Epistemonike Phantasia

“Há outros mundos – mas estão neste.” (Paul Eluard)

O Pensamento Selvagem

Publicado por Lúcio Manfredi em 05/11/2009

claude_levi-straussPois é, morreu o cara que nos ensinou a ver os mitos não como uma coleção de historinhas absurdas, mas como um sistema. Sempre me lembro de Lévi-Strauss quando vejo Dawkins e seus discípulos enchendo a boca para enunciar, como se fosse uma novidade absoluta, as mesmas críticas que o racionalismo do século XIX fazia aos mitos, e que o antropólogo francês provou por a + b que são completamente equivocadas.

Não que Lévi-Strauss não fosse um racionalista ou que acreditasse literal e ingenuamente nos mitos, muito pelo contrário. Foi justamente com a postura metodológica de um cientista que, em obras como O Totemismo Hoje, O Pensamento Selvagem ou os enciclopédicos quatro volumes das Mitológicas (O Cru e o Cozido, Do Mel às Cinzas, A Origem dos Modos à Mesa e O Homem Nu), Lévi-Strauss se debruçou sobre a mitologia de vários povos, especialmente os povos ameríndios, para revelar a lógica que se oculta por detrás de sua aparente irracionalidade. Uma lógica que, embora diferente da lógica clássica, aristotélica, é, à sua maneira, tão rigorosa quanto um silogismo.

Mitos, dizia Lévi-Strauss, são fatos mentais. Constituem a tradução e o reflexo, em forma de uma narrativa simbólica, das estruturas inconscientes que regem o funcionamento da mente humana, que projeta essas estruturas sobre a realidade exterior a fim de introduzir ordem e significado no caos da nossa experiência bruta do mundo.

Nenhum dos elementos que compõem o mito é arbitrário ou está lá por acaso. Deuses, heróis, animais e plantas são agrupados em função de relações de simetria, afinidade e oposição, e as ações do mito são uma transposição dessas relações em termos de narrativa, mais ou menos à maneira dos sonhos, que também geram histórias a partir das estruturas inconscientes da psique.

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O Evangelho de Caim

Publicado por Lúcio Manfredi em 03/11/2009

caim_06Caim, o novo romance de José Saramago, como tudo o que sai das mãos de Saramago, é um livro diabolicamente bem escrito. Mas não se pode dizer que seja um livro profundo, especialmente se comparado à incursão prévia do autor na seara bíblica, o obrigatório O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que certamente teve um peso definitivo na concessão do Prêmio Nobel a Saramago. As contradições do texto bíblico que formam a matéria-prima do novo romance são as mesmas que me causavam perplexidade aos nove anos e que me levaram a “ser desistido” das aulas de catecismo, e o nível de questionamento não é maior do que as perguntas que eu gostava de fazer, lá pelos 12 ou 13 anos, para chocar os crentes que vinham bater à porta de casa nas manhãs de domingo. E não, eu não estou querendo dizer que fui precoce, muito menos me comparar a Saramago que, afinal, é Saramago. O que estou querendo dizer, pelo contrário, é que o último Saramago ficou aquém de Saramago. É como se ele tivesse tomado sua prodigiosa habilidade na manipulação da língua portuguesa – com a qual talvez apenas António Vieira seja capaz de rivalizar – e emprestado a um Dawkins qualquer para, em vez de Deus, Um Delírio, escrever um delírio de Deus.

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Galeria do Sobrenatural

Publicado por Lúcio Manfredi em 29/10/2009

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O blog ficou parado tanto tempo que nem sei se alguém ainda me lê. (Prometo que vou tentar consertar isso com atualizações mais frequentes, mas eu estou sempre prometendo que vou tentar consertar isso com atualizações mais frequentes.) Mas, para o caso de algum desavisado cair por aqui empurrado pelo vento kármico dos mecanismos de busca, fica o convite: dia 31 de outubro, das 15h00 às 18h30, a editora Terracota estará lançando na Livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509) a coletânea Galeria do Sobrenatural, uma homenagem mais do que merecida à antológica série Além da Imaginação (Twilight Zone), criada por Rod Serling há exatos 50 anos. Além da sessão de autógrafos, o evento vai exibir o primeiro episódio de Além da Imaginação, seguido de um bate-papo com a crítica Fernanda Furquim, da Revista TV Séries.

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Organizado por Silvio Alexandre e composto por contos que buscam recriar a atmosfera de inquietante estranheza do seriado, o livro reúne alguns dos nomes mais expressivos da literatura fantástica brasileira, um ilustre convidado português e autores representativos da nova geração de escritores, além deste que vos fala, que não é nem nome expressivo, nem autor representativo, muito menos convidado ilustre,  mas que conseguiu entrar de bicão e está torcendo para não ser desmascarado no dia do lançamento.

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O Vício Inerente

Publicado por Lúcio Manfredi em 27/10/2009

Antes de mais nada, pode esquecer o conversê detonado por Lev Grossman, de que Thomas Pynchon finalmente resolveu desistir de seus experimentalismos barrocos e escrever um romance linear, acessível, com uma história que tem início, meio e fim. Inherent ViceQuem conhece a obra de Pynchon sabe que ela sempre se dividiu, grosso modo, em dois tipos de livros: de um lado, vastos painéis históricos, com zilhões de personagens e anti-enredos tão convolutos quanto uma jibóia com ataque epiléptico; e do outro, romances mais curtos, com menos personagens e enredo mais linear, geralmente focados na Contracultura dos anos 60 e adjacências. Inherent Vice, o Pynchon mais recente, pertence a este segundo grupo. É, de fato, mais acessível do que O Arco-Íris da Gravidade, Mason & Dixon ou Against the Day, mas não é nem mais, nem menos linear do que O Leilão do Lote 49 ou Vineland (o primeiro romance de Pynchon, V, é uma espécie de proto-síntese, o ponto de origem comum do qual partem os dois vértices da pynchonália).

(Abrindo um parêntese: afinal, quando é que sai a versão brasileira de Against the Day? E já que a Companhia das Letras está reeditando parte do seu catálogo em versão de bolso, por que não incluir na lista O Leilão do Lote 49 e Vineland?)

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Em Busca do Blake Perdido

Publicado por Lúcio Manfredi em 01/05/2009

william_blake_by_thomas_phillipsTalvez nenhum outro escritor “das antigas” (final do sec. XVIII, início do XIX) permaneça tão atual e mereça tanto uma releitura pela ótica da fc quanto William Blake. Como Lovecraft, Blake criou uma cosmogonia pessoal, com seus próprios deuses e mitos. Como Philip K. Dick, ele tinha visões, era considerado louco por seus contemporâneos e estava firmemente convencido de que o mundo que vemos não é o mundo real. Como William S. Burroughs, tentou criar uma nova forma de literatura que quebrasse os condicionamentos físicos, psicológicos e espirituais do leitor, abrindo as portas da percepção para outros níveis de realidade.

Blake viveu em relativa obscuridade mas, desde que foi redescoberto (em grande parte, pelas mãos de outro grande poeta visionário, W. B. Yeats), sua influência não parou mais de crescer, e ele arrebanhou uma legião respeitável de admiradores, que vai de Yeats a Huxley a Alfred Bester a Jim Morrison à psicóloga junguiana June Singer ao escritor Philip Pullman (cuja obra mais famosa, a trilogia His Dark Materials, deve boa parte de sua inspiração a Blake), para citar apenas uns poucos.

Com suas idéias ousadas, Blake antecipou muitos dos conceitos e temáticas que depois seriam retomados pela ficção científica, especialmente pelos autores da new wave, como as noções de espaço interior, múltiplas realidades e diferentes níveis de consciência. Nada mais justo, portanto, que o próprio Blake acabasse se tornando personagem de uma história de fc, e é o que supostamente acontece em Timequest, romance de Ray Faraday Nelson publicado originalmente em 1985.

Digo supostamente porque, apesar de um dos protagonistas do livro ser um poeta inglês chamado William Blake, Blake mesmo não está lá.

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This Isn’t William Gibson

Publicado por Lúcio Manfredi em 20/04/2009

 

 

WWW:Wake

WWW:Wake

De acordo com a Locus deste mês, Robert J. Sawyer acabou de entregar à editora os originais de Watch, o segundo volume de sua trilogia sobre uma WWW autoconsciente. O que é uma ótima notícia, porque WWW:Wake é muito claramente a primeira parte de uma história mais longa: as três tramas não se cruzam em momento algum e, com exceção da trama principal, nenhuma delas tem um fecho. E mesmo o fecho da trama central é menos um desfecho do que um gancho, um ponto de virada, que engata a história numa nova direção. É de se supor que, nos volumes seguintes, a trajetória de Caitlin, a protagonista, vá se entrelaçar aos destinos de Hobo, o macaco pintor e de Sinanthropus, o dissidente chinês, que dividem com ela o palco de WWW:Wake. E você vai querer isso. Porque Sawyer – inédito no Brasil (grande novidade) e mais conhecido por aqui pela trilogia The Neanderthal Parallax (Hominids, Humans e Hybrids) e pelo relativamente recente FlashForward - é um exímio contador de histórias e um criador de personagens carismáticos com os quais é muito fácil o leitor se identificar.

 

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A Voz da Autora

Publicado por Lúcio Manfredi em 15/04/2009

 

Há já um par de anos que a ficção especulativa brasileira vem vivendo um período de efervescência sem precedentes. Pequenas editoras especializadas nos gêneros fantásticos surgiram ao mesmo tempo em que editoras médias e até umas poucas grandes abriram espaço em suas agendas para publicar fantasia, terror e, em menor grau, ficção científica. Talvez o grande precursor dessa onda tenha sido André Vianco que, munido com pouco mais do que a cara e a coragem, provou a viabilidade comercial da ficção especulativa que, se não é capaz de desbancar os cachorrinhos de Cabul (ou qualquer que seja a moda atual) da lista dos best-sellers, pelo menos vende o suficiente para não dar (muito) prejuízo às editoras que publicam esse tipo de literatura e garantir (alguma) continuidade à carreira de quem a escreve. No rastro de Vianco, surgiram dezenas de outros escritores e, a julgar pelo talk-of-the-town nas comunidades do Orkut, há muitos outros em processo de gestação.

Escritores, porém, não são necessariamente autores, embora todo autor seja, por definição, um escritor.

Anacrônicas - Pequenos Contos MágicosQualquer um capaz de tamborilar num teclado ou segurar a caneta junto ao papel sem babar sobre a folha pode ser um escritor, e alguém que cresceu lendo literatura fantástica é perfeitamente capaz de regurgitar suas leituras e parir um Eragon ou coisa que o valha. Clones de Tolkien, que pululam há décadas no mercado americano, começam a invadir também as estantes de literatura brasileira. A grande maioria é de uma mediocridade atroz, muitos são bons e uns quantos são até muito bons, mas o que falta a todos eles é uma voz própria, individualizada, a assinatura particular de um autor e o que o diferencia de um escritor, mesmo de um escritor competente.

 


“Jovens escritores, na esperança de se destacarem no cenário”, diz o ensaista americano A. Alvarez, “confundem com frequência voz com estilo, mas este é bem diferente de uma voz com todo o peso de uma vida, mesmo jovem, por trás,aquilo que Jane Kramer chama de ‘a voz que você na verdade não consegue escutar… que, com alguma sorte, algum dia irá se parecer com você’.” E cita Philip Roth: “Não pretendo ter estilo… eu quero ter voz: algo que começa mais ou menos na parte de trás dos joelhos e chega até bem acima da cabeça.”

 

 

A falta de uma voz própria não é um problema para Ana Cristina Rodrigues, que já vem escrevendo há alguns anos pelos escaninhos da net, mas que estréia agora no papel com a antologia Anacrônicas – Pequenos Contos Mágicos – título que, por si só, já equivale a um achado.

 

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A Inquietante Estranheza

Publicado por Lúcio Manfredi em 17/12/2008

pkdwithcatComo diria o Bóris Casoy em outros tempos, é uma vergonha! Se não fosse pelo colega Fábio Fernandes (por sua vez, noticiando uma ótima iniciativa de Adriana Amaral, a Semana PKD), este dickhead teria deixado passar em branco o aniversário de Philip K. Dick, que ontem estaria fazendo oitenta anos. Sendo Philip K. Dick o meu guru confesso, a omissão seria um pecado imperdoável. Como estou em trânsito e sem tempo de preparar a homenagem decente que a efeméride merece (e, ainda por cima, atrasado), republico abaixo um artigo de 2004, escrito em comemoração ao aniversário da morte do autor (por algum motivo, sempre achei mais fácil lembrar essa data do que a do nascimento, go figure).

Disclaimer

O Ministério da Saúde adverte: o artigo a seguir contém spoilers – pequenos, mas não obstante spoilers, que diabo!

 

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E então, o mundo dela explodiu

Publicado por Lúcio Manfredi em 09/12/2008

Num romance realista, essa frase só pode ser entendida num sentido metafórico – algum problema, evento ou incidente traumático que virou a vida da personagem de pernas para o ar. Num romance de ficção científica, por outro lado, além de poder ser usada no mesmo sentido metafórico, ainda existe a possibilidade de que a frase tenha um significado literal, implicando na destruição do planeta da personagem.

Samuel R. Delany (num ensaio reproduzido aqui) toma essa frase como exemplo de que a ficção científica requer modos de ler e responder a um texto que são particulares ao gênero, além de incluir as respostas habituais da literatura de não-fc. O que, incidentalmente, dá um certo peso à provocação de John Campbell (citada por James Gunn na mesma coletânea) de que a ficção científica abrange a literatura mainstream, já que cobre um leque de possibilidades mais vasto, do qual a literatura realista incluía apenas uma pequena fração. Ou, como diria Octavio Aragão, tudo é fc.

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Melting Pot

Publicado por Lúcio Manfredi em 07/12/2008

E, como o mundo é uma tapeçaria de sincronicidades entrelaçadas, logo depois de escrever os dois posts anteriores, peguei para ler a antologia de Ann & Jeff Vandermeer sobre o new weird e tropecei com vários trechos pertinentes a ambos os posts. Segue-se uma colagem dos textos (que eu peguei daqui, mas que pode ser encontrada na íntegra aqui):

Justina Robson: [...] I think that Literature is going to come to SF and try and take the entire thing over by main force in the next five years. Compare, for interest, two recent publications; Jeff Noon’s Falling Out of Cars and Don De Lillo’s Cosmopolis. (Personally I think the main difference will be that one is fun to read and the other isn’t, but that’s not what I’m getting at. I think these two books are about exactly the same thing.) I think this has to happen, because the world has turned into an SF world. [...]

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M. John Harrison: Justina: Speaking of carpetbagging from the mainstream, I think you’re absolutely right, and that a big convulsion is in the offing. We need to take the advantage and get our act together, certainly. But I’m not as convinced as you that we’ll lose. (After all, we have Battleship Mieville.) It’s up to us, as individuals and as sharers of some labelled or unlabelled umbrella, to make ourselves as strong and feisty as possible. There will be a melting pot, at some level, although personally I think it will take the form of a steadily-enlarging slipstream. Up to us to allow for that and see it as an opportunity, not a defeat. To be honest, I’m in favour. The prospect shakes me out of my old guy’s lethargy. I’m ready to swim or drown…

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M. John Harrison: [...] Life in the West now is a crossply of fantasies. Because we understand fantasy from the inside, we’re the people to write about that, too. It seems to me that as a result we should open this front of the struggle-to-name, the front that faces out from the ghetto, with a certain confidence.

I’m aware here that I’m not talking directly about the New Weird, & that I’ve bundled it with Brit SF. Deliberately, because I see them both as responses–or not quite that, probably some better word–to the same situation, which is the increasing convergence of concerns between literary mainstream fiction and f/sf. Thus back to Justina’s point: they are soon going to be tackling exactly the same subjects as us. I don’t think we can beat them, in the sense of taking them on directly; but I don’t think we have to. I’m in favour of a melting pot–in fact I think it already exists, partly because “slipstream” has been quietly doing just that for a whole new generation of readers who are as happy with [my collection] Travel Arrangements as with a David Mitchell novel–although I’m very aware that both China and Justina have different views here.

(Incidentalmente, ao contrário de Justina Robson, eu não achei Cosmópolis chato – muito pelo contrário!)

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