same thing.) I think this has to happen, because the world has turned into an SF world. [...]

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M. John Harrison: Justina: Speaking of carpetbagging from the mainstream, I think you’re absolutely right, and that a big convulsion is in the offing. We need to take the advantage and get our act together, certainly. But I’m not as convinced as you that we’ll lose. (After all, we have Battleship Mieville.) It’s up to us, as individuals and as sharers of some labelled or unlabelled umbrella, to make ourselves as strong and feisty as possible. There will be a melting pot, at some level, although personally I think it will take the form of a steadily-enlarging slipstream. Up to us to allow for that and see it as an opportunity, not a defeat. To be honest, I’m in favour. The prospect shakes me out of my old guy’s lethargy. I’m ready to swim or drown…

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M. John Harrison: [...] Life in the West now is a crossply of fantasies. Because we understand fantasy from the inside, we’re the people to write about that, too. It seems to me that as a result we should open this front of the struggle-to-name, the front that faces out from the ghetto, with a certain confidence.

I’m aware here that I’m not talking directly about the New Weird, & that I’ve bundled it with Brit SF. Deliberately, because I see them both as responses–or not quite that, probably some better word–to the same situation, which is the increasing convergence of concerns between literary mainstream fiction and f/sf. Thus back to Justina’s point: they are soon going to be tackling exactly the same subjects as us. I don’t think we can beat them, in the sense of taking them on directly; but I don’t think we have to. I’m in favour of a melting pot–in fact I think it already exists, partly because “slipstream” has been quietly doing just that for a whole new generation of readers who are as happy with [my collection] Travel Arrangements as with a David Mitchell novel–although I’m very aware that both China and Justina have different views here.

(Incidentalmente, ao contrário de Justina Robson, eu não achei Cosmópolis chato – muito pelo contrário!)

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Ao Longo do Riocorrente

Publicado por Lúcio Manfredi em 06/12/2008

E então, subitamente, eu descubro que o que eu faço, o que eu tenho feito à minha vida inteira, tem um nome – em inglês, naturalmente, porque esses nomes são sempre em inglês – e uma definição crítica, e pares que militam na mesma trincheira – alguns veneráveis, outros recem-saídos dos cueiros – e polêmicas, porque os amantes da fc clássica não sabem muito bem o que fazer com essa (grande, acredite em mim, grande e crescente) trupe de expatriados felizes com sua condição de outsider. O nome, dado pelo veterano Bruce Sterling, é slipstream. E a definição crítica é que, enquanto a ficção científica é a literatura do estranhamento cognitivo (Darko Suvin), slipstream pode ser descrita como a literatura da dissonância cognitiva.

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FC e(´) Mainstream

Publicado por Lúcio Manfredi em 05/12/2008

Há muito tempo – quase numa galáxia muito distante – um autor (Brian Aldiss, talvez?) observou que a ficção científica não se opunha ao mainstream, ela era o próprio mainstream. Naquele momento, a observação pode ter sido só uma bravata, mas também pode ter sido uma antecipação daquilo que estava por vir e que alcançou sua corporificação plena a partir da última década do século XX e primeiros anos do século XXI: à medida que a revolução informática foi ganhando as ruas, a própria realidade tornou-se cienciaficcional, e isso no nível mais quotidiano possível, com computadores pessoais, celulares, Internet, tevês de plasma e LCD, realidade virtual, mundos virtuais, comunidades virtuais, conceitos e equipamentos muitas vezes diretamente antecipados pela ficção científica.

Mas, muito mais do que uma antecipação pontual de idéias e inventos, a ficção científica ajudou a moldar a sensibilidade adequada para lidar com esse admirável mundo novo que surgiu. Pessoas que ainda hoje têm um desprezo elitista ou ignorante (no sentido literal: não sabem e nem querem saber nada sobre a fc) vivem imersos no ambiente e na sensiblidade cienciaficcional, mais ou menos no mesmo sentido em que o homem comum exprime um desprezo solenemente preconceituoso pelos nerds (um universo que intersecta o da ficção científica em muitas áreas), ao mesmo tempo em que não se furta de usar equipamentos e programas desenvolvidos por aquelas pessoas mesmas que são o alvo de seus preconceitos.

Um fenômeno semelhante ocorre no campo da literatura. Uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista não pode deixar de refletir o ambiente de alta tecnologia em que vivemos e, consequentemente, a sensibilidade cienciaficcional que o moldou (e foi moldada por ele, é uma via de mão dupla).

Em outras palavras, uma ficção contemporânea que se pretenda estritamente realista é virtualmente indistinguível de um romance de ficção científica – exceto por um detalhe pequeno, mas nada irrelevante: a ficção realista vem na rabeira das transformações sociais geradas pela tecnologia, ao passo que a ficção científica descreveu essas transformações antes que elas ocorressem e, mais do que isso, ajudou a pavimentar o caminho para elas.

“Sois modernos atrasados ou contemporâneos do futuro?”, perguntavam Louis Pauwels e Jacques Bergier no seminal O Despertar dos Mágicos. De certa forma, a linha que separa a ficção dita realista da ficção científica passa exatamente por aí. Os de lá são modernos atrasados, tentando adaptar seus cânones às novas realidades (ou vice-versa), ao passo que os de cá são contemporâneos do futuro, visionários, não numa acepção estritamente cronológica – a ficção científica tem muito pouco a ver com prever o futuro – mas num sentido quase metafísico: autores de ficção científica sondam livremente o pool dos mundos possíveis, alguns dos quais eventualmente até podem ser atualizados nisto que chamamos de realidade, mas isso é o que menos importa. É na sondagem mesma de múltiplas perspectivas ontológicas que reside o grande trunfo do gênero, e não no eventual acerto lotérico de qual mundo vai cair na real. Sartre dizia que a força da imaginação está em sua capacidade de nadificar a realidade concreta e abrir a consciência para a exploração de outros existenciais possíveis. Com exceção da fantasia (quando não está presa a estereótipos pseudomedievais tolkienianos, ou seja, quase nunca), nenhum outro gênero literário cumpre esse programa com tanta desenvoltura quanto a ficção científica.

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