Quem diz que os ebooks nunca vão substituir os livros confunde o suporte com o conteúdo. Esse equívoco é ajudado pela linguagem comum, que não tem uma palavra para diferenciá-los. Eu digo que estou escrevendo um livro (conteúdo), da mesma forma que digo que vou comprar um livro (suporte) na livraria. O fato é que os ebooks nunca vão e nem podem substituir os livros pelo simples motivo de que ebooks são livros. Apenas usam um suporte diferente do quase milenar pacote de folhas de papel encadernadas. E aí, sim, no que se refere ao suporte, os ebooks não só vão como já estão começando a substituir os livros de papel. E acredite, com enormes vantagens.
Considere, por exemplo, o Kindle. Ele é perfeito? Não. Pode-se pensar em uma série de melhorias, algumas das quais, diga-se de passagem, já foram introduzidas no Nook da Barnes & Noble, que deve se tornar o principal concorrente do Kindle. Mas mesmo o Nook ainda está longe de tudo o que é possível pensar e fazer em termos de ebooks. Especula-se por aí que o tablet da Apple talvez seja o Dom Sebastião dos ebooks, mas como especula-se muito e sabe-se muito pouco, fiquemos por enquanto com o Kindle.
Ao contrário dos monitores de computador ou celular que até então vinham sendo usados para ler ebooks, o papel eletrônico do Kindle cansa menos a vista do que o papel vegetal.
O Kindle pesa menos e ocupa muito menos espaço do que a grande maioria dos livros. Apesar disso, dentro dele cabem nada menos do que 1500 volumes. Isso quer dizer que toda a minha biblioteca (aproximadamente 10.000 livros, que ocupam dois quartos inteiros, o quarto da empregada e metade da sala de um apartamento razoavelmente grande) equivale a pouco mais do que meia-dúzia de Kindles. Uma vez que cada Kindle tem mais ou menos 0,8 cm de espessura, eu poderia trocar minhas quase vinte estantes por míseros 5 cm no canto da minha mesa de trabalho e estaríamos conversados.
(Não que você tenha que comprar um novo Kindle a cada vez que entupir a memória, mind you. O exemplo é só para fins de comparação. Os livros podem ser armazenados no hd do computador ou mesmo, se você tiver confiança suficiente nas grandes corporações, na sua biblioteca digital no site da própria Amazon.)
Além disso, ele é mais fácil de manusear do que um livro de papel. E se você, como eu, é do tipo que gosta de sublinhar e anotar, não precisa mais espremer as anotações nas margens da página. Sem falar que não estraga o livro com riscos e rabiscos.
As grandes desvantagens são a ausência de cor e a relativa dificuldade de exportar trechos do livro para, por exemplo, citar numa resenha ou artigo. Acaba sendo mais fácil copiar o texto manualmente… que é exatamente o que você faz quando vai citar um livro de papel. Ou seja, em seu pior, o Kindle iguala o livro de papel. E em seu melhor, supera – e muito.
(Ah, sim, a cor. Pois é, as capas pb são mais uma questão de economia de memória e largura de banda do que uma impossibilidade técnica. Tanto que o Nook já não tem esse handcap, e pode apostar que os próximos modelos do Kindle também não vão ter.)
Foi assim, apresentando vantagens em relação ao suporte anterior, que o livro de papel se impôs sobre os pergaminhos, que por sua vez substituíram os papiros, que por sua vez já eram uma melhoria em relação às tabuletas de argila. Mas todos esses meios não passam de avatares progressivos, encarnações do mesmo objeto metafísico – a idéia platônica do livro, o livro por vir.