Mas é então que, ah, você mergulha na espuma serena do cérebro, ali onde tenros fantasmas redobram de intensidade e a beleza convulsiva faísca no brilho do olho de uma medusa cega, as palmas das mãos escancaradas, o líquido abraço de pecados sublimados colado aos lábios entreabertos da alvorada, uma canção esculpida na pedra pome de tuas vértebras filosofais. Porque basta o toque de teus dedos neste fiapo de nuvem para que um universo venha a ser no labirinto entrecruzado de sinapses, nos recessos tumultuados dos lobos temporais, no grito congelado da eternidade que repousa entre segundos que gotejam solenes. E a batida do tambor acalenta a pulsação ígnea de todas as cores que se reúnem em teus cabelos lânguidos, o fogo serpentino que risca o céu azul do crânio e desperta as calotas polares de seus sonhos tremeluzentes. Anciã de cabelos prateados, mulher de pele argêntea, menina madrepérola, o tempo é teu coração que canta, o espaço é teu hálito que vibra. E você vem ao meu encontro por entre os corredores da noite e me estende a ponte do teu olhar e me conduz ao vértice desta pirâmide, a esta câmara secreta onde os mitos são forjados e os medos se estiolam, onde eu mesmo me estiolo e minha alma é forjada, até que só reste você, carne da minha carne, sangue do meu sangue, lunar e límpido fantasma que abre suas asas de prata e alça vôo por entre a espuma serena do cérebro.
Transe
Publicado por Lúcio Manfredi em 08/01/2011
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Na floresta triangular, a seguir ao crepúsculo
Publicado por Lúcio Manfredi em 07/01/2011
“Boys do severo, anônimos, encadeados e brilhantes intérpretes da revista espetacular que, sem esperança de que este estado de coisas mude, durante uma vida inteira irá ocupar o teatro mental, sempre, a meus olhos, evoluíram misteriosamente esses teóricos seres, que eu defini como sendo aqueles que guardam as chaves: são eles que têm a chave das situações, querendo eu com isto dizer que detêm o segredo das atitudes mais significativas que possa vir a tomar perante este ou aquele acontecimento mais raro que porventura me venha a marcar. É costume dessas personagens surgirem-me vestidas de escuro – talvez de casaca; o seu rosto escapa-se-me; julgo que serão umas sete ou nove – e, sentadas num banco, lado a lado, é também costume seu dialogarem entre si, de cabeça bem erguida. Seria sempre assim que, no início de cada peça, gostaria de os trazer à cena, atribuindo-lhes o papel de cinicamente descenderem os móbiles da ação. Ao anoitecer, e por vezes muito mais tarde (não escondo que a psicanálise teria, aqui, algo a dizer), como se cumprissem um rito, costumo eu encontrá-las, errantes e sem dizer palavra, à beira-mar, aflorando ao de leve e em fila indiana às ondas. Esse seu silêncio de nada me priva, pois, para falar a verdade, as suas conversas de banco sempre se me afiguraram singularmente desconexas. Se, na literatura, quisesse descobrir-lhes um antecedente, deter-me-ia, sem dúvida, no Halderblanou, de Jarry, de onde jorra, como uma nascente, uma linguagem litigiosa semelhante à deles, sem imediato valor de câmbio – nesse Halderblanou que, para mais, termina com uma evocação bastante semelhante à minha: ‘na floresta triangular, a seguir ao crepúsculo’.
Por que é que, a este fantasma, terá irremediavelmente de suceder-se outro, situado, sem sombra de dúvida, nos antípodas do primeiro? Na arquitetura daquela peça ideal a que há pouco me referia, ele tende, de fato, a fazer cair o pano no último ato sobre um episódio que se vai perder por detrás do palco, ou que, quando muito, é representado neste a uma inusitada profundidade. A isso o leva uma imperiosa preocupação de equilíbrio, a qual, no que se lhe refere, se opõe a toda e qualquer modificação que de dia para dia possa surgir. O resto da peça é mera questão de capricho, ou antes – como não tardo a perceber – quase não vale a pena ser inventado. Agrada-me supor que todos esses focos de luz de que o espectador usufruiu irão convergir num único ponto escuro. Louvável compreensão do problema, excessiva boa vontade do riso e do pranto, humano prazer de aplaudir ou de condenar: climas temperados! De repente, porém, quer se trate ainda do banco de há pouco ou de outro qualquer, por exemplo uma cadeira de café, eis o palco novamente marcado. Marcado, desta vez, por uma fileira de mulheres sentadas, trajadas de claro, com os mais encantadores vestidos que já se viu. Exige a simetria que sejam também sete ou nove. Entra um homem… reconhece-as: uma após outra? a todas ao mesmo tempo? São as mulheres que amou, as mulheres que o amaram, umas durante anos, outras um dia apenas. Que escuro faz!
Se no mundo nada conheço de mais patético é porque me é formalmente interdito suportar qual será, neste caso, o comportamento de qualquer homem – conquanto que não seja um covarde -, desse homem que tão frequentemente me costuma substituir. Mal existe, esse homem vivo que alguma vez tentou ou tenta ainda reequilibrar-se no traiçoeiro trapézio do tempo. E seria incapaz de contar, se não fora o esquecimento, esse animal feroz de cabeça de larva. O maravilhoso sapatinho facetado afastava-se em várias direções.
Resta insinuarmo-nos, sem grandes pressas, entre os dois impossíveis tribunais que se enfrentam entre si: o dos homens que eu, por exemplo, fui, quando amei, e o das mulheres que me surgem, todas elas, vestidas de claro. Assim, o mesmo rio redemoinha, deixa marcadas as garras, desvenda-se e passa, preso do encanto das doces pedras, das sombras e das ervas. A água, enlouquecida com os seus redemoinhos, como uma autêntica cabeleira de fogo. Para fluir, como a água, em pura cintilação, seria preciso perder a noção do tempo. Mas que defesa existe contra ele? Quem nos ensinará a decantar os prazeres do recordar?” (André Breton, O Amor Louco)
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Os números de 2010
Publicado por Lúcio Manfredi em 02/01/2011
Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.
Números apetitosos
Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 11,000 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 26 747s cheios.
Em 2010, escreveu 6 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 27 artigos. Fez upload de 22 imagens, ocupando um total de 3mb. Isso equivale a cerca de 2 imagens por mês.
O seu dia mais activo do ano foi 15 de janeiro com 169 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Que diabo é a tal da new space opera? (3/3).
De onde vieram?
Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram twitter.com, io9.com, facebook.com, orkut.com.br e verbeat.org
Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por avatar o filme, william blake, space opera, epistemonike phantasia e district 9
Atracções em 2010
Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.
Que diabo é a tal da new space opera? (3/3) janeiro, 2010
20 comentários
Que diabo é a tal da new space opera? (2/3) janeiro, 2010
24 comentários
Uma Experiência Visionária dezembro, 2009
16 comentários
Que diabo é a tal da new space opera? (1/3) janeiro, 2010
17 comentários
“O mundo fenomênico não existe; ele é uma hipóstase das informações processadas pela Mente.” (Philip K. Dick) março, 2010
10 comentários
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Reescrevendo Machado
Publicado por Lúcio Manfredi em 16/09/2010
Dom Casmurro e os Discos Voadores é o meu terceiro romance, mas o primeiro publicado em papel (Abismos do Tempo saiu como um ebook e o segundo, Encruzilhada, ainda está à procura de editora). Estou longe, portanto, de ser um romancista veterano. Nessas circunstâncias, a proposta de reescrever um dos principais livros de Machado de Assis foi nada menos que um desafio. Mas um desafio no qual eu mergulhei de cabeça e que me diverti muito peitando.
O convite veio em março deste ano, feito pelo Pedro Almeida, da Lua de Papel, um dos selos da Ed. Leya Brasil. Seguindo a tendência criada nos Estados Unidos por livros como Orgulho, Preconceito & Zumbis, de Seth Grahame-Smith, o Pedro reuniu um time de escritores para recriar clássicos da literatura nacional, recheando-os com elementos fantásticos. A mim coube Dom Casmurro e, quando eu cheguei à sede da editora para a primeira reunião, já tinha uma premissa na cabeça que eu achava que podia funcionar. O editor gostou da ideia, e eu passei os dois meses seguintes afundado no computador, tentando dar uma forma concreta à premissa. (Incidentalmente, é por isso que o blog ficou parado tanto tempo. Isso, mais uma operação de hérnia que não vem ao caso. :p)
Ok, para isso, era preciso definir alguns parâmetros.
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“O mundo fenomênico não existe; ele é uma hipóstase das informações processadas pela Mente.” (Philip K. Dick)
Publicado por Lúcio Manfredi em 02/03/2010
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O Leitor Bloqueado
Publicado por Lúcio Manfredi em 26/02/2010
Um espectro ronda a vida de todo escritor que se preza ou se despreza: o bloqueio criativo. Encarar a página em branco com a cabeça vazia, ou com a cabeça cheia mas os dedos dormentes, ter uma necessidade aguda de escrever e ainda assim ser incapaz de fazer as palavras encontrarem o caminho até o papel. Being there, done that. Mas, neste início de 2010, eu tropecei com uma síndrome que nunca tinha enfrentado desde que aprendi a ler assistindo Vila Sésamo, lá pelos idos de 1975, e que é o reverso exato do writer’s block: o reader’s block.
O ano começou bem, com Duma Key, de Stephen King, e Singularity Sky, de Charles Stross, e eu fechei janeiro com um saldo de dez livros lidos, o que não é nada perto de gente como meu amigo Fábio Fernandes, que nesse mesmo tempo já tinha mandado goela abaixo quase cinquenta livros, mas é uma média aceitável para mim. Por outro lado, se eu examinasse a lista com mais cuidado, teria soado o primeiro sinal de alerta: desses dez livros, só dois – justamente os dois que eu citei – eram de ficção.
Em fevereiro, meu ritmo de leitura despencou ladeira abaixo. Abri o mês lendo City at the End of Time, de Greg Bear, e fecho o mês lendo… City at the End of Time, de Greg Bear. Ok, parte da culpa cabe ao livro. Bear costuma ser um escritor genial, City at the End of Time tem uma premissa fascinante e é recheado com ideias que exsudam sense of wonder. No dia em que conseguir terminá-lo, espero até comentar por aqui. Mas a história vai se desdobrando num ritmo de conta-gotas e as descrições, longas e arrastadas, não são exatamente o que se poderia chamar de um tributo a Page Turner. Mas seria injusto fazer dele o bode expiatório das minhas parcas leituras no mês. Até porque tentei entremear o romance de Bear com outros livros e praticamente nenhum deles engrenou até agora.
Eu me pergunto para onde foi o tempo que normalmente dedico a leituras, e porque levou com ele aquela sensação de arrebatamento que faz as páginas voarem diante dos meus olhos. Não foi excesso de trabalho. Só agora, no final de fevereiro, é que eu peguei um trabalho que consome dias inteiros. Não foi o carnaval, que eu passei em casa, revisando o meu romance. Não foi nem mesmo a revisão, que é bico comparada à tarefa de escrever o romance, coisa que eu fiz no ano passado e não impediu que eu chegasse em dezembro com quase cem obras de ficção devidamente degustadas, fora os livros de não-ficção.
Postei um comentário sobre isso no Twitter e recebi centenas de respostas de leitores que estavam passando pela mesma situação no mesmo período. Tá, não foram exatamente centenas. Na verdade, foram só três. Mas é o bastante para me fazer pensar que o problema não é localizado, mas fruto de algum tipo de conjuntura cósmica ou astrológica.
Deve ter a ver com as manchas solares.
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Que diabo é a tal da new space opera? (3/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 14/01/2010
Diante de tudo isso que a gente acabou de ver, deve ter ficado evidente que a new space opera é menos uma ruptura do que um prolongamento da space opera clássica. É a boa e velha space opera sonhada por Lester Del Rey, só que incorporando o amadurecimento, a evolução e os desdobramentos que a ficção científica atingiu na segunda metade do século XX.
Em nenhuma outra obra essa sensação de continuidade fica tão nítida quanto na série Fundação, que começou a ser escrita pelas mãos de Asimov lá nos idos da chamada Era de Ouro, tornou-se o protótipo da space opera clássica, ficou em hibernação durante quase três décadas, foi retomada na década de 80 pelo próprio Asimov que, já velhinho e doente, fez uma tentativa canhestra de incorporar algumas das conquistas da new wave (como, por exemplo, a liberdade para falar de sexo na fc) e acabou sendo concluída em clave de new space opera pelos Killer B’s da ficção científica – Gregory Benford, Greg Bear e David Brin, que escreveram a Segunda Trilogia da Fundação com autorização do espólio do Bom Doutor.
Enviado em Ficção Científica, Ficção Especulativa, Literatura | Etiquetado: New Space Opera, Space Opera | 20 Comentários »
Que diabo é a tal da new space opera? (2/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 10/01/2010
Mas afinal, que diabo é a new space opera e em que ela se diferencia da space opera tradicional? Talvez o melhor seja começar pelas características que elas têm em comum.
Apesar de alguns clássicos da space opera, como Tiger! Tiger! e O Mundo de Null-A, se passarem dentro dos limites do Sistema Solar, os quintais do Sol logo se revelaram insuficientes para as ambições cósmicas do gênero, que não tardou a concentrar o melhor de seus esforços no retrato de impérios galáticos e civilizações que abrangiam dezenas, centenas e até mesmo milhares de sistemas planetários, alguns habitados apenas por descendentes de colonizadores humanos, outros compartilhados com as mais variadas espécies alienígenas.
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Que diabo é a tal da new space opera? (1/3)
Publicado por Lúcio Manfredi em 06/01/2010
Revendo a lista das minhas leituras em 2009, constatei – não exatamente surpreso – que quase 20% dos livros que eu li no ano passado (18,75%, para os que insistem na precisão) foram de new space opera. Não chega a ser uma revelação chocante. Apesar de nunca ter sido um fã ardoroso da space opera clássica – com as exceções fundacionistas de praxe, que marcaram a minha adolescência – tenho uma queda pela versão contemporânea desse subgênero, frequentemente embebida com as conquistas do movimento new wave e com uma autoconsciência literária pós-moderna que, paradoxalmente, não perde o pé na exatidão científica hard.
O que é um tanto quanto chocante foi constatar que, embora tenham ocupado uma parcela significativa do meu tempo de leitura, virtualmente nenhum desses livros foi resenhado aqui. Claro que não dá pra chorar sobre o combustível de foguete derramado nem correr atrás dos parsecs perdidos, mas achei que seria de bom-tom começar o ano corrigindo essa injustiça com um post genérico sobre a new space opera. Primeiro porque eu não quero que nenhuma disfunção da realidade venha puxar o meu pé à noite. E segundo porque, como a questão “que diabo é a tal da new space opera” volta e meia pipoca pelos fóruns da rede, imagino que um pouco de informação sobre o assunto sempre vem a calhar.
(Como o post acabou ficando um tantinho grande, ele vai ser dividido em três partes.)
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Leituras 2009
Publicado por Lúcio Manfredi em 27/12/2009
Em matéria de leituras, 2009 acabou sendo um ano menos produtivo do que eu esperava. Tinha me proposto a ler pelo menos cem obras de ficção entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, mas leituras de não-ficção, projetos profissionais e terminar de escrever o meu romance me fizeram fechar pra balanço ao atingir a marca dos oitenta livros. Por outro lado, de um ano que começou com China Miéville, terminou com Iain M. Banks e incluiu seis Dan Simmons massudos, a releitura de toda a Saga da Fundação, o último Pynchon e o primeiro Fábio Fernandes, não se pode dizer que tenha sido pobre. Segue a lista, com links para os que (também menos do que eu gostaria) foram resenhados aqui:
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